Uma montagem de Lula compartilhada nas redes por um deputado republicano dos Estados Unidos provocou repercussão internacional neste fim de semana. Carlos Giménez, representante da Flórida na Câmara dos EUA, publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que o rosto do presidente brasileiro aparece sobreposto a uma foto real da captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelas forças americanas, ocorrida em janeiro deste ano.

Na montagem de Lula, o presidente aparece algemado, vendado, usando protetores auriculares e segurando uma garrafa de cachaça, numa cena que reproduz quase à risca a fotografia real de Maduro no momento da prisão. A legenda do post, publicado originalmente na rede X, dizia “O que o espera… 🇧🇷”.

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O que motivou a montagem de Lula

Giménez tem histórico de críticas duras ao governo brasileiro. Nos mesmos posts em que compartilhou a imagem, o deputado chamou Lula de “corrupto” e “criminoso comunista”, comparando-o a lideranças de Cuba, Nicarágua e Venezuela. A publicação também funcionou como resposta a declarações recentes de Lula sobre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que o presidente brasileiro classificou como hostis ao Brasil.

A captura de Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro, se tornou uma referência recorrente entre políticos americanos alinhados à direita para pressionar outros governos latino-americanos vistos como adversários de Washington. Ao reaproveitar essa imagem para retratar Lula, Giménez sugeriu publicamente que o presidente brasileiro poderia ter destino semelhante, um cenário sem qualquer base factual ou jurídica.

A resposta nas redes: o “vampetaço”

A reação brasileira seguiu um roteiro já conhecido nas redes sociais nacionais. Internautas inundaram a publicação de Giménez com fotos do ensaio nu que o ex-jogador Vampeta fez para a revista G Magazine, num movimento apelidado de “vampetaço”, mobilização recorrente sempre que uma autoridade estrangeira ataca publicamente o Brasil ou seus representantes.

O post original também ganhou tração política interna. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro compartilhou a montagem em tom irônico, comentando que, “dessa vez”, o PT não teria como recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para contestar o conteúdo, já que a publicação partiu de um parlamentar americano e não de um adversário político brasileiro.

Caso semelhante já foi parar na PGR

A montagem de Lula feita por Giménez não é um episódio isolado. Dias antes, o deputado federal Nikolas Ferreira havia compartilhado uma imagem manipulada com temática parecida, também retratando Lula em situação de captura. Na ocasião, o ex-presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, e o deputado federal Ivan Valente protocolaram uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Nikolas, alegando uso indevido de imagem manipulada de autoridade pública.

Até a publicação desta matéria, o governo brasileiro não havia divulgado nota oficial sobre a publicação de Giménez, e não há indicação de que o Itamaraty ou a Presidência pretendam adotar medida diplomática formal em resposta ao deputado americano. O episódio se soma a uma série recente de atritos envolvendo o Brasil e governos alinhados aos Estados Unidos na região, tema que a Folha já acompanhou na cobertura sobre a posse do novo presidente da Colômbia.

Imagens geradas por IA e o risco de desinformação

O episódio reacende um debate que vem se tornando cada vez mais frequente: o uso de imagens manipuladas por inteligência artificial por autoridades públicas para fazer política. Diferentemente de memes anônimos, uma montagem publicada por um parlamentar em exercício carrega peso institucional e pode ser interpretada por parte do público como uma ameaça velada, mesmo quando a intenção declarada é a provocação política.

Sem uma marcação clara de manipulação, esse tipo de imagem pode circular fora de contexto e ser confundida com um registro real por quem não viu a publicação original. Por isso, a Folha optou por sinalizar a manipulação de forma explícita na foto que ilustra esta reportagem.

Retrato oficial do deputado Carlos Giménez, autor da montagem de Lula
O deputado republicano Carlos Giménez (Flórida), autor da publicação. Foto: retrato oficial do gabinete do parlamentar

A repercussão do caso também chegou a veículos internacionais que cobrem a relação entre Brasil e Estados Unidos, como mostra a reportagem da CNN Brasil sobre a representação protocolada contra Nikolas Ferreira pelo caso semelhante.

A imagem que ilustra esta matéria foi sinalizada como manipulada por inteligência artificial. A montagem de Lula não retrata nenhum fato real ocorrido com o presidente brasileiro.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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