Scar e as hienas: a promessa de fartura que o Brasil conhece bem
O vilão de O Rei Leão comprou o apoio das hienas com comida que não era dele. Em 2026 foram 35 medidas no ano eleitoral e R$ 40 bilhões fora do Orçamento.

Scar e as hienas são a melhor aula de política que um desenho animado já deu ao Brasil, e ela tem 32 anos. Em O Rei Leão, de 1994, o leão que quer o trono não convence ninguém pelo mérito. Ele vai até o cemitério dos elefantes, onde as hienas vivem com fome, e oferece a única coisa que elas querem ouvir: comida farta e para sempre, desde que o ajudem a chegar ao poder.
As hienas topam, marcham em fileira e cantam junto. Scar vira rei. E aí o filme mostra o que ninguém naquele exército quis perguntar antes, que é quem ia pagar a conta.
A promessa que custa caro para os outros
O detalhe que faz o desenho envelhecer tão bem é que Scar nunca produziu nada. A fartura que ele prometeu viria da terra dos outros, das manadas dos outros e do trabalho das leoas que caçavam. Ele distribuía o que não era dele, e isso funciona por um tempo. Depois as manadas vão embora e o capim morre, e a Pedra do Rei vira um descampado cinza onde nem as hienas acham o que comer.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.Não é preciso forçar muito para enxergar o paralelo com o Brasil de 2026. Em ano de eleição, o governo editou 35 medidas provisórias e decretos com benefícios sociais e econômicos entre janeiro e meados de outubro, o mesmo número somado nos três anos anteriores do mandato, segundo a ação que o partido Novo apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral. O partido estima o custo em cerca de R$ 73 bilhões. A Folha explicou o caso na reportagem sobre a ação do Novo contra Lula no TSE, que foi admitida pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral em 5 de novembro e ainda não teve o mérito julgado.
Pode ser que o tribunal não veja abuso nenhum. A decisão é dele, e eu não vou fingir que sei o resultado. Só que a conta não depende da sentença, porque ela já chegou.
Scar e as hienas no Orçamento de 2027
A Instituição Fiscal Independente, que é do próprio Senado e não de partido de oposição, publicou em 29 de outubro o Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 117. Segundo o texto, só três promessas de campanha, o reajuste do Bolsa Família, a perda de arrecadação com o fim das bets e o pacote dos MEIs, somam R$ 40 bilhões de desequilíbrio que não está no Orçamento do ano que vem. Os números estão na reportagem sobre o rombo previsto para 2027.
Até agora ninguém do governo disse de onde vão sair esses R$ 40 bilhões. No filme, é a parte em que a fartura prometida encontra a terra seca, e aqui o roteiro parece caminhar para o mesmo lugar.
Alpha for MenO presidente diz agora que vai cobrar prazos dos ministros. Na reunião do Conselho Nacional de Política Energética, na sexta-feira (6), ele avisou que “quem não quiser fazer, cai fora”, como mostrou a matéria sobre Lula fiscal das entregas. Acho curioso que a cobrança comece depois da eleição, e não antes.

O que o filme ensina sobre o final
Quem viu O Rei Leão lembra da cena que fecha a história de Scar. Encurralado, ele tenta salvar a própria pele jogando a culpa de tudo nas hienas e diz que elas eram o verdadeiro problema. As hienas escutam, e o líder que prometeu comida para sempre termina cercado pelos mesmos que marcharam por ele.
Quero deixar claro uma coisa, porque o tema é sensível: as hienas do desenho não são o eleitor brasileiro. Quem votou em Lula votou por razões que respeito, muitas vezes por necessidade real, e merece mais do que ser chamado de bicho por quem perdeu. As hienas do filme representam quem é usado. Quem recebe a promessa, empresta o aplauso e, quando a conta chega, descobre que ela cai justamente no seu colo, em forma de imposto ou de inflação lá na frente.
Por isso a montagem que ilustra este texto põe a mão vermelha fazendo o L sobre o exército de Scar. A intenção é lembrar que promessa paga com dinheiro alheio sempre tem dono, e esse dono nunca é quem prometeu. Ninguém ali está sendo ofendido.
A pergunta que as hienas não fizeram
O Brasil já elegeu seu presidente, e a posse está marcada. O que resta ao cidadão, aqui em Patrocínio ou em qualquer canto do país, é fazer a pergunta que o exército de Scar esqueceu: quem paga? Cada benefício anunciado tem um custo, e ele vai aparecer no Orçamento e, mais cedo ou mais tarde, no preço do mercado.
Ajudar quem precisa é obrigação de qualquer governo, e eu defendo isso. O que eu critico é a ajuda que aparece no ano da eleição e some quando o caixa aperta, deixando para os mais pobres a fatura de uma festa que não foi para eles. O desenho acaba com a chuva voltando e a terra ficando verde de novo. Na vida real, isso leva anos e depende de alguém fazer a conta antes de prometer.
As ações contra a chapa eleita que tramitam no tribunal estão reunidas na reportagem sobre as ações contra Lula no TSE, e vale acompanhar cada uma delas. Enquanto isso, fico com o que o filme já dizia em 1994: desconfie de quem promete fartura com a comida dos outros.
Eric Fernando Alves é redator-chefe da Folha de Patrocínio. Este artigo expressa a opinião do autor.
Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.




