Quem tem café beneficiado parado no armazém em Patrocínio passou a semana sem fechar negócio. O cafeicultor do Cerrado recolheu as ofertas depois de assistir ao indicador do arábica cair em cinco pregões seguidos, e foi essa recusa em vender que segurou a saca na sexta-feira (18), quando o mercado físico brasileiro parou de recuar.

Cinco quedas seguidas e um respiro na sexta

O Indicador CEPEA/ESALQ do café arábica fechou a sexta-feira em R$ 1.546,58 por saca de 60 quilos, com alta de 0,30%. A alta é pequena e interrompe uma sequência que vinha desde o dia 11: R$ 1.596,87 na sexta anterior, R$ 1.594,86 na segunda, R$ 1.588,43 na terça, R$ 1.566,48 na quarta e R$ 1.541,97 na quinta-feira, o piso da semana.

Medido em duas semanas, o tombo fica mais claro. No dia 4 de setembro a mesma referência marcava R$ 1.659,93. São R$ 113,35 a menos por saca em dez pregões, ou 6,83% do valor, justamente no intervalo em que o Cerrado Mineiro terminou de colher e o café saiu das fazendas de uma vez. O conilon acompanhou o movimento e fechou a semana em R$ 965,79, também com alta mínima de 0,08% na sexta.

Por que o físico parou de cair

No mercado físico, as duas principais referências do arábica ficaram paradas na sexta-feira. O cereja descascado foi negociado entre R$ 1.634,00 e R$ 1.730,00 a saca, e o tipo 6 bebida dura, entre R$ 1.570,00 e R$ 1.635,00, sem variação em relação ao pregão anterior. Segundo o balanço de mercado do Notícias Agrícolas, o que sustentou esses valores foi o câmbio somado à postura mais cautelosa dos vendedores.

Em Nova York houve alguma reação. O contrato de dezembro do arábica fechou a 280,50 centavos de dólar por libra-peso e o de março, a 271,95 centavos, com recuperação de 340 a 400 pontos depois da forte queda da véspera. A bolsa vinha de uma sessão ruim, e a volta de sexta não desfez o saldo negativo da semana.

O que ainda pesa contra o cafeicultor do Cerrado

A pressão maior continua vindo do volume. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil registrou em agosto 4,16 milhões de sacas embarcadas somando verde, torrado e solúvel, o maior volume para um mês de agosto desde o início da série histórica, em 1990, com alta de 31% sobre 2025. Setembro seguiu no mesmo ritmo: até o dia 14, com oito dias úteis contados, o país já havia embarcado 1.798.317 sacas, média diária de 224.790, o equivalente a US$ 584,586 milhões.

O segundo peso está no calendário. Com a colheita encerrada, o mercado passou a olhar para a safra seguinte, e o que viu até agora foi chuva na hora certa e florada em andamento nas regiões produtoras. Quando a lavoura floresce bem em setembro, o comprador projeta oferta folgada em 2027 e para de pagar prêmio pelo café que está no armazém hoje. O cafeicultor do Cerrado fica com esse duplo problema: o lote que ainda precisa vender e a safra que já está se formando no pé.

A conta do cafeicultor do Cerrado em Patrocínio

Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, com 64.225 toneladas colhidas em 2024, segundo o IBGE, e sedia a Expocacer, cooperativa que reúne os cafeicultores do Cerrado desde 1993. O boletim da cooperativa mostrou colheita do arábica em 99% até o dia 11 e florada de 33% nas lavouras da região. Com o terreiro vazio e o armazém cheio, a decisão de vender ou esperar chegou a quase todo mundo ao mesmo tempo.

Mesa de prova de café com xícaras usada na classificação do cafeicultor do Cerrado
Prova de café na Expocacer, em Patrocínio. Foto: Divulgação/Expocacer

Essa decisão não vale igual para todo produtor. Quem já quitou o custo de produção consegue esperar semanas e apostar numa recomposição do preço. Quem financiou insumo e tem parcela para honrar em outubro vende no valor que o mercado oferecer, gostando ou não. O recuo das duas últimas semanas, somado ao que a saca já havia perdido no início do mês, encolhe o resultado de uma safra que foi boa na lavoura.

A referência da Expocaccer na cidade já vinha caindo desde o começo de setembro, quando a saca do arábica tipo 6 bebida dura da nova safra saiu de R$ 1.800 para a casa dos R$ 1.660 em duas semanas. O movimento desta semana confirma a direção do preço, com uma diferença: a queda parou por falta de vendedor, e não por volta do comprador.

Duas coisas devem definir a próxima semana para o cafeicultor do Cerrado. Uma é o ritmo de embarque de setembro, que o relatório mensal dos exportadores vai consolidar e que serve de termômetro da pressão de oferta. A outra é a chuva sobre o Cerrado Mineiro, que decide a qualidade da florada e, com ela, o tamanho da safra 2027. O indicador diário do CEPEA segue como a régua mais acompanhada nas fazendas da região.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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