Cinco dias antes do segundo turno da eleição municipal de 2024 em Patrocínio, a deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB) subiu ao palco ao lado do governador Romeu Zema para anunciar R$ 10 milhões destinados ao Hospital do Câncer de Patrocínio, hoje rebatizado Hospital de Amor. Mais de um ano e meio depois, um levantamento completo das 369 indicações de emendas parlamentares estaduais da deputada entre 2023 e 2026, feito diretamente na base de dados pública do Painel de Emendas Estaduais de Minas Gerais, não encontra nenhum real dela destinado a essa instituição.

Pior: a mesma etapa da obra para a qual esse dinheiro estadual foi prometido, o futuro setor de radiologia, é também o destino de outros R$ 10 milhões, desta vez dentro de um pacote de emendas federais de um deputado federal, anunciado como já confirmado em março de 2026. Nenhum dos dois “R$ 10 milhões” aparece, até o momento desta apuração, como obra concluída: a etapa de radiologia segue oficialmente “em fase inicial”, sem data de conclusão.

A busca foi além do nome da deputada. Rastreando as quatro bases anuais completas do Painel de Emendas (todos os deputados, todos os partidos, 2023 a 2026) por qualquer menção a “Hospital do Câncer”, “Hospital de Amor” ou “mamógrafo” em Patrocínio, o resultado é o mesmo nos quatro anos: zero. Nenhuma emenda parlamentar estadual individual, de nenhum deputado, aparece registrada para essa instituição em nenhum momento da série histórica disponível.
Os dois “R$ 10 milhões” para a mesma etapa da obra
Duas promessas, dois níveis de governo, um só destino, e nenhuma confirmação de conclusão
| Promessa estadual | Promessa federal | |
|---|---|---|
| Quem anunciou | Maria Clara Marra (dep. estadual) + governador Romeu Zema | Um deputado federal, dentro de pacote de R$ 16 milhões |
| Quando | Out./dez. de 2024 — 5 dias antes do 2º turno municipal | Confirmado em março de 2026 |
| Valor | R$ 10.000.000 | R$ 10.000.000 (dentro do pacote de R$ 16 mi) |
| Destino declarado | Construção do setor de radiologia (etapa 3) | Início da etapa 3, setor de radiologia |
| Como foi descrito | “Acordo simbólico”; repasse condicionado a convênio “em tramitação” | Recurso “alocado”, sem data de conclusão da etapa |
| Aparece no Painel de Emendas de MG? | Não — 0 de 369 indicações dela | Não se aplica (emenda federal, portal diferente) |
| Status em ago/2026 | Sem confirmação de execução | “Em fase inicial”, sem prazo |
Um anúncio de campanha, sem convênio confirmado
A cobertura local registra o anúncio dos R$ 10 milhões estaduais em outubro de 2024, na reta final da campanha municipal; outra reportagem situa o mesmo valor numa visita do governador às obras em dezembro daquele ano. Nas duas versões, a descrição do que foi assinado é a mesma: um acordo classificado como simbólico, um protocolo de intenções, com a ressalva explícita, feita já na época, de que o hospital só receberia o dinheiro “após a celebração de convênio em tramitação”. Não era uma emenda formalizada e indicada. Era uma promessa de repasse futuro, condicionada a um contrato que, segundo o que esta apuração encontrou, não tem confirmação pública de ter sido concluído.
Não é a primeira vez que um valor anunciado para essa obra não encontra correspondência no sistema oficial. O próprio site da deputada afirma que, “em 2023, a deputada já havia destinado R$ 2,8 milhões ao hospital”, aplicados no bloco de quimioterapia, ambulatórios e setor administrativo. Mas o Painel de Emendas Estaduais não registra nenhuma indicação dela, ou de qualquer outro deputado, para essa instituição naquele ano. O mesmo site cita ainda R$ 2,4 milhões para dois aparelhos de mamografia, também sem mecanismo orçamentário especificado e sem correspondência encontrada na base pública.
Saúde é, disparado, a maior prioridade de gasto de Maria Clara Marra: 50,9% de tudo que ela indicou como emenda parlamentar entre 2023 e 2026, R$ 36,3 milhões, foi para essa função, quase todo via Resolução SES para o Fundo Estadual de Saúde. Patrocínio, sua própria base política, recebeu recursos de saúde para o Hospital Santa Casa (R$ 400 mil, 2026) e para a APAE local (R$ 360 mil, somando 2025 e 2026). Para o Hospital de Amor, orçamento total estimado em R$ 104 milhões e a maior obra de saúde já anunciada para a cidade, não há um único real registrado como indicação individual dela em nenhum dos quatro anos analisados.
A etapa que os dois “R$ 10 milhões” prometeram, e que ainda não existe
Em julho de 2026, o Hospital de Amor inaugurou sua sede própria em Patrocínio, mas a cerimônia cobriu apenas a etapa 2 do complexo, o ambulatório de oncologia clínica e quimioterapia, financiada por tranches mais antigas de um deputado federal que contribui com a instituição desde 2017. A etapa 3, o setor de radiologia e destino declarado de ambos os anúncios de R$ 10 milhões, segue, segundo o próprio hospital e a cobertura da inauguração, “em fase inicial”, com previsão apenas de que novos blocos sejam concluídos “nos próximos anos”.
Isso não permite concluir que qualquer um dos dois valores seja fictício: não há como provar a ausência de um repasse a partir de fora do sistema orçamentário do estado. Mas permite uma afirmação segura, sustentada por três fontes independentes de dados: a base pública de emendas parlamentares estaduais não registra nenhuma indicação de Maria Clara Marra para o hospital; o próprio anúncio de 2024 foi descrito, desde o início, como condicional; e a etapa para a qual o dinheiro seria usado, nas duas versões, segue sem conclusão visível mais de um ano e meio depois.
O padrão mais amplo: Patrocínio antes e depois da urna
O anúncio dos R$ 10 milhões não aconteceu no vácuo. Ele foi feito na mesma janela em que o pai da deputada, o então prefeito Deiró Marra, apostava a permanência de seu grupo político no poder na chapa de Wellington Mamazão e Valtinho, chapa que a própria Maria Clara Marra ajudou a lançar publicamente. Mamazão perdeu para Gustavo Brasileiro por 57,35% a 39,09% dos votos.
Linha do tempo: eleição, condenação, reversão
Os eventos políticos ao redor do anúncio e da queda de emendas para Patrocínio
É nesse contexto que o comportamento das emendas de Maria Clara Marra para Patrocínio precisa ser lido. O gráfico abaixo mostra o valor indicado por ano e a fatia que Patrocínio representa do total que ela distribuiu naquele ano, o dado que realmente importa, porque neutraliza o efeito de “ela simplesmente tinha mais ou menos dinheiro para dar”.
Emendas para Patrocínio, ano a ano
Barra = valor indicado; vermelho marca o ano da condenação por abuso de poder
O dado central não é o valor absoluto: é que o orçamento total de emendas da deputada cresceu 44% de 2024 para 2025 (ela tinha mais dinheiro para distribuir, não menos), mas a fatia que foi para Patrocínio caiu de quase um quarto do total para menos de 4%. E o corte não foi seletivo contra a nova gestão municipal: atingiu também o dinheiro de saúde sem vínculo político direto (FES “sem beneficiário nomeado” caiu 92%, de R$ 2,97 milhões para R$ 241 mil) e as verbas para o Corpo de Bombeiros e outras instituições locais, que praticamente desapareceram no mesmo período.
Patrocínio vs. Três Marias: a mesma deputada, dois destinos opostos
Enquanto Patrocínio despencava, Três Marias vivia o movimento inverso: de irrelevância total no orçamento da deputada em 2024 para o maior salto proporcional de qualquer município do levantamento em 2025.
Participação de cada cidade no total anual da deputada
% do valor total que Maria Clara Marra indicou naquele ano
Não foi encontrado, nesta apuração, nenhum vínculo político documentado entre Maria Clara Marra e a disputa municipal de Três Marias que explique esse salto, ao contrário do caso de Patrocínio, onde a cronologia eleitoral está fartamente documentada. É um padrão numérico real e verificável, mas sem causa política confirmada até o momento.
Vale registrar que 2025 foi também o ano de pior desempenho de execução em Três Marias: de R$ 2,24 milhões indicados, apenas R$ 753 mil (33,6%) foram efetivamente pagos, a pior taxa de qualquer combinação ano/município deste levantamento, puxada por seis indicações reprovadas, todas via convênio com a SEDESE.
As 6 indicações reprovadas em Três Marias (2025)
Todas via Celebração de Convênio com a SEDESE
| Objeto | Beneficiário | Valor |
|---|---|---|
| Aquisição de bens – Consumo | Fundo Municipal de Saúde | R$ 400.000 |
| Aquisição de bens – Consumo | Fundo Municipal de Saúde | R$ 270.000 |
| Eventos – Participação | Fundo Municipal de Saúde | R$ 121.660 |
| Reforma/Obra – Construção | Fundo Municipal de Saúde | R$ 120.000 |
| Veículo Passeio (5 lugares) | — (FES, Resolução SES) | R$ 576.951 |
| Total reprovado em Três Marias | R$ 1.488.611 | |
O que fica
Três fatos, verificáveis de forma independente, sustentam esta reportagem: (1) nenhuma das 369 indicações de emenda parlamentar estadual de Maria Clara Marra entre 2023 e 2026 foi destinada ao Hospital de Amor de Patrocínio, apesar de saúde ser sua maior categoria de gastos; (2) os R$ 10 milhões anunciados por ela e pelo governador em 2024 foram descritos, desde o início, como um acordo simbólico condicionado a um convênio sem confirmação pública de conclusão; e (3) a etapa da obra à qual esse dinheiro, e outros R$ 10 milhões prometidos separadamente por um deputado federal, seria destinado segue sem existir, mais de um ano e meio depois de ambos os anúncios.
Nenhum desses fatos, isoladamente ou em conjunto, prova má-fé. Mas juntos documentam uma distância real entre o anúncio de campanha e o que aparece nos sistemas públicos de acompanhamento de gastos, a mesma distância que separa uma promessa de uma obra concluída.
Nota de metodologia e fontes: esta apuração usa dados públicos do Painel de Emendas Estaduais de Minas Gerais (arquivos CSV do repositório oficial transparencia-mg/portal_emendas_estaduais, extraídos em 05/08/2026) para as 369 indicações com autoria “Maria Clara Marra” entre 2023 e 2026, cruzados com cobertura jornalística pública sobre o anúncio ao Hospital de Amor, o processo de abuso de poder eleitoral envolvendo Deiró Marra e sua reversão no TRE-MG, e a cobertura da inauguração do hospital em julho de 2026. Valores relacionados ao pacote federal desse outro deputado aparecem com pequenas divergências entre fontes locais (R$ 16 milhões em algumas coberturas, R$ 20 milhões em outra); a reportagem registra ambos os números, sem conseguir reconciliá-los a partir das fontes disponíveis. Nenhuma afirmação de irregularidade é feita sobre qualquer um dos anúncios de R$ 10 milhões: a ausência de confirmação de execução é registrada como tal, não como prova de má-fé. Este caso integra a cobertura contínua da Folha de Patrocínio sobre emendas parlamentares e política local.
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