O deputado estadual Professor Cleiton (PV), líder da bancada de seu partido na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e principal nome da política de Varginha no Sul de Minas, já reembolsou R$ 1.278.493,59 em verba indenizatória desde abril de 2023, segundo levantamento da Folha de Patrocínio no portal de transparência da ALMG. Mais da metade desse valor — 78,8% — está concentrada em apenas duas categorias de despesa, e uma delas revela um padrão que chama atenção: três empresas gráficas com o mesmo endereço, os mesmos donos e nomes quase idênticos.

Onde vai o dinheiro da verba indenizatória de Cleiton
A verba indenizatória é o mecanismo pelo qual cada deputado estadual é reembolsado por despesas ligadas ao exercício do mandato, mediante nota fiscal e dentro de um teto mensal fixado pela Mesa da ALMG. Na verba indenizatória de Cleiton, o levantamento da Folha cobre 33 meses com dados disponíveis, de abril de 2023 a junho de 2026. A categoria “locação e fretamento de veículos” soma R$ 542.586,48 (42,4% do total) e é paga integralmente a um único fornecedor, a locadora de porte grande Raja Rent A Car S/A, sem qualquer indício de vínculo com o deputado. Já “divulgação da atividade parlamentar” soma R$ 464.985,07 (36,4%) — e é aqui que está o achado central desta apuração.


Três empresas, uma só família
A Folha consultou o CNPJ das três razões sociais que recebem pela categoria “divulgação da atividade parlamentar” e encontrou o mesmo padrão nas três: endereço idêntico (Rua Resende Xavier, 522, Centro, Varginha/MG), nome fantasia praticamente idêntico (“Gráfica Nossa Senhora Aparecida”, com variações) e os mesmos dois sócios — a mãe, Maria das Graças Belo Bertoli, e o filho, William Belo Bertoli, em diferentes combinações de titularidade entre as três empresas.


A empresa que nasceu e faturou em cinco dias
O detalhe mais chamativo está na mais recente das três empresas, Gráfica N.S. Aparecida Ltda (CNPJ 58.216.633/0001-11), aberta em 25 de novembro de 2024 e tendo William Belo Bertoli como sócio único. Cinco dias depois de aberta, em 30 de novembro de 2024, essa empresa emitiu sua nota fiscal número 1 — a primeira nota fiscal de sua existência — no valor de R$ 60.000,00, paga pelo gabinete de Professor Cleiton.

O que veio depois
A mesma empresa voltou a receber outras três vezes nos doze meses seguintes: R$ 32.000,00 em fevereiro de 2025, R$ 50.000,00 em maio de 2025 e R$ 45.000,00 em setembro de 2025 — R$ 187.000,00 ao todo, só nessa razão social recém-aberta. Somando as notas já identificadas nas três gráficas da família Belo Bertoli, a Folha confirmou R$ 320.000,00 dos R$ 464.985,07 pagos à categoria inteira — o restante ainda não foi reconciliado nota a nota.

O que ainda não se sabe
Nada nesta apuração prova, isoladamente, qualquer irregularidade. A segmentação de uma gráfica familiar em três CNPJs pode ter motivação contábil ou tributária legítima — por exemplo, limites de faturamento do regime do Simples Nacional. A verba indenizatória, no valor reembolsado, está dentro do teto mensal autorizado pela Mesa da ALMG em todos os meses analisados, e a verba indenizatória de deputado estadual normalmente não exige processo de licitação formal. O que a Folha de Patrocínio documenta é a concentração — praticamente toda a categoria de divulgação parlamentar num só núcleo familiar — e a coincidência de datas entre a abertura da empresa mais nova e sua primeira nota fiscal, de R$ 60 mil, cinco dias depois.
A Folha de Patrocínio procurou identificar se houve cotação de preços ou comparação de mercado para os serviços gráficos contratados, mas essa informação não está disponível nos sistemas públicos consultados. Esta reportagem será atualizada caso o gabinete do deputado ou as empresas envolvidas se manifestem sobre os pontos levantados.
A Folha de Patrocínio vai manter o acompanhamento da verba indenizatória de Cleiton ao longo do restante do mandato, atualizando esta apuração a cada nova prestação de contas divulgada pela ALMG.
Os dados completos, mês a mês, estão disponíveis no Portal da Transparência da ALMG. Para acompanhar outras apurações sobre gastos públicos e política estadual, veja a editoria de Política da Folha de Patrocínio.
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