O café que saiu das lavouras do Cerrado Mineiro entre junho e agosto já aparece nas estatísticas do porto. O Brasil embarcou 4,155 milhões de sacas de 60 quilos em agosto, o maior volume já registrado para o mês, segundo o relatório mensal do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) divulgado nesta quinta-feira (10). O recorde de exportação veio acompanhado de receita cambial de US$ 1,331 bilhão, também a melhor marca para agosto, com alta de 31% no volume sobre o mesmo mês de 2025.
Para Patrocínio, maior município produtor de café do país, o número não é uma estatística distante. Boa parte do arábica que entrou nesses navios saiu de lavouras da região, que fechou a colheita praticamente no mesmo mês.
O que sustentou o recorde de exportação
O crescimento tem duas pernas. A primeira é o arábica, que chegou ao mercado com atraso por causa das chuvas durante a colheita e concentrou em agosto o embarque que normalmente se espalha por julho. Foram 2,866 milhões de sacas, alta de 25,7% na comparação anual.
A segunda perna é o café canéfora, que reúne conilon e robusta. Esse grupo saltou 53,6% e chegou a 953.592 sacas, o melhor agosto da série. O solúvel subiu 24,3%, para 332.192 sacas, e o torrado e moído somou 3.816 sacas.
“Esse desempenho foi puxado pela maior disponibilidade de cafés arábicas desta safra, que chegaram ao mercado após atrasos na colheita ocasionados por chuvas, e, principalmente, pelos cafés conilon e robusta”, disse o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, no relatório.
O atraso que virou recorde é o mesmo que a região viveu
A explicação do Cecafé para o volume de agosto descreve o que aconteceu nas fazendas do Alto Paranaíba. As chuvas de julho atrasaram a entrada do café novo, a colheita se estendeu, e o produto chegou ao mercado só a partir de agosto. No Cerrado Mineiro, o último boletim da Expocacer mostrou a colheita do arábica em 96% até o começo de setembro, com parte do café ainda no terreiro e nos secadores.
Foi esse café represado que apareceu de uma vez na estatística do mês passado e produziu o recorde de exportação. Somando julho e agosto, os dois primeiros meses do ano-safra 2026/2027, os embarques chegam a 7,204 milhões de sacas e a US$ 2,242 bilhões, com crescimento de 21,5% em volume.
Um recorde de exportação que não se traduz em receita
O dado do mês esconde um ano civil bem menos animador. De janeiro a agosto, o Brasil exportou 25,073 milhões de sacas para 119 países, 1,2% menos que no mesmo intervalo de 2025. A receita caiu mais: recuou de US$ 9,686 bilhões para US$ 8,787 bilhões, uma queda de 9,3%.
Ou seja, o país está embarcando praticamente o mesmo volume e recebendo quase um bilhão de dólares a menos. É o retrato de uma safra grande chegando a um mercado que já não paga os preços do ano passado, movimento que a Folha vem acompanhando desde a queda do arábica em setembro.
Os cafés diferenciados perderam espaço
Esse é o ponto que mais interessa a quem produz em Patrocínio. Os cafés de qualidade superior, certificados ou especiais responderam por 17,1% das exportações brasileiras entre janeiro e agosto, com 4,294 milhões de sacas. O volume é 15,8% menor que o do ano passado, e a receita desse grupo caiu 19%, para US$ 1,763 bilhão.
O preço médio ficou em US$ 410,62 por saca, bem acima da média geral. A região, que acabou de emplacar um mestre de torra no Cup of Excellence, vive exatamente dessa faixa. Quando ela encolhe no agregado nacional, o prêmio que o produtor do Cerrado consegue cobrar fica mais disputado.

O porto segue sendo o gargalo
Márcio Ferreira repetiu no relatório a queixa que o setor vem fazendo desde o meio do ano. Segundo ele, a defasagem na infraestrutura dos principais portos atrasa embarques e gera “prejuízos milionários ao setor devido a custos extras com rolagens de cargas e armazenagens adicionais”. O tema já rendeu uma reunião no Ministério de Portos e Aeroportos e é o mesmo descrito na reportagem sobre o café parado no porto.
Santos concentrou 70,9% dos embarques do ano, com 17,788 milhões de sacas. O complexo do Rio de Janeiro respondeu por 24,9% e Paranaguá por 1%.
O presidente do Cecafé citou ainda o tarifaço americano, que vigorou até meados de julho e só então deixou de alcançar o solúvel brasileiro. Os Estados Unidos seguem como maior comprador no acumulado do ano, com 3,158 milhões de sacas, mas compraram 21,6% menos que em 2025.
O que se sabe até agora
O recorde de exportação de agosto resolve um problema de calendário, não o de preço. O café que estava parado na fazenda saiu, o que alivia a pressão de armazenagem em uma região que vinha relatando falta de espaço. A conta do ano, porém, continua negativa em receita.
O relatório completo do Cecafé, com a atualização de agosto, está publicado no site da entidade. O próximo indicador relevante para o produtor de Patrocínio é o boletim semanal da Expocacer, que deve trazer o fechamento da colheita e as primeiras leituras da florada de 2027. Outras notícias da cidade estão na editoria de Cidade.
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