Dez dias depois da morte de Nayara Oliveira Silva e da filha que ela esperava, a Polícia Civil segue sem uma resposta sobre o que houve na madrugada de 12 de agosto dentro da Santa Casa de Patrocínio. Nayara tinha 26 anos, estava grávida de oito meses e, segundo a mãe, passou horas pedindo uma cesárea antes de sofrer uma parada cardiorrespiratória. A família questiona o atendimento recebido; o hospital nega qualquer falha e diz aguardar o laudo da perícia.

Quem era Nayara Oliveira Silva
Nayara nasceu em 4 de março de 2000, filha de Cleusa Oliveira e Antônio Ferreira da Silva. A família havia deixado a colheita de café para se estabelecer em São João, distrito rural de Patrocínio, no Alto Paranaíba. Primeira menina entre sete irmãos, Nayara cresceu perto da mãe, que hoje descreve a relação como quase uma amizade entre as duas.
Aos 18 anos, ela se casou e morou em Goiânia por oito anos. Depois de se separar, voltou para a casa da família em Patrocínio, onde conheceu Ronaldo Morais de Souza, companheiro com quem viveu até o fim da vida. Juntos, planejavam construir a própria casa. Nayara também desenhava bem e sonhava em fazer um curso para se tornar tatuadora.
A gravidez de Ayla, segundo Cleusa, não estava nos planos imediatos do casal, mas foi recebida com alegria pela família. A gestação transcorreu sem intercorrências até o sétimo mês, sem dor e sem alteração de pressão. A rotina só mudou nos últimos dias antes da internação que terminaria em tragédia.
A internação e as horas antes da morte
De acordo com boletim de ocorrência e reportagens locais, Nayara Oliveira Silva procurou a Santa Casa de Patrocínio pela primeira vez no domingo (9 de agosto), com mal-estar, febre e dor de garganta. Voltou à unidade na terça-feira (11), por volta das 13h40, com dores no corpo e na parte inferior do abdômen. Foi avaliada, medicada e encaminhada à obstetrícia; à noite, já internada, passou por cardiotocografia e coleta de sangue antes de seguir para a maternidade, pouco antes da meia-noite.
Segundo o registro do prontuário citado por veículos locais, Nayara chegou à maternidade consciente e caminhando, com sinais vitais estáveis. Por volta de 1h50 e depois às 3h, recebeu medicação. Cleusa afirma que, durante esse período, a filha sentiu fortes dores e pediu uma cesárea e um ultrassom, pedidos que, segundo a mãe, não foram atendidos.
Por volta das 5h, Nayara caminhava pelo corredor quando sentiu uma dor abdominal intensa e caiu. Foi levada de cadeira de rodas de volta ao quarto. Minutos depois, apresentou vômito e perda de consciência. A equipe médica iniciou manobras de reanimação, que se estenderam por cerca de 35 minutos, sem sucesso. O óbito foi declarado às 5h51. A bebê, que se chamaria Ayla, também não resistiu.
“Quando eu cheguei lá, eu segurei minha filha e ela ficou rígida, com a boca roxa. Ela estava morta”, contou Cleusa ao g1 Triângulo.
O que diz a Santa Casa de Patrocínio
Em nota, o hospital afirma que realiza uma apuração interna sobre o atendimento prestado a Nayara e que já entregou à Polícia Civil a documentação médica e as imagens do sistema de segurança da unidade:
“O Hospital Santa Casa de Patrocínio informa que está realizando uma apuração interna criteriosa sobre o caso, envolvendo as áreas responsáveis, com o objetivo de esclarecer todos os fatos e circunstâncias relacionados ao atendimento. Até a conclusão dessa investigação, a instituição não irá se pronunciar publicamente sobre o caso, a fim de preservar a seriedade do processo de apuração, bem como a privacidade, a dignidade e o sigilo das informações da paciente e de seus familiares.
Após a conclusão da análise, a instituição avaliará, dentro dos limites legais e éticos aplicáveis, a possibilidade de prestar os esclarecimentos pertinentes. O Hospital reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a segurança na assistência prestada aos seus pacientes.”
O que diz a Prefeitura de Patrocínio
A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, também se manifestou sobre o caso, reforçando que a Santa Casa tem gestão própria, independente do município:
“A Prefeitura de Patrocínio, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, está acompanhando o caso e prestando todo o suporte necessário dentro de suas atribuições. É importante esclarecer que a Santa Casa possui gestão própria e independente, não sendo administrada pela Prefeitura. A instituição é porta aberta para atendimentos de urgência e emergência às gestantes, sem necessidade de encaminhamento pela UPA.
A paciente realizava acompanhamento pela rede municipal de saúde e, diante do ocorrido, estão sendo adotadas as medidas necessárias para a apuração do caso. A própria Santa Casa já solicitou os exames e procedimentos necessários para investigação das possíveis causas, com o suporte da rede pública de saúde. A Prefeitura de Patrocínio se solidariza com a família e os amigos neste momento de profunda dor, manifestando suas mais sinceras condolências e desejando força e conforto a todos.”

Como está a investigação da Polícia Civil
O corpo de Nayara Oliveira Silva foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), onde amostras foram coletadas para análise em Belo Horizonte. A Polícia Civil aguarda o laudo de necropsia, que deve ajudar a esclarecer a causa das duas mortes e apontar se houve falha no atendimento. Investigadores da Delegacia de Homicídios estiveram na Santa Casa em 13 de agosto e recolheram imagens das câmeras de monitoramento da unidade, hoje em análise.
Até o momento, nenhum profissional foi indiciado. Familiares, testemunhas, médicos e enfermeiros que atenderam Nayara devem ser ouvidos ao longo da apuração. Por esse motivo, tanto o g1 quanto a Folha de Patrocínio optam por não divulgar nomes de profissionais que constam no prontuário.
Relembre o caso
A Folha de Patrocínio acompanha o caso desde o dia da morte de Nayara e Ayla. Veja as reportagens anteriores: a nota de falecimento original, o posicionamento da Prefeitura de Patrocínio, a manifestação de uma médica sobre o caso e a nota em que a Santa Casa nega negligência no atendimento.
Passados dez dias, a família de Nayara Oliveira Silva segue esperando pelo laudo que deve apontar o que, de fato, aconteceu naquela madrugada na Santa Casa de Patrocínio. Cleusa diz que já não sente raiva, mas continua cobrando respostas. “Eu não desisti de lutar, mas estou mais em paz”, afirmou.

