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Cartão corporativo da Presidência gastou R$ 84,5 milhões. Para onde foi o dinheiro?

Portal da Transparência mostra só mês, valor e órgão em R$ 83,4 milhões das despesas; a Secretaria de Administração concentra R$ 54,4 milhões, e a Secom diz que o sigilo é temporário.

Cartão dourado sem marca sobre faturas com tarjas pretas em mesa de gabinete, cena sobre o cartão corporativo da Presidência
Cartão dourado sem marca sobre faturas com tarjas pretas em mesa de gabinete, cena sobre o cartão corporativo da Presidência

O cartão corporativo da Presidência da República somou R$ 84,5 milhões em gastos entre janeiro de 2023 e a fatura de agosto de 2026, e o contribuinte não consegue saber em que foi gasta quase a totalidade desse dinheiro. No Portal da Transparência, mantido pela Controladoria-Geral da União (CGU), R$ 83,4 milhões, ou 98,6% do total, aparecem com o fornecedor marcado como “sigiloso”. Nessas linhas o portal mostra só o mês, o valor e o órgão que pagou. Não aparecem o servidor que usou o cartão, o dia da compra, quem recebeu o pagamento nem o que foi comprado.

O governo diz que cumpre a lei. Em janeiro deste ano, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) afirmou que o sigilo “segue a lei e é temporário”. Pela Lei de Acesso à Informação, o dado que pode pôr em risco a segurança do presidente, do vice e das famílias fica reservado até o fim do mandato, ou até o fim do último mandato em caso de reeleição. Com a vitória de Lula em 25 de outubro, a abertura das faturas desses quatro anos só pode ocorrer a partir de janeiro de 2031. A Secom também afirma que nem o presidente nem a primeira-dama, Janja Lula da Silva, têm cartão, e que as compras são feitas por servidores da Presidência.

Quanto o cartão corporativo da Presidência gastou por ano

Os valores são do próprio Portal da Transparência e cobrem as faturas pagas até agosto:

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  • 2023: R$ 24,3 milhões;
  • 2024: R$ 26,6 milhões;
  • 2025: R$ 23,1 milhões;
  • 2026, até agosto: R$ 10,5 milhões.

A média passa de R$ 1,9 milhão por mês. O ano mais caro foi 2024, e 2026 caminha para fechar abaixo dos anteriores, se o ritmo dos oito primeiros meses se mantiver até dezembro.

Quem usou o dinheiro

A maior parte da conta sai das duas unidades da Secretaria de Administração da Presidência, que somam R$ 54,4 milhões. Ela cuida da estrutura do Palácio do Planalto, do Palácio da Alvorada, da Granja do Torto e das viagens oficiais. Em seguida vêm a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), com R$ 16,4 milhões, e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pela segurança do presidente, com R$ 11,8 milhões. A Vice-Presidência, de Geraldo Alckmin, gastou R$ 1,3 milhão no período.

Do pedaço que não está sob sigilo, cerca de R$ 1,2 milhão, o portal mostra despesas com alimentação, gêneros alimentícios, hospedagem, aluguel de veículos e material de limpeza. Nas linhas sigilosas, que são quase todas, não há como saber se o gasto foi com hotel, restaurante, combustível ou outro serviço.

Mão de terno aproxima cartão dourado sem marca de maquininha em balcão de hotel, cena sobre o cartão corporativo da Presidência
As faturas sigilosas não informam se a compra foi em hotel, restaurante ou outro serviço. Ilustração gerada por IA (Gemini), não é foto do fato.

O que diz a lei sobre o sigilo

A regra está no artigo 24 da Lei 12.527/2011, a Lei de Acesso à Informação. O parágrafo 2º manda classificar como reservadas as informações que possam pôr em risco a segurança do presidente, do vice-presidente e de seus familiares. Foi pelo fim do mandato que, em janeiro de 2023, as faturas do cartão de Jair Bolsonaro puderam ser abertas.

Na prática, a exceção virou quase regra. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) já tinha apontado que, de janeiro de 2023 a abril de 2025, 99,55% dos R$ 55,4 milhões gastos no cartão da Presidência estavam classificados como sigilosos ou reservados. Em julho de 2025, o tribunal registrou falhas repetidas de transparência, como a falta de detalhamento por tipo de despesa e de acesso às notas fiscais, e deu prazo para a Presidência apresentar um plano de correção. O TCU também cobra da Casa Civil a publicação de uma tabela com os gastos por categoria. O processo de fiscalização continua aberto.

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A briga da campanha

O tema voltou com força na reta final do segundo turno. Em 23 de outubro, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) entregou ao Tribunal Superior Eleitoral autorizações para a quebra dos próprios sigilos bancário e telefônico e desafiou Lula a abrir os gastos do cartão e os registros de visitas ao gabinete presidencial, como a Folha mostrou em Flávio aceita desafio de Lula e autoriza 20 anos de sigilos. A campanha de Lula disse que entregou ao TSE os dados que tinha de entregar. A troca de documentos entre os dois lados está em Sigilos no TSE e em Documentos de Lula no TSE.

Passada a eleição, o sigilo segue igual. Nenhum ato do governo mudou a classificação das faturas, e a agenda de viagens do presidente até dezembro, com COP31, Mercosul e G20, deve continuar pesando na conta de hospedagem e alimentação. O roteiro está em Viagens de Lula.

Como conferir os gastos

Qualquer pessoa pode consultar os números, sem cadastro, na área de cartões de pagamento do Portal da Transparência. Basta filtrar pelo órgão Presidência da República e pelo período. As linhas com fornecedor “sigiloso” mostram só o mês e o valor. Quem quiser mais detalhe pode fazer um pedido pela Lei de Acesso à Informação na plataforma Fala.BR. Para as despesas já classificadas, o pedido pode ser negado com base no artigo 24.

Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.

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