O café que ficou preso nas fazendas do Cerrado Mineiro durante a colheita atrasada de julho está deixando o país num ritmo que o ano ainda não tinha visto. A exportação de café do Brasil somou 107,9 mil toneladas nas duas primeiras semanas de setembro, algo em torno de 1,8 milhão de sacas de 60 quilos, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) divulgados nesta terça-feira (15).

A comparação é o que dá tamanho ao número. A média diária de embarque chegou a 13,49 mil toneladas, contra 8,9 mil toneladas em todo o mês de setembro do ano passado. São mais de 50% a mais de café saindo por dia, medido no mesmo ponto do calendário.

A conta que a Secex fez

O levantamento da Secex mede o que efetivamente cruzou a fronteira, não o que foi contratado. Por isso ele chega antes do relatório mensal do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e funciona como termômetro adiantado do mês.

O mês anterior já tinha sido fora da curva. Em agosto o Cecafé contabilizou 4,16 milhões de sacas embarcadas somando café verde, torrado e solúvel, o maior volume registrado para um mês de agosto desde que a série histórica começou, em 1990. Setembro está seguindo pelo mesmo caminho, e a exportação de café voltou a puxar a pauta agrícola brasileira.

O café não foi o único produto a acelerar. No mesmo levantamento o petróleo cresceu 75,6% na média diária, com 5,25 milhões de toneladas, e a soja subiu 9,2%, com 2,92 milhões de toneladas. Do outro lado, o milho recuou 16,7% e a carne bovina caiu 30,3%.

De onde sai esse café

Boa parte dele sai daqui. Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, com 64.225 toneladas colhidas em 2024, segundo o IBGE, e sedia a Expocacer, a cooperativa que reúne os cafeicultores do Cerrado desde 1993.

O boletim semanal da cooperativa mostra por que o embarque ganhou fôlego agora. A colheita do arábica na área da Expocacer chegou a 99% até o dia 11, com cerca de 90% do volume já beneficiado e rendimento médio de 455 litros por saca, um dos melhores dos últimos anos. Com o terreiro vazio, o café que estava parado em armazém foi para o mercado de uma vez.

Frutos de café maduros no pé em lavoura do Cerrado, origem da exportação de café do Brasil
Frutos maduros em lavoura do Cerrado Mineiro. Foto: Divulgação/Expocacer

A chuva de julho, que atrapalhou a colheita e empurrou o arábica para agosto, é a mesma que explica o recorde do mês passado e o ritmo forte de agora. O atraso não tirou café do mercado. Apenas concentrou a oferta mais adiante no calendário.

Por que a exportação de café derruba o preço

Quando o volume físico aparece todo de uma vez, o preço sente. Na bolsa de Nova York o contrato de arábica para novembro fechou a 279,75 centavos de dólar por libra-peso nesta quarta-feira (16), e o de março, a 271,80 centavos. As perdas passaram de 1% nos principais vencimentos.

Grafico do preco da saca em Patrocinio durante a alta da exportacao de cafe em setembro de 2026
Preço da saca em Patrocínio na primeira quinzena de setembro. Dados: mercado local. Arte: Folha de Patrocínio

Em Patrocínio o efeito já apareceu no bolso de quem vende. A saca negociada a R$ 1.800 na primeira semana de setembro estava em R$ 1.660 no dia 15. São R$ 140 a menos por saca em duas semanas, no mesmo período em que a exportação de café bateu recorde de ritmo.

É uma combinação que confunde quem olha de fora. O Brasil vende mais, fatura mais em dólar, e o produtor do Cerrado recebe menos por saca. A explicação está na origem do movimento: não foi a demanda que cresceu, foi a oferta que chegou.

O que ainda segura o mercado

Existe um contrapeso, e ele está nos armazéns certificados da bolsa. Os estoques reconhecidos pela ICE seguem em níveis historicamente baixos, o que limita a queda mesmo com o Brasil despejando café no mercado internacional.

O mercado opera hoje entre duas forças opostas. A oferta brasileira abundante e a expectativa positiva para a safra 2027, que começou a se formar com a florada de setembro, empurram a cotação para baixo. A falta de café disponível para pronta entrega nos armazéns da bolsa segura a queda no curto prazo.

O que fecha a conta de setembro

O relatório mensal do Cecafé é o próximo documento a mexer com o mercado. Ele fecha o número oficial do mês e mostra destinos, tipos de café e preço médio da saca exportada, informação que a estatística semanal da Secex não traz. Depois dele, o que pesa é a pegada da florada que já apareceu em parte das lavouras do Cerrado, porque é ela que vai indicar o tamanho da safra do ano que vem.

Para quem ainda tem café guardado esperando preço melhor, o ritmo de embarque é a notícia mais desconfortável da semana. A exportação de café resolveu o gargalo que travou julho e, no caminho, tirou R$ 140 da saca de quem deixou para vender agora.


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Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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