Um mandato inteiro rodando carro alugado, abastecendo em mais de cem postos diferentes, e a ausência de pedágios na conta chama atenção pelo tamanho da desproporção. A verba indenizatória de Maria Clara Marra (PSDB) registra R$ 318.941,42 em combustível entre 2023 e 2026, mas só R$ 3.392,80 em pedágio no mesmo período: 1,06% do valor gasto com combustível. Quem roda o tanto que os recibos de combustível sugerem deveria passar por praças de pedágio com regularidade. Os dados públicos não mostram isso.
A ausência de pedágios não bate com o volume de combustível
Em 41 meses de mandato com movimentação registrada na verba indenizatória, apenas 28 tiveram algum lançamento de pedágio. Em 13 meses, zero. Isso significa que quase um terço do mandato passou sem nenhum registro de praça de pedágio, mesmo em meses com abastecimento normal ou até acima da média nos postos usados pela deputada. A ausência de pedágios nesses períodos levanta a pergunta óbvia: os deslocamentos nesses meses não passaram por nenhuma rodovia pedagiada, ou passaram e a nota simplesmente não foi lançada?
O que a proporção revela sobre o uso do carro oficial
Minas Gerais tem rodovias pedagiadas na maior parte das ligações entre Patrocínio, Belo Horizonte e outras cidades polo da região, incluindo trechos da BR-262 e da MG-230. Um mandato que gasta R$ 318.941,42 em combustível ao longo de mais de três anos presume deslocamentos frequentes e razoavelmente longos, o tipo de viagem que naturalmente cruza pedágio. A proporção de 1,06% entre pedágio e combustível é baixa demais para esse volume de gasto, e a ausência de pedágios em tantos meses sugere duas hipóteses possíveis: ou parte relevante do combustível foi usada em deslocamentos curtos, dentro do próprio município, sem passar por rodovia pedagiada, ou existem gastos com pedágio que não foram lançados como tal na prestação de contas.
Nenhuma das duas hipóteses é boa notícia para quem cobra transparência na verba indenizatória. Se o combustível foi usado majoritariamente em trajetos curtos, cabe perguntar por que o gasto chegou a R$ 318.941,42, um valor que é o segundo maior de toda a verba, atrás apenas da locação de veículos. Se houve pedágio não lançado, o problema é de outra natureza, mas igualmente sério: significa que a prestação de contas pública, a mesma que o cidadão consulta no Portal da Transparência da ALMG, está incompleta.
Comparação mês a mês reforça a irregularidade
O padrão não é uniforme ao longo do mandato. Há sequências de meses seguidos com pedágio lançado normalmente, alternadas com blocos inteiros de ausência de pedágios que duram dois, três meses seguidos, sem relação aparente com queda no gasto de combustível do mesmo período. Essa alternância sem padrão fixo é o tipo de inconsistência que uma prestação de contas bem auditada deveria explicar, e que o Portal da Transparência, do jeito que está estruturado hoje, não obriga a deputada a esclarecer.
Vale lembrar que a verba indenizatória existe justamente para cobrir custos de deslocamento e representação do mandato parlamentar, o que torna o item pedágio, quando presente, um indicador indireto da frequência real de viagens fora da base eleitoral. A combinação de gasto alto em combustível com gasto quase nulo em pedágio não prova, por si só, nenhuma irregularidade formal. Mas é exatamente o tipo de descompasso que uma auditoria da Mesa Diretora da ALMG deveria verificar linha por linha, cruzando datas de abastecimento com eventuais registros de passagem em praças de pedágio, algo que o cidadão comum não tem meios de fazer sozinho a partir dos dados abertos disponíveis hoje.
Reportagem em série sobre a verba indenizatória
Esta é a terceira de uma série de reportagens da Folha de Patrocínio baseadas em levantamento completo, mês a mês, de toda a verba indenizatória de Maria Clara Marra disponível no Portal da Transparência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, órgão oficial responsável pela publicação desses dados. Já mostramos as sobretaxas da locadora Vip Loc e a concentração do gasto com combustível em dois postos. A Folha de Patrocínio vai pedir posicionamento da assessoria da deputada sobre a ausência de pedágios identificada neste levantamento.
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