O café que sai das lavouras de Patrocínio perdeu terreno no mercado mundial em julho. A exportação de arábica no planeta caiu 8,9%, para 5,78 milhões de sacas, enquanto o robusta, que o Cerrado Mineiro não planta, saltou 32% e chegou a 4,98 milhões. Os números são da Organização Internacional do Café (OIC) e ajudam a explicar por que a saca vem perdendo valor no Brasil mesmo com a colheita quase encerrada por aqui.
O que a OIC mediu em julho
As exportações globais de café verde somaram 10,76 milhões de sacas de 60 quilos em julho, alta de 6,3% na comparação com o mesmo mês de 2025. O relatório mensal da entidade foi divulgado na quinta-feira, 10, e distribuído pela agência Reuters.
Todo o crescimento veio do robusta. Os embarques da espécie subiram 32% em um único mês, puxados pelo Vietnã. Na exportação de arábica, o movimento foi o oposto, e é aí que a conta encosta em quem vive de café em Patrocínio.

Por que a exportação de arábica recuou puxada pelo Brasil
A queda de 8,9% não se espalhou de forma uniforme pelos países produtores. Pelos dados da OIC, ela se concentrou no Brasil: os embarques do tipo arábica naturais brasileiros recuaram 10% em julho. É a categoria em que o Cerrado Mineiro se especializou, com o café secado no próprio fruto, sem lavagem, método que define o perfil de bebida da região.
Julho foi um mês atípico na lavoura brasileira. As chuvas que caíram em plena colheita atrasaram a entrada do arábica novo no mercado, e o volume só apareceu de verdade em agosto. Foi quando o Brasil bateu o melhor agosto da história em embarques, com 4,155 milhões de sacas, como a Folha mostrou na semana passada. Em julho, porém, a lacuna já tinha sido preenchida pelo café de outros países.
O salto de 87,4% do Vietnã
As exportações vietnamitas dispararam 87,4% em julho, segundo a OIC. O país é o maior produtor mundial de robusta e vinha de uma safra curta no ano anterior. Com estoque para vender e preço competitivo, entrou no mercado no momento em que a exportação de arábica brasileira estava travada pela chuva.
Isso muda a mistura que a indústria compra. Torrefadores que trabalham com blends conseguem trocar parte do arábica por robusta quando a diferença de preço abre, e o robusta vietnamita é o produto mais barato dessa conta. A substituição não é total, porque o perfil de bebida é outro, mas reduz a demanda pelo café do Cerrado na mesma medida em que o robusta avança na cesta mundial.
O que muda para o produtor de Patrocínio
Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil. Foram 64.225 toneladas em 2024, segundo o IBGE, quase tudo arábica. A cidade também sedia a Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, que reúne produtores de toda a região do Alto Paranaíba.
Para esse produtor, o recuo na exportação de arábica chega em forma de preço. O indicador do arábica calculado pelo Cepea/Esalq fechou a sexta-feira, 11, em R$ 1.596,87 por saca, depois de acumular queda de mais de R$ 150 desde o último dia de agosto. A Folha já detalhou o que sustenta esse recuo: estoque baixo na bolsa de Nova York segurando a queda de um lado, oferta brasileira cheia empurrando para baixo do outro. O dado da OIC acrescenta um terceiro elemento, que é a concorrência direta do robusta na prateleira do comprador estrangeiro.
A safra do Cerrado Mineiro fecha agora, e a florada já abriu
O boletim mais recente da Expocacer, de 8 de setembro, mostra a colheita de arábica em 96% do total estimado na área da cooperativa, com dados fechados até o dia 4. Do volume colhido, 83% já passou pelo beneficiamento, com rendimento médio de 480 litros por saca de 60 quilos beneficiada, um dos melhores dos últimos anos.
A safra também tem perdas. A cooperativa estima que cerca de 30% da produção da safra caiu ao chão por causa das chuvas durante a colheita, e 67% desse volume já foi recolhido. O recolhimento de chão segue como uma das principais atividades no campo, e o percentual médio de catação dos cafés recebidos continua acima de 20%, puxado justamente pelos grãos que vieram do solo.
As chuvas de 26 de agosto e 2 de setembro quebraram a dormência dos botões florais e abriram a maior florada observada até agora no ciclo 2026/27, concentrada em lavouras jovens, esqueletadas ou que vieram de safra média e baixa. Os agrônomos da cooperativa recomendam terminar a colheita, proteger a florada, vigiar ataque precoce da broca-do-café e reforçar a nutrição, porque os frutos devem entrar em granação mais cedo. A Folha acompanhou o efeito dessas chuvas na lavoura da região.
Superávit de 3 milhões de sacas pressiona o preço
O quadro de fundo é de oferta sobrando. A OIC projeta excedente de 3 milhões de sacas no mercado global em 2025/26, com produção mundial subindo 4,4%, para 183,6 milhões de sacas, contra consumo em queda de 0,8%. No acumulado do ano-safra até julho, as exportações mundiais estão praticamente estáveis, com recuo de 0,4%.
Produção em alta e consumo em baixa é a combinação que costuma derrubar cotação. Para quem ainda tem café beneficiado no armazém em Patrocínio esperando um preço melhor, esse é o dado mais duro do relatório, porque não se resolve em uma semana. Oferta global crescendo por fora do arábica significa comprador com mais opção na mesa de negociação.
O que observar nas próximas semanas
O próximo boletim semanal da Expocacer deve trazer a colheita já perto do encerramento e o primeiro retrato do pegamento da florada. A Conab divulga novo levantamento da safra em 24 de setembro. Antes disso, o 34º Seminário do Café, de 22 a 24 de setembro em Patrocínio, tem painel de clima e mercado com Marcos Matos, do Cecafé, que costuma ser onde essa discussão de oferta mundial chega ao produtor da região em linguagem de lavoura.
Até lá, a exportação de arábica segue sendo o número a acompanhar. Se o recuo de julho for pontual, causado pelo atraso da colheita, agosto e setembro devem corrigir a série. Se o robusta mantiver o ritmo de crescimento, a perda de espaço no comércio mundial vira um problema estrutural para quem planta arábica no Cerrado Mineiro. Os dados completos estão no relatório mensal de mercado da Organização Internacional do Café, e o boletim de campo da região sai no site da Expocacer.
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