Lara Resende propõe Selic a 7,5% em 12 meses, mas não há reunião marcada com Lula, dizem integrantes do governo
O economista quer derrubar os juros de 13,75% para 7,5% em um ano. Uma peça nas redes diz que Lula já marcou encontro com ele, mas a equipe econômica nega que haja reunião agendada.

O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, propõe derrubar a Selic dos atuais 13,75% para 7,5% ao ano em 12 meses e depois manter os juros numa faixa permanente, entre 3% e 5,5%. A ideia chegou ao radar do presidente Lula (PT), mas uma peça que circula nas redes diz que o encontro entre os dois já está marcado, e isso não se confirma: dois integrantes da equipe econômica disseram que não há reunião formalmente agendada, e interlocutores do presidente falam em escuta, não em decisão. O mercado reagiu com cautela, e o Banco Central não se manifestou.
O que Lara Resende propõe para a Selic
O plano foi publicado por ele no fim de setembro e voltou ao debate neste domingo (1º), depois da reeleição de Lula. Pela proposta, a Selic cairia de 13,75% para 7,5% ao longo de 12 meses. Depois da transição, o juro ficaria dentro de uma faixa entre a meta de inflação, hoje de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, de cerca de 5,5%. A proposta cria ainda um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas coordenadas para as políticas fiscal e monetária num horizonte de quatro a cinco anos, e prevê o uso das reservas internacionais, de cerca de US$ 350 bilhões, para conter pressões no câmbio durante a transição.
Lara Resende reconhece, no próprio plano, que a queda dos juros pode acelerar a inflação no início. O argumento central dele é que os juros, e não só os gastos correntes, pesam no desequilíbrio das contas públicas. Pelos cálculos do economista, a dívida bruta de R$ 10,9 trilhões, com custo médio de 12,68% ao ano, gera encargos de cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, algo próximo de 10,5% do PIB. A dívida bruta equivale a 82,5% do PIB, e ele estima que o ajuste fiscal necessário seria de pelo menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.
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Há reunião marcada com Lula?
Não há confirmação oficial. A peça que circula nas redes afirma que Lula tem reunião prevista com Lara Resende. O que apareceu nos relatos de bastidores neste domingo é diferente: o presidente acompanha o assunto com atenção, mas dois integrantes da equipe econômica, que não quiseram se identificar, disseram que não existe encontro formalmente marcado. Interlocutores de Lula afirmam que não há agenda oficial para tratar da implementação das ideias, e o governo descreve o tema como parte de um processo de escuta de diferentes correntes econômicas. A Folha não encontrou nota do Planalto nem resposta de Lara Resende ao pedido de comentário feito por outros veículos.
A mesma peça cita um valor de R$ 1,2 trilhão em juros por ano e uma economia de R$ 400 bilhões anuais com a redução. A Folha não achou nenhum desses números nos textos e nos cálculos que conseguiu conferir. O valor que aparece nas contas do economista é o de R$ 1,4 trilhão de encargos, e nenhum documento consultado traz estimativa de economia em reais.
A reação do mercado e do PT
Gestores de grandes instituições, ouvidos sob anonimato, dizem temer perda de credibilidade, desvalorização do câmbio e alta dos juros futuros. Eles contestam a tese de que os juros são a causa principal do desequilíbrio fiscal e afirmam que a Selic alta reflete a incerteza sobre as contas públicas. Outro ponto levantado é a autonomia do Banco Central. O economista Sérgio Vale, da MB Associados, lembrou a experiência de 2012, quando, na avaliação dele, a redução dos juros por decisão política terminou mal e a inflação chegou ao teto da meta, de 6,5%.
No campo político, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, apoiou a discussão numa publicação na rede X e chamou o artigo de “fundamental” para enfrentar o que descreveu como uma “ofensiva terrorista” sobre a política fiscal. O Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, não comentou a proposta, segundo os relatos que a Folha consultou.
Alpha for MenO contexto: Selic alta e mercado nervoso depois da eleição
A discussão chega num momento de tensão nos mercados. A Folha mostrou a queda do Ibovespa desde a reeleição e as conclusões da ata do Copom sobre disciplina fiscal e juros altos. O Itaú projeta a Selic em 13,75% no fim de 2027 e espera que o Banco Central interrompa os cortes na reunião de 4 de novembro, como a Folha detalhou em PIB de 2027. A proposta de Lara Resende vai na direção oposta, e por isso o debate sobre a independência do BC, já tema da reportagem sobre o Banco Central independente, tende a voltar.
O que ainda falta saber
Faltam a confirmação de uma reunião, se ela existir, a posição do Banco Central e do Ministério da Fazenda sobre a proposta e uma resposta do próprio economista. A Folha atualiza esta reportagem quando houver manifestação oficial ou depois da reunião do Copom. A decisão sobre a Selic é do Comitê de Política Monetária, e os dados do juro estão no site do Banco Central.
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