Uma arte que circula no Instagram desde domingo (16) atribui a Flávio Bolsonaro 71% de chance de vitória contra 29% de Luiz Inácio Lula da Silva num eventual segundo turno da eleição presidencial deste ano. A peça já passou de 970 curtidas e 340 comentários. O número, porém, não vem de pesquisa eleitoral registrada no Tribunal Superior Eleitoral, e os levantamentos que têm registro mostram um cenário bem diferente.
O post, publicado pelo perfil @bankster76x, apresenta os dois nomes lado a lado com percentuais em destaque e um gráfico de evolução, no formato visual de resultado de pesquisa. A legenda credita o dado a uma “simulação Monte Carlo com 44 pesquisas nacionais”. Não há identificação de instituto responsável, de contratante, de período de coleta nem de número de registro no TSE.
O que as pesquisas registradas dizem sobre Flávio Bolsonaro
O levantamento mais recente com registro divulgado até esta segunda-feira (17) é o BTG/Nexus, protocolado sob o número BR-03317/2026. Nele, num segundo turno simulado, Lula aparece com 47% das intenções de voto contra 44% de Flávio Bolsonaro. Como a margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, os dois estão tecnicamente empatados.
No primeiro turno, a mesma pesquisa traz Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 36%. Ronaldo Caiado aparece com 5%, Renan Santos com 4% e Romeu Zema com 4%. O instituto ouviu 2.003 eleitores por telefone entre 14 e 16 de agosto, com nível de confiança de 95%.
Um segundo levantamento registrado, o Genial/Quaest (BR-06591/2026), ouviu 2.004 eleitores em 120 municípios entre 31 de julho e 3 de agosto. Naquele recorte, Lula marcava 39% e Flávio Bolsonaro, 30%. Na pergunta espontânea, em que o eleitor responde sem ver lista de nomes, os números caíam para 25% e 18%, com 51% de indecisos.
Nenhum dos dois levantamentos chega perto da diferença de 42 pontos sugerida pela arte que viralizou.

Probabilidade de vitória não é intenção de voto
Há ainda um problema de leitura, independente da origem do número. Simulação de Monte Carlo é uma técnica estatística legítima, usada para estimar a probabilidade de um resultado a partir de repetições de um modelo. O que ela produz é uma frase do tipo “candidato tem X% de chance de vencer”, não “candidato tem X% dos votos”.
São coisas diferentes. Uma vantagem apertada e estável pode gerar probabilidade alta de vitória mesmo com poucos pontos de diferença nas intenções de voto. Ao colocar “71%” e “29%” ao lado dos rostos dos dois candidatos, no mesmo layout usado para divulgar pesquisa, a arte mistura os dois conceitos e sugere ao leitor uma vantagem de votos que os dados registrados não mostram.
Por que o registro no TSE importa
A Lei 9.504/1997, no artigo 33, obriga quem divulga pesquisa de intenção de voto a registrá-la previamente na Justiça Eleitoral, com informações sobre contratante, valor, metodologia, período de coleta e plano amostral. O registro é público e pode ser consultado por qualquer eleitor no sistema PesqEle, do TSE.
A exigência existe justamente para permitir que se avalie a qualidade do dado. Sem instituto identificado e sem metodologia aberta, não há como verificar quais foram as 44 pesquisas usadas, com que peso entraram no cálculo nem em que data o modelo foi rodado.
Como checar antes de compartilhar
Antes de repassar um número eleitoral, vale procurar três informações na própria peça: o nome do instituto, o número de registro no TSE, no formato BR-00000/2026, e a data da coleta. Se faltar qualquer uma delas, o dado não está apto a ser tratado como pesquisa.
Os registros podem ser conferidos diretamente no site do Tribunal Superior Eleitoral. Outras reportagens sobre a eleição deste ano estão na editoria de Política da Folha de Patrocínio.
A imagem de abertura desta reportagem é uma ilustração gerada por inteligência artificial. Não retrata uma seção eleitoral real nem pessoas reais.
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