A pauta do Fantástico sobre Janones parece mais promoção partidária do que jornalismo
O especial sobre o Exército do Lula vai ao ar uma semana depois da reeleição, com o protagonista contando os bastidores. Falta saber que perguntas o programa vai fazer.

O Fantástico prepara para este domingo (1º) um especial sobre o deputado federal André Janones e os bastidores do Exército do Lula, o canal de WhatsApp que ele criou para mobilizar apoiadores durante a campanha. Quem anunciou a reportagem foi o próprio programa: a equipe acompanhou a rotina do parlamentar e promete mostrar como ele reuniu, segundo a chamada, 10 milhões de brasileiros em três semanas. Escrevo antes de o especial ir ao ar, e por isso comento a escolha da pauta, e não o que ainda não vi. Mas a escolha já diz bastante, e o que ela diz me parece mais promoção partidária do que jornalismo.
O que a pauta do Fantástico entrega
A fórmula da chamada é conhecida: acesso exclusivo, rotina de bastidor e o protagonista explicando, com as próprias palavras, como funciona a máquina que montou. É um formato de perfil simpático, que costuma render imagem bonita e pouca pergunta incômoda. O especial vai ao ar uma semana depois da reeleição de Lula, que venceu o segundo turno em 25 de outubro. Na semana da vitória, escolher como personagem o operador digital do lado vencedor e deixar que ele conte a própria história tem um efeito inevitável: parece afago.
Ninguém discute que o canal é notícia. Segundo os números divulgados na imprensa, o grupo passa de 10 milhões de participantes. A questão não é se o tema merece espaço, e sim o ângulo. Dar espaço a um fenômeno é uma coisa. Entregar a ele o roteiro é outra.
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O canal que virou assunto público
O Exército do Lula foi alvo de pedido de suspensão feito pela campanha de Flávio Bolsonaro no TSE, com decisões que foram e voltaram durante o segundo turno. A Folha acompanhou o caso na reportagem sobre a guerra dos canais, em que o tribunal desistiu de tirar do ar os canais com mais de 200 mil seguidores. Depois da vitória, o próprio Lula disse que vai falar pelo canal de Janones no quarto mandato, como mostra a reportagem sobre o canal do Janones. Quando uma ferramenta de campanha passa a ser anunciada como meio de comunicação do futuro governo, ela deixa de ser curiosidade. Vira assunto de interesse público, e pede pergunta.
As perguntas que um bom especial faria
Quem coordena o conteúdo, quem modera, quem paga a estrutura? Qual foi a relação do canal com a campanha oficial, e por que o registro só veio depois de uma decisão do tribunal? O que a campanha de Flávio alegou, e o que respondeu a defesa? Como o grupo lida com conteúdo falso, que era justamente o centro da acusação? E o que muda quando o governo passa a usar a mesma via para falar com a população? A ação sobre as mensagens do GovBR no WhatsApp, que também chegou ao TSE, mostra que a fronteira entre campanha e poder público já está em discussão.
Nada disso aparece nas prévias divulgadas. O que aparece é a rotina do deputado, a escala do grupo e o personagem com acesso privilegiado. A disputa no TSE entra como um dos temas, e não como o centro. Quem viu a live de Janones, que passou de 300 mil pessoas ao vivo, sabe que o deputado sabe contar uma história. Ele não precisa de ajuda para isso.
Pauta de decadência
O Fantástico tem mais de cinco décadas de grandes reportagens, e é por isso que a escolha incomoda. Um programa desse tamanho podia usar a semana para perguntar como um canal de WhatsApp com milhões de pessoas se organiza e quem responde por ele. Pelo que anunciou, prefere mostrar o bastidor pelos olhos de quem comanda. Isso é pauta de revista de celebridade aplicada à política, e na semana da vitória fica difícil ler como outra coisa.
Alpha for MenEste jornal tem lado declarado, e o leitor sabe de onde vem esta crítica. A emissora que se apresenta como neutra deveria ter um critério ainda mais rígido, e o mesmo rigor que usaria se o personagem fosse do outro lado. Se o personagem fosse o operador digital de Flávio Bolsonaro, duvido que o tratamento fosse o mesmo.
O que me faria mudar de opinião
Escrevo sem ter visto o programa. Se o Fantástico fizer as perguntas acima, mostrar os dois lados da disputa no TSE e ouvir a campanha de Flávio com o mesmo espaço dado a Janones, eu reconheço aqui, com a mesma ênfase. Até lá, a pauta, do jeito que foi anunciada, parece uma promoção. E promoção, mesmo bem filmada, não é reportagem.
Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.




