Em outubro de 2024, a deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB) deu um prazo específico, em entrevista à rádio Módulo FM, para os R$ 10 milhões que ela e o governador Romeu Zema anunciaram ao Hospital de Amor de Patrocínio: liberação “no primeiro trimestre de 2025”. Mais de um ano e meio depois daquele prazo, essa é uma promessa não cumprida, sem qualquer confirmação pública de que o valor tenha chegado à instituição.

Promessa não cumprida: Maria Clara Marra durante entrevista à rádio Módulo FM
Maria Clara Marra durante entrevista ao Jornal da Módulo, em 28 de outubro de 2024. Foto: reprodução/Módulo FM

A promessa: liberação no 1º trimestre de 2025

Na entrevista, concedida em 28 de outubro de 2024 ao apresentador Jânio Luiz, a deputada detalhou que o dinheiro seria usado para erguer duas alas do hospital, a de radioterapia e a de radiologia. Segundo ela, a assinatura do convênio para destinar os recursos ocorreria em Patrocínio, com a presença do governador Zema. Perguntada se já havia data marcada para essa assinatura, a resposta foi esta:

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Promessa não cumprida: Maria Clara Marra admite que não havia data marcada para a assinatura do convênio
Trecho literal da entrevista: nem a cerimônia de assinatura do convênio tinha data marcada em outubro de 2024.

Ou seja: enquanto ela dava um prazo trimestral fechado para o pagamento, o próprio ato que formalizaria o repasse, a assinatura do convênio com o governador, ainda dependia de “sondar a agenda dele”. Ela também afirmou já ter destinado R$ 2,86 milhões ao hospital por meio de emendas parlamentares próprias, valor separado dos R$ 10 milhões estaduais.

Não foi uma promessa vaga, nem uma leitura torta de uma fala ambígua. Foi um prazo específico, dado pela própria deputada, em entrevista gravada e ainda disponível publicamente:

Promessa não cumprida: citação de Maria Clara Marra sobre o prazo do primeiro trimestre de 2025
Trecho literal da entrevista de Maria Clara Marra ao Jornal da Módulo, transcrito pela Folha de Patrocínio a partir da gravação original.

Mais de um ano depois, uma promessa não cumprida

O primeiro trimestre de 2025 terminou em março daquele ano. Já se passaram mais de 16 meses desde então, e a Folha de Patrocínio não encontrou nenhuma nota oficial, comunicado da Câmara, do Governo de Minas ou do próprio hospital confirmando que o convênio foi assinado e o valor, efetivamente pago. Uma investigação anterior desta redação, que cruzou as 369 indicações de emendas parlamentares estaduais da deputada entre 2023 e 2026 na base pública do Painel de Emendas de Minas Gerais, não encontrou nenhum real destinado por ela ao Hospital de Amor em nenhum dos quatro anos analisados.

O contraste entre o que ela disse na entrevista e o que a base pública mostra é direto, e ajuda a explicar por que essa é uma promessa não cumprida também no sentido documental, não só no sentido do prazo:

Promessa não cumprida: comparação entre os R$ 2,86 milhões declarados e o R$ 0 encontrado no Painel de Emendas
Comparação entre a declaração da deputada na entrevista e o resultado da busca da Folha de Patrocínio no Painel de Emendas Estaduais de MG.

Isso não prova, sozinho, que o dinheiro nunca chegou: verbas de convênio interestadual podem não aparecer no mesmo sistema que registra emendas parlamentares individuais. Mas a ausência de qualquer confirmação pública, somada ao prazo estourado por mais de um ano, é o tipo de lacuna que o poder público deveria ter interesse em fechar, sobretudo quando o próprio anúncio original teve ampla divulgação política.

Na própria fala dela: um recurso “sem objeto necessariamente vinculado”

Há um trecho da mesma entrevista que explica, com as palavras da própria deputada, por que esse dinheiro nunca apareceu em nenhum sistema público de acompanhamento de emendas. Ao descrever o tipo de recurso que ela havia conseguido, Maria Clara Marra foi direta sobre a natureza dele:

Promessa não cumprida: citação de Maria Clara Marra descrevendo o recurso sem documentação formal
Trecho literal da mesma entrevista, em que a deputada descreve o recurso de R$ 10 milhões.

Em outras palavras: por definição da própria deputada, esse não era um valor com destinação orçamentária formalizada, como uma emenda parlamentar convencional, que tem número de processo, beneficiário nomeado e rastreamento público obrigatório. Era, nas palavras dela, um “recurso” prometido “sem objeto necessariamente vinculado”, um acordo verbal e político entre ela e o governador, sem instrumento jurídico assinado no momento do anúncio. É exatamente esse tipo de promessa, por sua própria natureza, que não deixa rastro em nenhum painel de transparência quando não se converte em contrato.

Até a própria deputada desconfiava do prazo

Há um detalhe que só aparece se a entrevista for ouvida por inteiro. Ao ser perguntada se tinha algo mais a acrescentar sobre a emenda, a própria Maria Clara Marra deixou escapar uma ressalva que, lida hoje, funciona quase como um alerta antecipado:

Promessa não cumprida: Maria Clara Marra admite que temia que o recurso demorasse a aparecer
Trecho literal da entrevista: a própria deputada reconhece o risco de atraso, citando a austeridade fiscal do Estado.

Em outras palavras, a própria autora da promessa não cumprida já sabia, no momento em que o fez, que o cenário fiscal do Estado tornava a liberação incerta. Mesmo assim, ela deu um prazo fechado e específico, “primeiro trimestre de 2025”, em vez de comunicar essa incerteza ao público que a ouvia. O resultado, mais de um ano e meio depois, confirma exatamente o risco que ela mesma verbalizou e, na prática, ignorou ao cravar uma data.

Um novo governo, uma promessa idêntica, e o mesmo padrão de falta de papel

Enquanto a promessa não cumprida de 2024 seguia sem desfecho público, um novo anúncio surgiu para cobrir exatamente a mesma lacuna, e com o mesmo número redondo. Em março de 2026, o deputado federal Weliton Prado confirmou outros R$ 10 milhões dentro de um pacote de R$ 16 milhões em emendas federais, também destinados ao início da etapa de radiologia do hospital, a mesma etapa que a verba estadual de 2024 prometia bancar. Em julho de 2026, o Hospital de Amor inaugurou sua sede própria em Patrocínio, mas a cerimônia cobriu apenas a etapa de oncologia clínica e quimioterapia. A etapa de radiologia, destino declarado dos dois anúncios de R$ 10 milhões, seguia, segundo a própria cobertura da inauguração, “em fase inicial”.

Duas autoridades, de dois níveis de governo diferentes, anunciaram o mesmo valor redondo para a mesma obra, em anos diferentes, e nenhuma das duas promessas tem, até hoje, uma data de conclusão confirmada. A primeira promessa não cumprida segue sem desfecho oficial. A segunda ainda não tem prazo declarado, nem confirmação pública de que o valor tenha sido efetivamente empenhado e pago, e não integra, até onde esta apuração conseguiu checar, nenhuma emenda estadual formalizada de Maria Clara Marra.

O padrão por trás dessa promessa não cumprida é simples de descrever: um anúncio político, com data, valor redondo e presença de autoridade de alto escalão, feito antes que qualquer instrumento formal exista para sustentá-lo. Quando o prazo passa e ninguém cobra, o anúncio simplesmente desaparece da conversa pública, até que outro político, de outro partido e outro nível de governo, anuncie o mesmo valor para o mesmo buraco, como se fosse a primeira vez.

A Folha de Patrocínio já investigou esse cruzamento de valores e o calendário eleitoral por trás dele em profundidade, incluindo o levantamento completo das emendas da deputada e sua relação com a disputa municipal de 2024. Leia a apuração completa aqui. A entrevista original em que a promessa foi feita, com data e prazo específicos, pode ser conferida na Módulo FM.

A Folha de Patrocínio segue acompanhando o caso e atualizará esta matéria caso a deputada, o Governo de Minas ou o hospital confirmem oficialmente a liberação do valor.


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