Fila por ossada em Fortaleza: doação é de projeto social que existe desde 2010
Checagens de 2024, 2025 e de 16 de outubro já classificaram como sem contexto os posts que ligam a distribuição ao governo Lula; o vídeo novo não traz data de gravação.

Um vídeo de fila por ossada em Fortaleza voltou a circular nas redes sociais na noite desta quinta-feira (29). Nas imagens, dezenas de pessoas esperam na calçada de uma avenida, no fim da tarde, com baldes, sacolas e panelas, pela distribuição de ossos de boi. Segundo a legenda que acompanha a gravação, a ação é do projeto social de Márcio Cocão no Conjunto Ceará, bairro da capital cearense. A distribuição é antiga: a associação dele faz esse trabalho há anos, sem ligação com programa do governo federal, e vídeos dela já passaram por pelo menos três checagens.
A data da gravação não foi confirmada. O vídeo não mostra a data na tela, e a Folha não encontrou registro público de uma distribuição nova nesta semana. A legenda diz que Cocão “ajuda a população há 16 anos”, conta que bate com o início das ações sociais dele, em 2010, segundo a Agência Lupa.
O que o vídeo da fila por ossada em Fortaleza mostra
A gravação tem 51 segundos. Abre com uma mulher de blusa coral, de balde e sacola na mão, que acena para a câmera enquanto a fila se estende atrás dela pela calçada. Depois aparece, em selfie, o homem que grava, e a câmera percorre a fila em vários pontos da rua. Há gente que chega de bicicleta, com o balde pendurado no guidão.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.Segundo a legenda que circula com o vídeo, a mulher brinca que levou o balde “para pegar picanha”, e o organizador responde: “Picanha, ossada!”. A Folha não conseguiu conferir a frase no áudio, que tem barulho de rua e várias vozes ao mesmo tempo.
A brincadeira remete à promessa de que o brasileiro voltaria a comer picanha, que marcou a campanha de Lula em 2022 e reaparece sempre que a carne encarece. Em agosto, um vídeo de 2025 em que o presidente fala do preço da carne também voltou a viralizar. E o corte ficou mais caro: o preço da picanha subiu 10,7% em 12 meses, como a Folha mostrou em 19 de outubro.
Checagens anteriores sobre os vídeos de doação de ossos
Não é a primeira vez que a fila do Conjunto Ceará viraliza. Em 16 de outubro de 2026, a Agência Lupa analisou um compilado de vídeos de doação de ossos na cidade que circulava no Instagram, no Facebook, no X e no TikTok com o áudio “Lula prometeu picanha, mas entregou a fila do osso”. Quem compartilhou o material foi o senador Flávio Bolsonaro (PL), então candidato à Presidência, junto com o próprio partido e o canal de WhatsApp “Tropa do Flávio”. A Lupa classificou o conteúdo como “falta contexto”: as imagens são de um projeto social e não têm relação com o governo Lula.
Na mesma checagem, a agência conferiu outra frase do áudio, a de que a população em situação de rua dobrou no governo Lula. O número cresceu cerca de 40%, e não 100%: eram 281.472 pessoas em 2022, pelos dados do Ipea com base no CadÚnico, e são 395.339 nos números mais recentes do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Alpha for MenEm janeiro de 2025, a Lupa já tinha checado um vídeo gravado em 17 de janeiro daquele ano, com a legenda “a fila do osso continua no Nordeste”. Uma busca reversa de imagens levou ao perfil do próprio Cocão, que tinha publicado a gravação durante uma distribuição. Estadão Verifica e Reuters também verificaram o mesmo conteúdo.

A fila de dezembro de 2024
A primeira grande onda foi em dezembro de 2024. A fila de 6 de dezembro daquele ano, também no Conjunto Ceará, recebeu cerca de 700 quilos de ossos doados por um vendedor de carne da Ceasa, segundo Cocão disse na época. Os ossos, de acordo com ele, vão para um sopão servido às terças e quintas a cerca de 600 pessoas. O ex-presidente Jair Bolsonaro republicou o vídeo.
O Projeto Comprova classificou como enganoso, em 10 de dezembro de 2024, o post que atribuía a doação ao governo federal com a frase “Prometeu picanha e entregou osso”. A apuração confirmou que o vídeo era real e que os ossos, com carne, eram entregues para sopa a moradores dos bairros em volta do Conjunto Ceará. “Se você ver o vídeo direitinho, você vai ver que é osso com carne”, disse Cocão.
Quem é Márcio Cocão
Cocão lidera uma associação de moradores que faz trabalho social em Fortaleza desde 2010. Além da ossada, ele cita entre as doações sopão, verdura, pão, cabeça de peixe, cadeiras de rodas e uma festa para as crianças. Foi candidato a vereador pelo PSB em 2020 e declarou apoio a Evandro Leitão (PT), que venceu a eleição para prefeito de Fortaleza em 2024.
Ele nega motivação política na distribuição. Em 2024, disse que doava ossos havia cinco anos, inclusive durante o governo Bolsonaro. Sobre a picanha, respondeu: “Eu não prometi nada, quem prometeu foi o Lula, e o que eu tenho a ver?”. Até a publicação desta reportagem, ele não tinha se manifestado em público sobre o vídeo que voltou a circular nesta semana.
O que está confirmado e o que falta saber
Está confirmado que a distribuição de ossos é uma ação frequente da associação de Cocão no Conjunto Ceará, sem vínculo com programa federal, e que vídeos dela já foram usados mais de uma vez para ligar a fila ao governo Lula. As checagens também registram que a ossada vai para a sopa de moradores dos bairros vizinhos.
Ainda não se sabe quando o vídeo desta semana foi gravado nem quanto foi distribuído. Se for uma ação nova, a fila mostra que a procura segue alta quase dois anos depois da primeira repercussão. Se for uma gravação antiga postada de novo, o caso repete o que as agências de checagem já tinham apontado. Vídeo falso ou fora de contexto foi comum na campanha deste ano: um levantamento contou ao menos 554 deepfakes só no 1º turno, e a checagem do debate da Band achou falas imprecisas dos dois candidatos.
Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.




