A chuva que molhou os cafezais de Patrocínio na semana passada fez duas coisas ao mesmo tempo, e as duas aparecem no bolso do produtor. Parou as máquinas no fim da colheita do café e, do outro lado do mundo, ajudou a empurrar o arábica para baixo na bolsa de Nova York, onde o contrato de dezembro fechou nesta segunda-feira (21) a 278,15 centavos de dólar por libra-peso.

O relatório semanal da Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, divulgado nesta segunda, registrou 34,3 milímetros em Patrocínio entre os dias 10 e 16 de setembro. Monte Carmelo teve 44,5 mm, Araxá 40,5 mm e Serra do Salitre 30,2 mm. Com o campo encharcado, a colheita do café ficou nos mesmos 99% do volume projetado em que já estava na semana anterior. Do total colhido, 91% passou pelo beneficiamento.

Chuva parou as máquinas e deixou café no chão

O ponto mais sensível da colheita do café neste ano continua sendo o café de chão. Ele responde por cerca de 30% de todo o volume desta safra no Cerrado Mineiro, e 81% desse café já foi recolhido. É um número que nasceu justamente das chuvas fora de época que atingiram a região em agosto: o fruto maduro caiu antes de a colheitadeira passar, e recolher o que está no solo é trabalho mais lento e mais caro, com risco de perda de qualidade se o grão fica úmido por muito tempo.

Fazenda de colheita do café no Cerrado Mineiro com lavoura, benfeitorias e mata nativa ao fundo
Lavoura de café no Cerrado Mineiro, região que tem Patrocínio como maior município produtor do país. Foto: Divulgação/Expocacer

O rendimento médio da colheita do café ficou em 455 litros por saca de 60 quilos, um dos melhores desempenhos das últimas safras na região, mesmo com a participação maior do café de chão. A projeção da cooperativa, que reúne mais de 800 produtores associados, segue em 2,8 milhões de sacas de arábica em 2026. A previsão para os próximos dias é de tempo mais seco, com 1,8 mm em Araxá, 1,4 mm em Serra do Salitre e máximas que podem chegar a 34 graus, o que deve liberar a retomada dos últimos trabalhos.

A chuva que atrapalha 2026 é a mesma que adianta a safra 2027

A confusão de datas engana quem olha só o calendário. A colheita do café de 2026 já tirou o grão do pé. O que a chuva de setembro está molhando é a flor, e florada boa em setembro significa safra grande em 2027. O levantamento anterior da Expocacer já havia apontado uma florada equivalente a 33% do potencial total da região, puxada pelas chuvas do fim de agosto e do início de setembro.

A consultoria Hedgepoint fez a mesma leitura em relatório publicado nesta segunda. A precipitação de setembro está acima da média dos últimos dez anos na maior parte das regiões cafeeiras do Brasil, com florada precoce observada tanto em arábica quanto em robusta. A analista de inteligência de mercado Laleska Moda escreveu que os estoques certificados seguem nos níveis mais baixos em décadas, mas que isso já não sustenta o preço diante do volume que está saindo do país.

Por que a colheita do café mexe na bolsa

O Brasil embarcou 4,16 milhões de sacas em agosto, recorde para um mês. O café verde respondeu por 3,8 milhões, alta de 31% em um ano; o arábica somou 2,8 milhões, avanço de 25,7%; e o conilon bateu recorde histórico com 953,5 mil sacas, 53,6% acima de agosto de 2025. Estados Unidos e Bélgica levaram mais de 500 mil sacas cada um. Em setembro o ritmo não caiu: a média diária de embarque de café verde chegou a cerca de 13,5 mil toneladas, 51,5% acima do mesmo período do ano passado.

Ao mesmo tempo, grandes tradings estão preparando volumes de arábica brasileiro para certificação nos armazéns da ICE, o que tende a recompor os estoques que estavam no menor nível em duas décadas. No Vietnã o quadro é parecido: o país exportou 2,1 milhões de sacas de robusta em agosto, o maior número em sete anos, fechou a temporada 2025/26 com 27,7 milhões e deve chegar a 30,5 milhões em 2026/27. Com oferta assim nos dois maiores produtores do mundo, a bolsa recua mesmo com estoque curto. O contrato de março também caiu, a 269,65 centavos.

Em Patrocínio, o físico subiu no mesmo dia

O mercado físico não seguiu Nova York nesta segunda. No painel de cotações da Notícias Agrícolas, a saca de arábica tipo 6 duro negociada na Expocacer, em Patrocínio, apareceu a R$ 1.655,00, com alta de 2,16% no dia, a maior valorização entre as praças acompanhadas. Araguari ficou em R$ 1.600,00 e Varginha, no Sul de Minas, caiu 2,52%, a R$ 1.550,00.

O valor recupera parte do terreno perdido nas últimas semanas. Em 15 de setembro a Folha registrou a saca de Patrocínio a R$ 1.660, depois de uma queda de R$ 140 em quinze dias. E ajuda a explicar o comportamento que a reportagem apurou na semana passada: com o preço nesse patamar, boa parte do cafeicultor do Cerrado optou por travar a venda e segurar o café no armazém, apostando em recuperação antes de fechar negócio.

O Cerrado Mineiro tem hoje 19,4 mil hectares certificados em cafeicultura regenerativa pela cooperativa, que foi fundada em 1993 e mantém sede na Avenida Faria Pereira, em Patrocínio. O município é o maior produtor de café do Brasil, com 64.225 toneladas colhidas em 2024, segundo o IBGE.

Seminário do Café abre nesta terça na cidade

O 34º Seminário do Café, organizado pela Associação dos Cafeicultores da Região de Patrocínio, acontece de 22 a 24 de setembro, com solenidade de abertura na noite desta terça-feira, entre 19h e 21h. A programação reúne produtores, agrônomos e pesquisadores para discutir mercado, clima, produtividade e tecnologias biológicas, esta última em um simpósio próprio dentro do evento.

Com a colheita do café praticamente encerrada e a próxima safra ainda dependendo de como a florada vai se firmar, a discussão de mercado abre o seminário numa semana em que os dois assuntos estão em aberto. Os técnicos da cooperativa já recomendaram que os produtores antecipem o planejamento nutricional, sobretudo a distribuição de corretivos e o início das adubações, porque a florada veio mais cedo e adiantou o ciclo da lavoura. Mais informações sobre o levantamento semanal estão no site da Expocacer e nas cotações diárias da Notícias Agrícolas.

Outras matérias sobre o mercado do café na região estão na editoria de Cidade da Folha de Patrocínio.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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