Ruiz Coffees deve R$ 1,6 bilhão: três safras quebradas e juros levaram a produtora de café à recuperação judicial
Só R$ 775 milhões entram no processo; o resto está garantido por fazendas. A Caixa tem R$ 130,8 milhões a receber, e a empresa fala em crise de liquidez.

A Ruiz Coffees, grupo apontado como o segundo maior produtor de café do Brasil, deve cerca de R$ 1,6 bilhão e agora depende da Justiça paulista. O pedido de recuperação judicial foi protocolado em 8 de outubro na Vara Regional Empresarial e de Conflitos de São José do Rio Preto (SP), e a empresa atribui a crise à falta de dinheiro em caixa. Segundo ela, a produção continua.
Pouco menos da metade da conta entra no processo. Os créditos sujeitos à recuperação somam cerca de R$ 775 milhões. Outros R$ 820 milhões, aproximadamente, ficam de fora porque estão garantidos por alienação fiduciária, a maior parte com fazendas como garantia. Esses credores podem seguir cobrando por fora do plano.
Ruiz Coffees: quem é o grupo e o tamanho da operação
O grupo nasceu em 1930, em Bálsamo, no interior de São Paulo, fundado por João Ruiz Lourenço, e hoje está na quarta geração da família. É comandado por João Ruiz Lourenço Filho. As lavouras ficam em Minas Gerais e na Bahia, com cerca de 7,5 mil hectares de café, segundo os documentos do pedido. Em julho, o próprio diretor financeiro falava em perto de 9 mil hectares só de lavoura de café; a diferença entre os dois números não foi explicada.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.Em Piumhi (MG), a Ruiz Coffees mantém um armazém com capacidade para 160 mil sacas. O grupo emprega mais de 500 pessoas diretamente e, em declarações anteriores, informava produzir em média 150 mil sacas de arábica por ano. Também vende café torrado com a marca Ruiz no varejo.
Entram no pedido a Agropecuária JBP, a Agropecuária JRF, a Agropecuária Ruiz, o Auto Posto Central Bálsamo e um produtor rural pessoa física.
Três safras quebradas e café vendido antes da alta
A explicação dada pela própria empresa começa no clima. Foram três safras prejudicadas em sequência: a geada de julho de 2021, o calor extremo na florada de 2023 e a estiagem de 2024. As quebras ficaram entre 14% e 28% do volume orçado.
Na safra 2023/24, o grupo esperava 250 mil sacas e colheu 179,8 mil. Na 2024/25, a frustração foi de 21%, com 193 mil sacas. Para a 2025/26, a estimativa é de 205 mil sacas, 13,9% abaixo do previsto.
Alpha for MenO problema é que boa parte desse café já estava vendida. O grupo fechou vendas a termo com tradings, com preço fixado antes da disparada da cotação, e deu os recebíveis como garantia aos financiadores. Com a colheita abaixo do previsto, o custeio de cada safra passou a depender do dinheiro da anterior.
Também pesaram os juros. As dívidas atreladas ao CDI ficaram mais caras, o crédito ao agronegócio encolheu e os vencimentos se concentraram em 2025 e 2026. A empresa diz que tenta reorganizar o passivo desde o ano passado e que foi à Justiça quando credores deixaram a mesa de negociação e partiram para a execução.
Quem tem dinheiro a receber
Na lista de credores aparecem a Caixa, com R$ 130,8 milhões, a securitizadora Vert, com R$ 109,3 milhões, e o Sicoob, com R$ 77,9 milhões. Há também cooperativas, bancos, tradings e fundos do agronegócio.
Parte da dívida foi parar no mercado de capitais. Quatro Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) ativos têm saldo devedor de R$ 192,9 milhões e estão na carteira de Fiagros como os da Galápagos (GCRA11), da Suno (SNAG11) e da Vectis (VCRA11). As estruturas desses CRAs envolvem cerca de 1,5 mil hectares de café, um quinto da área cultivada, e 1,1 mil hectares de cana-de-açúcar. Antes do pedido, chegou a ser discutida a passagem de fazendas a um fundo dos financiadores, com arrendamento de volta à própria Ruiz.
O que a Justiça já decidiu
O juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf antecipou parte dos efeitos da recuperação. Ficaram suspensas por 30 dias as execuções e os bloqueios de bens, os credores não podem antecipar o vencimento dos contratos por causa do pedido, e o café colhido e o que ainda está no pé foram reconhecidos como essenciais à atividade. Com isso, nem os credores que ficaram fora do processo podem penhorar esse café.
O processamento definitivo ainda não foi decidido. Antes disso, a Justiça mandou fazer uma verificação prévia das condições de funcionamento das empresas, a cargo da Compasso Administração e Consultoria Empresarial. Se o pedido for aceito, a Lei de Recuperação Judicial (Lei 11.101/2005) dá 60 dias para a apresentação do plano aos credores.
O que diz a Ruiz Coffees
A empresa afirma que vive uma “crise de liquidez, e não de viabilidade operacional”, e que a atividade segue rentável. O diretor financeiro, Ricardo Prado, disse que a produção continua e que a prioridade é financiar a safra 2026/27 e manter os empregos. Segundo a Ruiz, a quase totalidade dos créditos que ficaram fora da recuperação já foi renegociada.
A venda de fazendas e de outros ativos que a empresa considera não essenciais está em avaliação e pode entrar no plano. O grupo diz que não há negociação em andamento para divulgar. Em julho, quando já renegociava com os credores, o grupo desfez a compra de fazendas, e Prado chamou a devolução de “sinal de disciplina”.
A recuperação judicial da Ruiz Coffees e o produtor do Cerrado
O caso chega num momento de crédito apertado também em Patrocínio (MG), maior produtor de café do país. Entre julho e setembro, bancos e cooperativas liberaram R$ 141,3 milhões em custeio para o café no município, contra R$ 205,1 milhões no mesmo período de 2025, uma queda de 31% no crédito rural em Patrocínio, segundo dados do Banco Central.
Quem planta na região conhece os problemas que pesaram sobre a Ruiz: quebra de safra por clima, venda antecipada que deixa o produtor fora da alta e juro alto, que deve seguir em discussão com a Selic em 2027. A conta da saca com o dólar mais caro está nesta simulação passo a passo para o produtor, e a cotação do dia fica na página do preço do café hoje em Patrocínio.
Imagem de destaque: Divulgação/Ruiz Coffees.
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