Fim da escala 6×1: dono de pizzaria de Patrocínio calcula R$ 400 mil a mais por ano e R$ 13 por pizza
Nero Teixeira, da Bella Pizza, diz que precisará de 7 funcionários a mais para 33 empregados e que o custo vai ao consumidor. Transição da PEC só começa 60 dias após a promulgação.

Sete funcionários a mais, R$ 400 mil por ano e R$ 13,33 a mais em cada pizza. Foi essa a conta que Nero Rodrigo Teixeira, dono da Bella Pizza, pizzaria da Avenida Jacinto Barbosa, no Centro de Patrocínio (MG), apresentou em um vídeo gravado na manhã desta quinta-feira (15), um dia depois de o Senado aprovar o fim da escala 6×1. Ele diz que passou a noite acordado refazendo as planilhas do negócio e que é “totalmente contra” a mudança do jeito que foi votada.
A pizzaria emprega 33 pessoas, todas com carteira assinada, adicional noturno, uma folga por semana e um domingo de descanso por mês, segundo Nero. O salário médio é de R$ 2.600, que chega a R$ 3.500 com os encargos. Para manter a operação funcionando com dois dias de folga por semana para cada empregado, ele calcula que precisará contratar mais sete pessoas.
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O raciocínio é simples e foi feito em voz alta. Sete contratações custam cerca de R$ 400 mil por ano. A casa vende em torno de 30 mil pizzas no mesmo período. Dividindo um número pelo outro, cada pizza fica R$ 13,33 mais cara só pelo custo de pessoal. “Eu não ganho por ano R$ 400 mil para simplesmente tirar do meu bolso. Infelizmente, esse valor vai ser repassado para o consumidor final”, afirma.
Ele acrescenta que a conta não para na folha de pagamento. Fornecedores de sacolão e de carnes também terão de contratar para cumprir a nova jornada, e o empresário projeta uma alta média de 20% nos insumos que chegam à cozinha. Na visão dele, quem ganha R$ 3 mil por mês vai continuar ganhando os mesmos R$ 3 mil, com uma folga a mais, mas com poder de compra menor. “Automaticamente, essa folga a mais você vai ter que fazer uma famosa diarinha para complementar a renda.”

“Não sou contra um dia a mais de folga”
O empresário faz questão de separar as duas coisas. Diz que trabalha de domingo a domingo na linha de frente, que gostaria de estar com a família descansando e que não é contra o descanso em si. O que ele critica é a forma: na avaliação dele, o Congresso deveria ter votado um aumento real de salário, principalmente para quem trabalha na escala 6×1, em vez de reduzir a jornada sem mexer na renda. “A gente não precisa de um dia a mais de folga, a gente precisa de dinheiro”, resume.
Ele também devolve a conta para o consumidor. Quem quer folgar no sábado e no domingo, diz, quer a pizzaria aberta, o hotel funcionando, o sacolão atendendo e o hospital com equipe completa. “A gente trabalha no fim de semana porque a população precisa do nosso serviço.” Para ele, a medida foi votada para “ganhar voto” e vai cobrar um preço de todos os brasileiros, patrões e empregados.
Alpha for MenNo fim do vídeo, Nero se apresenta como alguém que “não é formado em nada” e “não sabe falar direito”, mas que consegue enxergar o efeito da mudança no dia a dia de quem produz. Prevê um período difícil, diz que vai se adaptar e aposta que, em dois anos, a regra terá de ser revista.
O que foi aprovado e quando começa a valer
O Senado aprovou na quarta-feira (14), em dois turnos e por 75 votos a 1 em cada um, a PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário. Como o texto não mudou em relação ao que a Câmara aprovou em maio, ele segue direto para a promulgação, como a Folha mostrou na matéria sobre a aprovação do fim da escala 6×1 no Senado. O único voto contrário foi o do senador Hamilton Mourão.
A transição é gradual. Pelo cronograma do texto, 60 dias depois da promulgação a jornada cai para 42 horas, já com dois dias de descanso por semana, e 12 meses depois disso chega às 40 horas. A redação final só sai com a promulgação, que ainda não tem data marcada, segundo a Agência Senado. Ou seja, nenhuma empresa de Patrocínio precisa mudar a escala neste mês.
O efeito no comércio de Patrocínio
Patrocínio tem cerca de 94 mil habitantes e uma economia puxada pelo café e por um comércio forte no Centro, com bares, restaurantes, pizzarias e supermercados que funcionam todos os dias da semana. É nesse tipo de negócio que a escala 6×1 é mais comum e onde a conta do segundo dia de folga aparece primeiro: ou se contrata mais gente, ou se reduz o horário de funcionamento, ou se repassa o custo ao preço. A Folha acompanha o tema na editoria de Cidade e vai ouvir outros empresários e trabalhadores da cidade nos próximos dias.
Os números apresentados no vídeo são do próprio Nero e não foram auditados pela Folha. O vídeo completo está nas redes sociais da Folha.
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