Os armazéns lotados do Brasil viraram nesta quinta-feira (3) o principal fator de pressão sobre o preço do café no mercado internacional. Na Bolsa de Nova York, o contrato de dezembro do arábica fechou a 294,90 centavos de dólar por libra-peso e o de março, a 284,55 cents. São os menores valores em três meses. As duas posições recuaram mais de 1% na sessão e perderam o patamar dos 300 cents.
O dado chega em cheio a Patrocínio. O município é o maior produtor de café do país, com 64.225 toneladas colhidas em 2024 segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, e sedia a Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, na Avenida Faria Pereira. O café que acabou de sair da lavoura na região precisa de algum lugar para ficar até ser vendido, e é esse lugar que está faltando.
Armazéns lotados forçam o produtor a vender
Segundo análise do portal Barchart citada pelo Notícias Agrícolas, relatos no Brasil apontam que boa parte dos armazéns já não está aceitando novos lotes por falta de espaço físico. Os armazéns lotados são hoje o principal gargalo logístico do setor, e o efeito sobre o preço é direto: quem vinha segurando o produto à espera de cotação melhor tem menos margem para esperar e precisa acelerar as vendas conforme a capacidade de armazenagem se esgota.
Durante boa parte do ano foi o contrário. Quem tinha café guardado ditava o ritmo dos negócios e conseguia escolher a hora de vender. Com os armazéns lotados, o produtor perde essa margem de manobra e passa a vender no tempo do armazém, não no dele.
No mercado físico brasileiro, o efeito apareceu no mesmo dia. Com as referências em queda nas principais praças de negociação, o ritmo de negócios travou nesta quinta, com os agentes medindo o tamanho do impacto da venda forçada diante das quedas lá fora.

Vietnã e safra recorde completam a pressão
O arábica não caiu sozinho. Em Londres, o robusta recuou mais de US$ 30 por tonelada, com o contrato de novembro a US$ 3.374 e o de março a US$ 3.340. O peso, nesse caso, veio da Ásia: o Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã informou que as exportações de café do país subiram 13,7% entre janeiro e agosto na comparação com o mesmo período do ano passado, somando 1,33 milhão de toneladas.
Do lado brasileiro, a projeção de safra também joga contra o preço. Na véspera, a consultoria StoneX elevou a estimativa para a safra 2026/27 do Brasil a 77,2 milhões de sacas de 60 quilos, acima dos 75,3 milhões projetados em março. O arábica passou de 50,2 milhões para 51,8 milhões de sacas e o conilon, de 25,1 milhões para 25,4 milhões. Segundo João Pena, pesquisador de inteligência de mercado da StoneX, as chuvas no período de enchimento de grãos deixaram o arábica mais pesado e melhoraram o rendimento.
É uma safra grande chegando ao mercado num momento em que sobra pouco espaço para guardá-la. Enquanto havia espaço, o produtor escolhia quando fechar negócio. Com os armazéns lotados, essa escolha diminuiu bastante.
O que muda para o produtor do Cerrado Mineiro
Na área de atuação da Expocacer, a colheita do arábica chegou a 93% do total previsto até 28 de agosto, com 77% dos frutos já beneficiados e rendimento médio de 490 litros por saca de 60 quilos. A cooperativa projeta 2,8 milhões de sacas nesta safra. As chuvas de agosto derrubaram cerca de 30% do café da safra no chão, e aproximadamente 54% desse volume já havia sido recolhido na data do relatório.
Com a colheita praticamente encerrada, o produtor da região chega ao ponto em que o café precisa de destino. Vender agora significa aceitar uma cotação em queda. Segurar significa encontrar armazenagem num mercado em que ela está escassa, e quem depende de armazém de terceiros tem menos alternativa do que quem tem estrutura própria ou cota garantida em cooperativa.
A Expocacer foi fundada em 1993 e reúne cafeicultores da região do Cerrado Mineiro, sistema que agrupa 55 municípios produtores. Parte da armazenagem do café da região passa pela estrutura cooperada, o que dá algum fôlego a quem tem cota. Mesmo assim, armazém tem limite físico, e ele aparece no fim de uma safra grande como esta.
O que se sabe até agora
O recuo desta quinta-feira se soma à queda registrada no início da semana, quando o indicador do arábica do Cepea/Esalq fechou em R$ 1.696,26 por saca depois de um agosto de alta. O movimento das últimas sessões desfaz parte do ganho acumulado no mês passado.
Não há, até o momento, indicação de que os armazéns lotados deixem de pressionar o mercado no curto prazo. O escoamento depende do ritmo das exportações e da liberação de espaço à medida que os lotes embarcam. Enquanto isso não acontece, a pressão de venda tende a continuar aparecendo na formação de preço, tanto no mercado físico quanto nas bolsas.
A Folha vem publicando os relatórios semanais da cooperativa sobre a safra na região, como o que registrou o avanço da colheita a 93% no Cerrado Mineiro. Os dados de fechamento das bolsas desta quinta-feira foram divulgados pelo Notícias Agrícolas.
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