Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, mas quem sai da cidade para julgar café numa competição nacional é raro. Mattheus Narcizo, mestre de torra formado na praça, foi convidado para o Torra COE, a etapa de torrefação do Cup of Excellence, que começa no dia 12 em Varginha, no Sul de Minas.
O trabalho dele na competição é operar a máquina, não provar e dar nota. Mattheus vai atuar ao lado de outro profissional na etapa que antecede a prova dos jurados, com a missão de deixar todos os lotes no mesmo ponto de torra, para que nenhum café entre na mesa com vantagem ou desvantagem por causa do processo.
O que faz um mestre de torra numa competição
A torra é o ponto do processo em que um café bom pode ser estragado e um café mediano pode parecer melhor do que é. Numa competição em que a diferença entre o primeiro e o quinto colocado às vezes cabe em meio ponto, o trabalho do mestre de torra é apagar a própria assinatura: entregar cada amostra no perfil combinado, sem interferência pessoal.
Mattheus resume a exigência técnica da função como uma soma de áreas distintas. Segundo ele, a atividade envolve conhecimentos de química, física, matemática e geografia, além da experiência prática acumulada no dia a dia da torrefadora. Grão de altitude diferente, variedade diferente e processo diferente respondem de outro jeito ao mesmo calor.

Como o concurso funciona
O Torra COE está dividido em três etapas, e a de Varginha abre a disputa. Nessa primeira fase, os participantes são avaliados e ranqueados em âmbito nacional. Quem passa segue para a etapa internacional, em que os lotes brasileiros são comparados com os de outros países produtores.
O Cup of Excellence é o programa que seleciona e leiloa lotes de qualidade excepcional, e existe no Brasil desde o fim dos anos 1990. A competição costuma ser o caminho pelo qual um café de fazenda pequena chega a comprador estrangeiro pagando várias vezes o valor do mercado comum. Varginha concentra a estrutura de provas do país e recebe todo ano as etapas nacionais.
A trajetória do mestre de torra de Patrocínio
Mattheus entrou no setor cafeeiro em 2012. No ano seguinte descobriu a torrefação, que virou especialidade. Desde então passou a estudar classificação, variedades, altitude e técnica de torra, a base do trabalho que hoje o levou ao convite.
A folha de competições é longa. Desde 2021 ele chegou seis vezes à final do Torrefação do Ano. Em 2023 foi campeão nacional, disputou a competição mundial e ainda recebeu, em São Paulo, o reconhecimento de melhor café torrado para espresso. É esse currículo que sustenta o convite para uma função em que a competição precisa confiar em quem opera a máquina.
Volume de saca e reputação são coisas diferentes
A cidade lidera a produção nacional de café. Segundo o IBGE, foram 64.225 toneladas colhidas em 2024, o maior volume entre todos os municípios brasileiros. Patrocínio também é a sede da Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, fundada em 1993, que reúne produtores da região e acompanha semanalmente o andamento da colheita.
O Cerrado Mineiro aparece com facilidade nas estatísticas de volume e com muito menos frequência nas competições de qualidade sensorial, historicamente dominadas pelo Sul de Minas e pela Mogiana paulista. Um mestre de torra da cidade sentado na estrutura técnica do Cup of Excellence é um tipo de presença que o volume de sacas sozinho não compra.
A colheita da safra atual na região já passou dos 90% no fim de agosto, e o mercado vem de um mês instável, com o preço do arábica em queda depois de agosto em alta. Reconhecimento técnico não altera cotação, mas ajuda a sustentar o café da região no segmento de especiais, que é onde a margem do produtor resiste melhor à oscilação de bolsa. Outras notícias da produção regional estão na editoria de Cidade.
A etapa de Varginha começa no dia 12 de setembro. Informações sobre o programa e o calendário das competições ficam no site da Associação Brasileira de Cafés Especiais, que organiza as fases brasileiras.
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