Juliana Bonde disse que “pobre de direita” não vende voto por gás? Folha não achou registro
Card com a frase circula desde quarta em páginas de política e grupos de WhatsApp. Perfis da cantora, com 8,7 milhões de seguidores, não trazem nada sobre eleição.

“O pobre de direita é odiado porque não vende o voto por um gás.” A frase circula desde quarta-feira (15) em páginas de política no Facebook e em grupos de WhatsApp, sempre atribuída à cantora Juliana Bonde, a voz do Bonde do Forró. A Folha de Patrocínio (MG) procurou a origem e não encontrou nenhum registro da cantora dizendo isso: não há vídeo, entrevista, post ou story com a frase nos perfis dela, nem reportagem que mostre quando e onde ela teria sido dita.
As próprias publicações que espalham a frase usam a expressão “atribuída à artista”, sem indicar a fonte. A imagem que acompanha o texto é uma montagem com uma foto da cantora e a frase escrita por cima, em letras grandes, o formato mais comum de card de frase que viraliza na reta final de campanha.
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O perfil oficial de Juliana Bonde no Instagram tem 8,7 milhões de seguidores e mais de 800 publicações. Os posts mais recentes são vídeos de shows e chamadas para o público, com perguntas como “De que cidade você está ouvindo essa música?” e “Qual cidade você quer esse show?”. Nenhum deles trata de eleição, de voto ou de programas sociais.
A Folha também buscou a frase em portais de notícias, sites de entretenimento e plataformas de vídeo. Não apareceu nenhuma entrevista, live ou corte de vídeo com Juliana Bonde falando sobre “pobre de direita” ou sobre gás de cozinha. O que existe é um debate antigo sobre a expressão “pobre de direita”, que aparece em colunas de opinião e livros, sem relação com a cantora.
Até a publicação desta reportagem, Juliana Bonde não havia se manifestado sobre a frase. Se ela confirmar a autoria ou se surgir o registro original, esta matéria será atualizada.

Por que a frase pegou
A frase junta dois assuntos quentes do segundo turno. Um é o voto do eleitor de baixa renda, disputado pelas duas campanhas presidenciais. O outro são os programas de ajuda com o gás de cozinha, que entram no discurso de governistas e de opositores. Colocar as duas coisas na boca de uma cantora popular, com milhões de seguidores, aumenta o alcance de um card que, sem nome conhecido, passaria despercebido.
Alpha for MenO nome de Juliana Bonde não foi escolhido por acaso. Em 2022, a cantora declarou apoio público a Jair Bolsonaro, usou roupas com o rosto do então presidente em shows e pediu votos nas redes. Essa trajetória torna a frase verossímil para quem a lê, o que é justamente o que dá força a uma atribuição sem fonte.
Frase atribuída sem fonte é o padrão da reta final
Na última semana, a Folha checou outras falas que circulavam atribuídas a figuras públicas sem registro de origem. Uma delas envolvia a escolaridade do presidente, como mostrou a matéria sobre a fala atribuída a Lula sobre o ensino médio. Outra, um vídeo de ato político que a Folha não conseguiu confirmar. O debate sobre o eleitor pobre de direita também apareceu na análise sobre quem a esquerda culpa pelos resultados do primeiro turno.
O padrão se repete: imagem de uma pessoa conhecida, frase curta e de impacto, nenhuma data, nenhum link para o vídeo original. Juliana Bonde é a personagem da vez, mas o método é o mesmo.
Como conferir antes de compartilhar
Antes de repassar uma frase atribuída a alguém, vale fazer três perguntas: quem disse, onde e quando. Se o card não traz a data nem o vídeo original, a melhor saída é procurar a frase entre aspas num buscador e conferir os perfis oficiais da pessoa citada. A Justiça Eleitoral mantém uma página de checagem, a Fato ou Boato, com desmentidos de conteúdos falsos sobre o processo eleitoral.
O segundo turno das eleições acontece em 25 de outubro. Em Patrocínio e região, as frases que mais circulam nos grupos de WhatsApp costumam chegar sem fonte e com pedido de “compartilhe antes que apaguem”. A Folha publica as checagens na editoria de Política.
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