O Brasil ficou fora do Escudo das Américas, a coalizão liderada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação militar e de inteligência contra o narcotráfico e o crime organizado na região. Nesta terça-feira (22), à margem da Assembleia-Geral da ONU em Nova York, o presidente Donald Trump se reuniu com líderes de países que já integram o grupo e voltou a defender uma atuação mais dura contra os cartéis latino-americanos.
O que é o Escudo das Américas
O Escudo das Américas, batizado oficialmente de Americas Counter Cartel Coalition, nasceu em 7 de março deste ano, num encontro em Doral, na Flórida, organizado pelo governo Trump. A proposta reúne hoje 19 países do continente em torno de ações conjuntas de segurança, combate a cartéis e ao que Washington chama de interferência estrangeira na região, com previsão de compartilhamento de inteligência entre os integrantes.
No encontro desta terça, ao lado de Trump, estavam representantes de países como El Salvador, Argentina, Equador, Paraguai, Peru, Chile, Guiana e República Dominicana, entre outros signatários do acordo. O Brasil nunca chegou a aderir à coalizão, e a ausência do país se repete desde o lançamento em março.
Na foto oficial do encontro em Doral, aparecem lado a lado o presidente salvadorenho Nayib Bukele, que transformou o combate a gangues num dos pilares da sua política de segurança, e o argentino Javier Milei, um dos aliados mais próximos de Trump na região. Os dois países entraram na coalizão desde o início e vêm sendo citados por autoridades americanas como exemplos do tipo de parceria de segurança que o Escudo das Américas busca ampliar para o restante do continente.
Por que o Brasil ficou de fora
Ao lado do Brasil, também não integram o Escudo das Américas o México, de Claudia Sheinbaum, e a Colômbia, de Gustavo Petro, os outros dois grandes governos de esquerda da região. Os três países somam mais da metade do PIB latino-americano e concentram parte relevante da produção e do trânsito de drogas que a coalizão diz combater.
No mesmo dia em que Trump se reuniu com os países da coalizão, Lula discursou na Assembleia-Geral da ONU e disse que o Brasil prefere combater o crime organizado com as próprias instituições, ampliando a cooperação internacional sem depender da presença de forças militares estrangeiras em solo brasileiro. Na fala, o presidente defendeu a soberania dos países latino-americanos sobre suas políticas de segurança e criticou o que classificou como interferência externa na região.
O que muda para o Brasil ficar fora do grupo
Na prática, ficar fora do Escudo das Américas significa que o Brasil não participa da integração de inteligência nem das operações de segurança coordenadas entre os países-membros da coalizão. O governo brasileiro tem defendido publicamente que prefere tratar o combate ao narcotráfico como um assunto de política interna e de cooperação bilateral pontual, não como parte de uma aliança militar permanente comandada por outro país.
No Brasil, o combate ao crime organizado segue hoje a cargo da Polícia Federal e das polícias estaduais, com acordos de cooperação internacional negociados caso a caso, sem um comando militar externo envolvido. É esse modelo que Lula defendeu no discurso desta terça na ONU como alternativa à lógica da coalizão americana, ao mesmo tempo em que disse defender mais cooperação internacional, desde que sem tropas estrangeiras em solo brasileiro.
A coalizão segue crescendo desde março, com novos países aderindo ao longo do ano, mas o desenho atual deixa de fora justamente as três maiores economias da região que também concentram parte do problema que a aliança diz querer resolver. Para o governo americano, a expectativa é que mais países passem a integrar o grupo; para o Brasil, a posição declarada é a de que qualquer cooperação em segurança deve respeitar a soberania nacional e passar pelas instituições brasileiras.

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