Pequenas indústrias têm a pior situação financeira em cinco anos, e o índice da CNI cai a 38,5 pontos
O índice de condições financeiras da CNI caiu 2,5 pontos em um ano. Carga tributária, juros altos e crédito restrito lideram as queixas dos empresários.

As pequenas indústrias do país vivem a pior situação financeira em cinco anos. O índice de condições financeiras da Confederação Nacional da Indústria (CNI) caiu para 38,5 pontos, numa escala de 0 a 100, no terceiro trimestre de 2026, o menor nível da série recente. O recuo foi de 0,9 ponto sobre o trimestre anterior e de 2,5 pontos sobre o mesmo período de 2025, e o resultado ficou 0,3 ponto abaixo da média histórica.
O que mostra o levantamento sobre as pequenas indústrias
O índice reúne a satisfação dos empresários com a margem de lucro, com a situação financeira do negócio e com a facilidade de conseguir crédito. A CNI não divulgou, no material consultado pela Folha, o valor de cada um desses três quesitos separadamente, e a matéria trabalha apenas com o número geral.
O desempenho operacional das pequenas indústrias também piorou. O indicador ficou em 44,3 pontos, 0,9 ponto abaixo do trimestre anterior e 2 pontos abaixo do mesmo período do ano passado. Já a confiança dos empresários subiu em outubro, de 44,4 para 46,8 pontos, mas segue abaixo da linha de 50 pontos, que separa o otimismo do pessimismo. Com isso, o setor completa 23 meses seguidos de pessimismo.
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Juros altos e crédito caro
Para a analista de Políticas e Indústria da CNI Julia Dias, o ambiente de crédito continua muito restritivo, principalmente por causa da taxa de juros elevada. Segundo ela, as pequenas empresas têm mais dificuldade para obter crédito e nem sempre conseguem o valor de que precisam. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne na quarta-feira (4), e a taxa Selic segue como ponto de atenção para quem depende de financiamento. As pesquisas da CNI ficam no Portal da Indústria.
O peso do crédito aparece de formas diferentes em cada ramo. Na construção, os juros elevados foram apontados como entrave por 39,3% dos empresários, contra 37,8% no trimestre anterior, e passaram a ser o segundo maior problema do setor.
A carga tributária é o principal obstáculo
Entre as dificuldades listadas pelos próprios empresários, a carga tributária lidera nos dois segmentos medidos. Na indústria de transformação, o percentual de empresários que a apontam como principal obstáculo subiu de 37,3% para 41%. Na construção, foi de 42,9% para 43,6%.
Na transformação, a demanda interna insuficiente ganhou peso: foi de 22,9% para 26,6% e saltou da sexta para a segunda posição entre os problemas citados. Em sentido contrário, a falta ou o custo alto de matérias-primas perdeu força, de 34,6% para 26,2%. Na construção, a falta de mão de obra sem qualificação foi lembrada por 29,1%.
Alpha for MenO que o índice mede e o que não mede
O indicador da CNI mede a avaliação dos empresários, e não o número de empresas que fecham. Por isso, falar em colapso vai além do que a pesquisa diz. O que os dados mostram é um setor que enfrenta lucro apertado, crédito caro e imposto pesado ao mesmo tempo, e que, mesmo com um pouco mais de confiança em outubro, ainda não saiu da zona de pessimismo.
A fragilidade do pequeno negócio já aparece em outras pautas que a Folha acompanha. Em outubro, a reportagem sobre a recuperação judicial da Ruiz Coffees mostrou como dívida e juros pesam sobre empresas do ramo do café, e a matéria sobre recuperação judicial explica como funciona o pedido. Para o microempreendedor, o ponto de partida mais recente foi o Pix do MEI de até R$ 5 mil.
O que acompanhar
A próxima leitura do índice só sai no quarto trimestre. Até lá, o que mais pode mexer com o resultado é a decisão do Copom sobre os juros, na semana que vem, e o ritmo da demanda no fim do ano. A Folha atualiza esta reportagem quando a CNI divulgar novos dados.
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