Rony Gabriel e a CLT: R$ 2 mil de salário custam R$ 3,8 mil ao patrão, diz o deputado; a conta varia conforme o regime
Deputado eleito quer que o trabalhador receba o custo todo e pague os encargos. Cálculos de contabilidade para R$ 2 mil de salário vão de cerca de R$ 2,8 mil a R$ 4 mil.

Rony Gabriel e a CLT entraram na mesma frase num vídeo publicado no sábado (31). O deputado federal eleito pelo Podemos do Rio Grande do Sul disse que quem tira dinheiro do trabalhador é o governo, e não o “patrão malvadão”, e propôs uma regra para provar o argumento: o empregado receberia do patrão o custo inteiro do contrato e pagaria sozinho os encargos da folha. A conta que ele faz, de R$ 3.800 para um salário de R$ 2 mil, está no topo do que os cálculos de contabilidade mostram.
O que Rony Gabriel disse sobre a CLT
No vídeo de pouco menos de um minuto, o deputado afirma que hoje um trabalhador que ganha R$ 2 mil por mês custa “em torno de R$ 3.800” ao patrão. Na regra que ele imagina, o patrão pagaria esses R$ 3.800 ao empregado, que ficaria responsável por todos os encargos trabalhistas da folha de pagamento. “Vamos ver se ele vai continuar querendo CLT”, diz.
Segundo Rony, o objetivo é fazer o trabalhador enxergar o que o contrato custa e quem fica com a diferença. Ele afirma que o governo é “populista” e que o povo acredita estar protegido pelo FGTS enquanto, nas palavras dele, é roubado a vida inteira. “Roubo” é o termo usado pelo deputado, e a Folha não encontrou, até a publicação desta reportagem, resposta do Ministério do Trabalho ou do governo federal ao vídeo.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.Rony diz ter “uma lei” para levar à Câmara, mas não informou o número, o texto nem a data em que pretende apresentá-la. Ele toma posse em fevereiro de 2027, quando começa a nova legislatura. No vídeo, não citou nenhum projeto já em tramitação. A Folha também não encontrou proposta de autoria dele sobre o tema.
A conta de R$ 3.800 fecha?
Depende do regime tributário da empresa e dos benefícios pagos. Calculadoras de empresas de contabilidade, para um salário de R$ 2 mil, chegam a cerca de R$ 2.780 por mês no Simples Nacional, perto de R$ 3.360 no lucro real e valores entre R$ 3.500 e R$ 4.000 no lucro presumido, quando entram vale-transporte, vale-refeição e as contribuições de cada regime. O número de Rony, portanto, é possível, mas está na faixa mais alta da estimativa.
O ponto mais sensível da fala é a ideia de que a diferença entre o custo e o salário vai toda para o governo. Boa parte dela volta ao trabalhador de outras formas:
- o FGTS é de 8% do salário, ou R$ 160 sobre R$ 2 mil, e é depositado numa conta em nome do próprio trabalhador, como a Folha explicou na matéria sobre a antecipação do saque-aniversário;
- o 13º salário e as férias com o adicional de um terço são pagos ao empregado;
- o INSS patronal, de 20% sobre a folha no regime normal de tributação, equivale a R$ 400 sobre R$ 2 mil e financia a Previdência. Empresas do Simples recolhem um imposto único, o que ajuda a explicar por que a conta delas é menor.
O que o governo recebe é uma parte do custo, e não a diferença inteira. A regra do FGTS está na Lei 8.036, de 1990.

Um projeto parecido já está na Câmara
A ideia de Rony se parece com o Projeto de Lei 894/2025, do deputado Marcos Pollon (PL-MS), apresentado em 11 de março de 2025. Pela ementa registrada na página do projeto na Câmara, o texto muda o pagamento do salário para que o empregado receba o valor integral e fique com a responsabilidade direta de recolher os encargos, por meio de um documento de arrecadação unificado emitido pela União.
Alpha for MenSegundo a justificativa do autor, a medida livraria o empregador de encargos operacionais excessivos e faria o trabalhador enxergar todos os descontos sobre a própria remuneração. Em consulta feita pela Folha neste domingo (1º), o projeto aguardava a designação de relator na Comissão de Trabalho. Ele ainda precisa passar pelas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça, e depois ser aprovado na Câmara e no Senado para virar lei.
Rony não mencionou o projeto de Pollon, e a Folha não encontrou ligação entre os dois textos além da semelhança da ideia.
O que mudaria para quem trabalha de carteira assinada
Na proposta de Pollon, o trabalhador passaria a receber o salário bruto, sem os descontos de INSS, FGTS e imposto de renda feitos hoje pelo empregador, e pagaria tudo por um boleto mensal, com vencimento até o dia 20 do mês seguinte. A mudança tira da empresa a tarefa de recolher e põe a conta nas mãos de quem recebe.
A Folha não encontrou estudo oficial sobre o efeito da mudança em quem ganha salário mínimo ou em quem não costuma acompanhar prazos de pagamento. O debate sobre o peso da folha para o patrão não é novo: a Folha mostrou, na matéria sobre o fim da escala 6×1 numa pizzaria de Patrocínio, como um dono de pequeno negócio calcula o custo de cada mudança na jornada.
O que acompanhar
O primeiro passo é saber se Rony vai de fato protocolar um texto e se o apresentará como projeto de lei ou como proposta de emenda à Constituição, já que mexer em tributos e em direitos do trabalhador pode exigir caminhos diferentes. O segundo é o destino do PL 894/2025, parado à espera de relator.
Rony também esteve na pauta da Folha por outras falas recentes: disse que vai trabalhar para reduzir os danos do governo Lula e avisou que não votará em Hugo Motta, como mostrou a matéria sobre a reeleição do presidente da Câmara.
Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.






