Cadê os 10 milhões? A pergunta que a Folha de Patrocínio já vem investigando há semanas ganha um contorno novo em agosto de 2026: os dois políticos que anunciaram, lado a lado, R$ 10 milhões para o Hospital de Amor de Patrocínio já não ocupam mais os mesmos cargos que tinham naquele dia — e o dinheiro, segundo tudo o que esta redação conseguiu verificar em fontes públicas, continua sem confirmação de ter chegado.

Quem prometeu, e onde cada um está agora
Em outubro de 2024, cinco dias antes do segundo turno da eleição municipal de Patrocínio, o então governador Romeu Zema subiu ao palco ao lado da deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB) para anunciar os R$ 10 milhões destinados à construção do setor de radiologia do Hospital de Amor. Quase dois anos depois, cadê os 10 milhões continua sendo uma pergunta sem resposta pública — mas os dois protagonistas do anúncio mudaram de posição de forma significativa.

Zema deixou o governo de Minas Gerais em 22 de março de 2026 para se candidatar à Presidência da República pelo partido Novo, oficializado como candidato em julho. Quem assumiu o governo do estado foi o vice, Mateus Simões (PSD), que hoje comanda Minas Gerais até dezembro de 2026 sem ter feito, publicamente, qualquer novo anúncio sobre a obra do Hospital de Amor de Patrocínio. Maria Clara Marra, por sua vez, segue no mandato de deputada estadual e já confirmou candidatura à reeleição pelo PSDB em 2026, como a Folha de Patrocínio já noticiou.
O que já está documentado
A Folha de Patrocínio já publicou duas apurações independentes sobre esse mesmo caso. A primeira cruzou as 369 indicações de emenda parlamentar estadual de Maria Clara Marra entre 2023 e 2026 na base pública do Painel de Emendas Estaduais de Minas Gerais e não encontrou nenhum real destinado ao Hospital de Amor — apesar de saúde ser, disparado, a maior categoria de gastos da deputada. A segunda resgatou uma entrevista da própria deputada à rádio Módulo FM, de outubro de 2024, em que ela prometeu a liberação do valor “no primeiro trimestre de 2025” — prazo que já passou há mais de 16 meses sem confirmação.
Em julho de 2026, o Hospital de Amor inaugurou sua sede própria em Patrocínio, mas a cerimônia cobriu apenas a etapa 2 do complexo — o ambulatório de oncologia clínica e quimioterapia, financiado por outras fontes mais antigas. A etapa 3, o setor de radiologia que os R$ 10 milhões de Zema e Marra prometiam bancar, segue oficialmente “em fase inicial”, sem data de conclusão, segundo a própria cobertura da inauguração.
Um segundo “R$ 10 milhões” com o mesmo destino
O quadro fica ainda mais confuso porque existe uma segunda promessa idêntica em valor e destino: em março de 2026, um deputado federal confirmou outros R$ 10 milhões, dentro de um pacote de emendas federais, também para a mesma etapa de radiologia. Duas autoridades, de dois níveis de governo diferentes, anunciaram separadamente o mesmo valor redondo para a mesma obra — e nenhuma das duas promessas tem, até agora, confirmação pública de execução completa.
Cadê os 10 milhões, agora que a eleição está de volta?
O calendário é o que torna esse momento diferente de qualquer atualização anterior do caso. Em outubro de 2024, o anúncio dos R$ 10 milhões aconteceu a poucos dias de uma eleição municipal. Agora, em outubro de 2026, o Brasil e Minas Gerais voltam às urnas — com Zema como candidato a presidente e Maria Clara Marra buscando um novo mandato de deputada estadual. A pergunta “cadê os 10 milhões” volta a ser relevante justamente no momento em que ambos precisam, de novo, do voto do eleitorado de Patrocínio.
Não há, até a publicação desta matéria, nenhuma nota oficial do governo de Minas Gerais, da campanha de Zema, do gabinete de Maria Clara Marra ou do próprio Hospital de Amor confirmando a liberação do valor ou dando um novo prazo. A Folha de Patrocínio segue acompanhando o caso e vai atualizar esta reportagem assim que houver qualquer posicionamento oficial sobre os R$ 10 milhões prometidos há quase dois anos.
Para o histórico completo do caso, incluindo o cruzamento de dados de emendas parlamentares e a entrevista original em que o prazo foi dado, veja as reportagens anteriores da Folha: Os R$ 10 milhões que não chegaram ao Hospital de Amor de Patrocínio e Promessa não cumprida: prazo dos R$ 10 milhões passou há mais de um ano.
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