O produtor do Cerrado Mineiro fechou a semana vendo a saca de arábica valer R$ 151,57 a menos do que valia no último dia de agosto. O que ainda impede uma queda maior são os estoques de café certificados na bolsa de Nova York, hoje no menor nível em mais de 25 anos. E esse freio tem data para afrouxar: grandes tradings já embarcaram café brasileiro rumo aos armazéns da bolsa.

O indicador do arábica do Cepea/Esalq, referência de preço para quem vende café em Patrocínio, fechou esta sexta-feira (11) a R$ 1.596,87 por saca de 60 quilos, queda de 1,36% em um dia. Em 1º de setembro o mesmo indicador estava em R$ 1.730,56, e em 31 de agosto, em R$ 1.748,44. A conta do mês dá 8,67% de recuo em oito pregões. No começo de setembro a Folha já havia mostrado o arábica recuando para R$ 1.696 a saca, e a queda não parou desde então.

Onde o preço parou nesta sexta-feira

Em Nova York, os contratos futuros de arábica perderam de 165 a 245 pontos. O vencimento de dezembro, o mais negociado, encerrou o dia a 285,70 centavos de dólar por libra-peso, e o de março, a 277,20 centavos. São as menores cotações em sete semanas.

A pressão veio de dentro de casa. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) divulgou na quinta-feira que agosto teve o maior embarque já registrado para o mês, 4,155 milhões de sacas, alta de 31% sobre agosto de 2025. Boa parte desse volume é o café que a chuva de julho atrasou no Cerrado e que chegou de uma vez aos portos. Para os fundos que operam a bolsa, volume grande chegando ao porto significa mercado abastecido.

Os números globais reforçaram a leitura. A Organização Internacional do Café calcula que a temporada 2025/26 vai fechar com o primeiro superávit em cinco anos, sobra de 3 milhões de sacas. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta safra brasileira recorde de 71,9 milhões de sacas em 2026/27.

Gráfico da queda diária da saca de arábica em setembro, período em que os estoques de café seguraram a cotação
Quanto a saca de 60 kg perdeu a cada pregão de setembro, em relação ao fechamento de 31 de agosto. Arte: Folha de Patrocínio, com dados do Cepea/Esalq.

Por que os estoques de café ainda seguram o mercado

Contra esse cenário todo pesa um número só. Os estoques de café arábica certificados na ICE, a bolsa que serve de referência mundial, estão em 217.932 sacas. Entre meados dos anos 2000 e o começo de 2022 esse volume oscilava entre 1 milhão e 5 milhões de sacas. Operadores consideram 1 milhão o piso confortável.

Esse estoque funciona como a medida mais visível de quanto café sobra no mundo, e muitos fundos automatizados são programados para vender quando ele sobe e comprar quando ele cai. Com o número perto do fundo do poço, o algoritmo trabalhou a favor do produtor nos últimos meses, mesmo com todo mundo falando em superávit. Cerca de 70% desses estoques de café estão guardados em Antuérpia, na Bélgica.

As 300 mil sacas que podem virar o jogo

Reportagem da Reuters publicada nesta sexta-feira mostra que a folga não deve durar. Segundo corretores e analistas ouvidos pela agência, a trading Olam busca certificar de 150 mil a 200 mil sacas a tempo do contrato de dezembro, e a Louis Dreyfus Company tenta fazer o mesmo. As duas empresas não quiseram comentar.

Mais de 62 mil sacas de café brasileiro já chegaram aos depósitos da bolsa e esperam a checagem de qualidade que as torna negociáveis. As exportações brasileiras para a Bélgica cresceram 245,3% em agosto na comparação com o ano anterior, somando 31,5 mil toneladas, o equivalente a mais de 525 mil sacas, segundo dados do governo analisados pela corretora Terra Investimentos.

Somadas, as entregas previstas não levam os estoques de café de volta ao patamar de 1 milhão de sacas. Ainda assim, dobrar um estoque que está na mínima histórica costuma acionar a venda automática nas telas.

O que muda para o produtor de Patrocínio

Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, com 64.225 toneladas colhidas em 2024, segundo o IBGE, e sede da Expocacer, cooperativa que reúne os cafeicultores do Cerrado e publica o boletim semanal de colheita acompanhado por esta editoria. Quem tem café beneficiado no armazém e ainda não vendeu convive com duas forças opostas: o volume recorde que já saiu do país e um estoque mundial que nunca esteve tão magro.

Sarah Dare, head de inteligência de mercado do Grupo Ceres, avalia que o argumento da qualidade mais baixa desta safra sustentou os ganhos recentes, mas o tamanho da produção brasileira passou a pesar mais. A conversa do mercado, diz ela, já migrou para a próxima safra, a florada e o comportamento do clima. Os estoques de café voltam a ser o termômetro dessa disputa, e é neles que o produtor daqui precisa ficar de olho antes de fechar negócio.

A colheita acabou, e agora quem manda é a florada

O boletim mais recente da Expocacer, divulgado na terça-feira, mostra a colheita de arábica em 96% da área estimada até sexta-feira, dia 4, com 83% do volume já beneficiado e rendimento médio de 480 litros por saca. Cerca de 30% da safra caiu ao chão por causa das chuvas, e 67% desse café já foi recolhido. A catação segue acima de 20%.

As chuvas de fim de agosto e início de setembro abriram a maior florada registrada até agora no ciclo 2026/27. Patrocínio recebeu cerca de 9 milímetros no período, contra 29,6 mm em Araxá, 24,9 mm em Patos de Minas e 17,6 mm em Monte Carmelo. O Cepea aponta que a umidade melhorou as condições da lavoura em várias regiões produtoras, o que também ajuda a explicar a queda do preço.

O risco que o mercado ainda precifica é o El Niño atrasar as águas em setembro e outubro, justamente quando a flor precisa pegar. Se as chuvas falharem nessa janela, a conta que hoje pesa contra o produtor pode se inverter em poucos pregões.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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