Em 35 dos 40 meses registrados, o Auto Posto São Francisco emitiu uma única nota fiscal para todo o abastecimento do mês inteiro da deputada Maria Clara Marra (PSDB). É esse padrão de nota única que está por trás dos abastecimentos únicos no posto São Francisco que chamaram atenção neste levantamento: pagamentos mensais concentrados numa nota só, alguns deles ultrapassando R$ 7.000, sempre no mesmo estabelecimento, sempre perto do fim do mês.

O padrão dos abastecimentos únicos no posto São Francisco

O Auto Posto São Francisco recebeu R$ 178.998,57 em 45 notas fiscais ao longo de 40 meses de mandato, uma média de R$ 3.975 por nota. Mas a média esconde a variação real: em três meses específicos, o valor da nota (ou da soma das notas do mês) passou de R$ 7.000, mais que o dobro da média histórica do posto. Em setembro de 2024, R$ 7.939,86 em uma única nota. Em abril de 2025, R$ 7.542,05, também numa nota só. Em março de 2026, R$ 7.318,95, dessa vez dividido em duas notas no mesmo mês, mas ainda assim concentrado no mesmo fornecedor e bem acima do padrão histórico.

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R$ 0R$ 2.223R$ 4.446R$ 6.669R$ 8.893R$ 7.000R$ 7.939,86R$ 7.542,05R$ 7.318,95

Por que uma nota só cobre o mês inteiro?

Não é ilegal um posto de combustível consolidar o abastecimento de um mês inteiro numa única nota fiscal, prática comum em contratos de fornecimento recorrente. Mas essa consolidação também dificulta a fiscalização: sem abrir a nota fiscal em detalhe, junto à Receita Estadual ou ao próprio posto, não dá para saber quantos litros foram abastecidos, em quantas visitas, em qual veículo. Os abastecimentos únicos no posto São Francisco tornam o gasto opaco justamente no fornecedor que mais recebeu dinheiro da verba indenizatória em toda a categoria de combustível, 56% do total da categoria.

Essa concentração em nota única também levanta uma pergunta prática: por que o mesmo posto que atende a deputada praticamente todo mês nunca fraciona o abastecimento em notas menores, como fazem outros fornecedores da própria verba? Posto São Cristóvão, por comparação, emitiu 84 notas em período semelhante, uma média de mais de duas notas por mês. A diferença de comportamento entre os dois fornecedores não tem explicação nos dados abertos disponíveis ao público.

Os três meses fora da curva

Os três picos acima de R$ 7.000 não seguem um padrão sazonal óbvio: um caiu em setembro, outro em abril, outro em março, sem coincidir com evento eleitoral ou período de recesso legislativo que justificasse deslocamento extraordinário. Fora desses três meses, o valor mensal pago ao Auto Posto São Francisco oscila numa faixa relativamente estável, entre R$ 2.300 e R$ 6.000. Os picos, quando aparecem, saltam bem acima dessa faixa sem aviso, sem justificativa pública e sem qualquer nota explicativa anexada à prestação de contas.

O Portal da Transparência da ALMG não exige do posto nem da deputada nenhum detalhamento de quilometragem, número de abastecimentos por nota ou motivo do valor elevado nesses três meses específicos. Para o cidadão que financia essa conta pelo orçamento estadual, o que resta é a nota fiscal consolidada, sem abertura, e a constatação de que os abastecimentos únicos no posto São Francisco seguem sem explicação mesmo depois de identificados. Enquanto essa lacuna existir, cabe à própria Assembleia Legislativa, responsável por fiscalizar o uso da verba indenizatória de seus próprios deputados, decidir se um padrão de nota única recorrente, com picos não explicados, merece ou não uma auditoria mais detalhada.

Reportagem em série sobre a verba indenizatória

Esta é a quarta de uma série de reportagens da Folha de Patrocínio baseadas em levantamento completo, mês a mês, de toda a verba indenizatória de Maria Clara Marra disponível no Portal da Transparência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, órgão oficial responsável pela publicação desses dados. Já mostramos as sobretaxas da locadora Vip Loc, a concentração do gasto com combustível e a ausência de pedágios no mandato. A Folha de Patrocínio vai pedir posicionamento da assessoria da deputada e do Auto Posto sobre os abastecimentos únicos identificados neste levantamento.


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Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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