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Operação Contenção faz um ano: nenhuma das 117 mortes de não policiais foi filmada, diz HRW

A Polícia Civil contabiliza 99 presos e 96 fuzis apreendidos. Até agora, só os inquéritos sobre as mortes dos cinco policiais foram concluídos.

Familiares de vítimas da Operação Contenção, com camisetas de homenagem, em ato no Complexo da Penha, no Rio
Familiares de vítimas da Operação Contenção, com camisetas de homenagem, em ato no Complexo da Penha, no Rio

A Operação Contenção, ação policial nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, completou um ano nesta quarta-feira (28) com 122 mortos e sem conclusão sobre como morreram 117 deles. Um relatório da Human Rights Watch (HRW) divulgado no aniversário diz que nenhuma das 117 mortes de não policiais aparece nas cerca de 4,4 mil horas de gravações das câmeras corporais dos agentes.

Dos 122 mortos, 5 eram policiais e 117 não eram, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Rio. Quatro agentes morreram no dia da ação, em 28 de outubro de 2025, e o quinto morreu em 22 de novembro, depois de semanas internado. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) descreveu a ação como a mais letal da história recente do Brasil.

O que a HRW diz ter encontrado na Operação Contenção

O relatório se chama “Uma estratégia de morte”. Para escrevê-lo, a organização analisou o procedimento de investigação do Ministério Público do Rio (MPRJ), com quase 9 mil páginas, os 122 laudos de necropsia e as 4,4 mil horas de imagens, e entrevistou 41 pessoas, entre testemunhas, parentes de vítimas e pesquisadores.

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Segundo a HRW, só 23% dos cerca de 2,5 mil policiais que participaram da ação usavam câmera corporal. Entre os agentes da linha de frente que tinham o equipamento, mais da metade tem gravação interrompida ou com lacuna grande por volta do meio-dia. A entidade contou 278 episódios de lente coberta ou câmera retirada, envolvendo 132 policiais militares, e classificou 146 deles como suspeita de manipulação intencional. O próprio MPRJ já tinha apontado que pelo menos 17% dos equipamentos foram desligados de propósito e que em 7,8% das gravações há sinal de obstrução da lente.

A HRW também leu os laudos. Pelo relatório, mais de 60% dos mortos foram atingidos por quatro tiros ou mais. Com base nesses dados, a organização afirma haver indícios de uso excessivo da força e de que dezenas de vítimas podem ter sido mortas de forma intencional. A HRW diz ainda que a perícia não foi aos locais onde os civis morreram e que nenhum dos mortos estava entre os 51 alvos citados na investigação principal.

O balanço oficial: 99 presos e 96 fuzis

O governo do Rio apresentou a Operação Contenção como uma ofensiva contra o Comando Vermelho. A ação foi montada para cumprir 100 mandados de prisão e 145 de busca. No balanço que enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Civil informou 99 presos ou apreendidos (17 por mandado e 82 em flagrante, entre eles 10 adolescentes) e 122 armas recolhidas: 96 fuzis, 25 pistolas e 1 revólver. Na mesma lista aparecem 12 artefatos explosivos, 15 veículos, cerca de 22 kg de cocaína e 2 toneladas de maconha.

No mesmo documento, a corporação afirma que 95% dos mortos que identificou tinham vínculo comprovado com a facção e defende que o uso da força, “ainda que intensa”, foi “não apenas legítimo, mas necessário para restabelecer a ordem e preservar vidas”. Na época, o então governador Cláudio Castro chamou a ação de sucesso e disse que ela “observou os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência”. Castro deixou o cargo em março deste ano.

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Onde está a investigação das mortes

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, só os inquéritos sobre as mortes dos cinco policiais foram concluídos até agora. Eles indiciaram 12 pessoas: nove apontadas como autoras dos homicídios e três suspeitas de ordenar os ataques às forças policiais. As outras 117 mortes seguem em apuração na Delegacia de Homicídios da Capital, com acompanhamento do MPRJ. Em nota, a secretaria informou que, nos últimos 12 meses, foram colhidos 242 depoimentos e analisados 553 laudos periciais.

O Ministério Público já ouviu 255 policiais civis e militares, 61 pessoas presas na ação e 45 parentes de mortos. Policiais foram denunciados por outros crimes ligados à operação, como invasão de domicílio, furto, desvio de fuzis apreendidos e manipulação de câmeras. A HRW contou 19 denunciados até fechar o relatório; com as novas denúncias de outubro, o número chega a 28. Ninguém foi denunciado pelas mortes. Procurada por jornalistas no aniversário, a Polícia Militar disse que não daria entrevista sobre o caso, e a Polícia Civil não se manifestou.

O relatório completo está no site da Human Rights Watch.

A OEA já tinha apontado indícios de execuções

Em 6 de março deste ano, a CIDH, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), publicou um relatório sobre a ação. A comissão disse ter encontrado indícios de possíveis execuções extrajudiciais, vítimas com tiros na cabeça, falhas na preservação dos locais e problemas no uso das câmeras corporais. Também registrou lesões em 17 detidos. A CIDH pediu investigações minuciosas, independentes e imparciais sobre todas as mortes, lesões e desaparecimentos ligados à operação.

Os policiais mortos e o debate sobre segurança

Policiais rezam em missa pelos agentes mortos na Operação Contenção, no Theatro Municipal do Rio
Policiais civis e militares na missa de sétimo dia pelos agentes mortos na Operação Contenção, no Theatro Municipal do Rio, em 6 de novembro de 2025. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Do lado das forças de segurança, 14 agentes foram baleados e levados a hospitais durante a ação, segundo a HRW. Em novembro de 2025, policiais civis e militares fizeram missa de sétimo dia pelos colegas no Theatro Municipal do Rio. As investigações sobre essas mortes são as únicas já concluídas.

A segurança pública e o combate às facções estiveram no centro da campanha presidencial deste ano. Flávio Bolsonaro (PL) falou em guerra ao narcotráfico nos debates, e Lula (PT) cobrou a votação da PEC da Segurança no Congresso. A relação entre política e o Comando Vermelho chegou ao TSE, que mandou retirar publicações de Gleisi Hoffmann, Guilherme Boulos e Lindbergh Farias sobre Flávio e a facção.

Sem prazo para a conclusão

O MPRJ diz que pretende dar respostas definitivas sobre o que aconteceu naquele dia, mas não divulgou prazo para concluir as investigações das 117 mortes. A HRW cobra investigação independente e a responsabilização dos comandantes que decidiram pela operação, que, segundo a entidade, não foram responsabilizados até agora. Parentes das vítimas fizeram um ato no Complexo da Penha nesta quarta e cobraram acesso aos laudos e aos depoimentos.

Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.

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