A primavera começou com o agro mineiro em alerta. O Instituto Nacional de Meteorologia projeta mais de 90% de probabilidade de o El Niño ser classificado como muito forte entre setembro e novembro, cenário que costuma significar chuva abaixo da média em partes de Minas e temperatura acima do normal.
Para o produtor do Cerrado Mineiro, a conta é direta: a florada do café já abriu, e é justamente ela que fica exposta a calor fora de hora e a veranico.
O que o El Niño está fazendo no Pacífico
O climatologista Ruibran dos Reis, diretor regional da Climatempo em Belo Horizonte e consultor em climatologia e mudanças climáticas, afirma que a temperatura da faixa equatorial do Pacífico está 2,7 graus acima do normal. É esse aquecimento que define a classificação do fenômeno e, por tabela, o comportamento das chuvas no Sudeste.
A projeção do Inmet aponta precipitação abaixo da média em partes do estado e temperaturas acima do normal em boa parte do país, com períodos de calor intenso entre novembro e dezembro.

O granizo que já cobrou a conta
O alerta não é teórico. O temporal de granizo de 15 de setembro atingiu cerca de 200 propriedades rurais em mais de dez municípios mineiros, com prejuízo preliminar estimado em pelo menos R$ 50 milhões, segundo levantamento da Associação dos Sindicatos Rurais do Sul de Minas. A estimativa de municípios atingidos é do presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Varginha, Arnaldo Bottrel.
O que agrava o estrago é o calendário. O granizo caiu na fase de florada, quando a lavoura define a safra do ano seguinte. Flor derrubada não volta.
Como isso chega a Patrocínio
O episódio de 15 de setembro concentrou-se no Sul de Minas, mas o Cerrado Mineiro não passou ileso. O boletim da Expocacer divulgado em 21 de setembro registra granizo com vento forte em lavouras novas e velhas de Patos de Minas, Perdizes, Serra do Salitre e Araxá, com dano em folhas, ramos, flores e frutos, e orientação técnica de pulverização preventiva nas áreas feridas.
Patrocínio, maior produtor de café do país, ficou de fora do granizo dessa rodada, mas registrou 34,3 milímetros de chuva entre 10 e 16 de setembro, umidade que travou o recolhimento do café de chão e ao mesmo tempo abriu florada nova equivalente a 33% do potencial da safra.
É essa florada de 33% que está no meio do caminho do que o Inmet projeta para os próximos dois meses. Num ano de El Niño muito forte, a diferença entre uma safra boa e uma safra quebrada no Cerrado costuma se decidir entre outubro e dezembro.
Por que o El Niño pesa mais em ano de florada aberta
Café não floresce de uma vez. A lavoura abre em ondas, conforme chuva e temperatura, e cada onda define um pedaço da safra seguinte. Quando a florada acontece adiantada, como aconteceu neste ano, ela fica mais tempo exposta às condições de primavera antes que o fruto pegue.
Calor acima do normal em novembro e dezembro, combinado com chuva abaixo da média, é a combinação que derruba chumbinho e produz maturação desuniforme. O produtor sente isso na colheita de 2027, não agora.
O que o produtor pode fazer
A orientação técnica registrada no boletim da Expocacer para quem já foi atingido é pulverização preventiva nas áreas feridas pelo granizo, para conter entrada de doença pelos ferimentos em folha e ramo. Fora isso, vale documentar com foto e registro qualquer dano de granizo ou de vento: é esse material que sustenta pedido de crédito e de renegociação depois.
Patrocínio já vive esse cenário na prática. Em 17 de setembro, a Prefeitura decretou situação de emergência econômica no setor agropecuário por 180 dias, citando eventos climáticos adversos, quebra de safra e alta de custos entre os motivos.
As projeções climáticas oficiais e os boletins de monitoramento ficam disponíveis no portal do Inmet, com atualização mensal para o trimestre seguinte.
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