Documentos e depoimentos entregues à CPMI do 8 de Janeiro reacenderam a discussão sobre o papel do general Gonçalves Dias na crise que resultou na invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília. Ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no início do governo Lula, Gonçalves Dias é apontado por comparações entre duas versões de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) como responsável por um documento que chegou ao Congresso Nacional sem alertas que ele próprio havia recebido antes dos ataques golpistas.

Gonçalves Dias é empossado ministro-chefe do GSI por Lula no Palácio do Planalto
Gonçalves Dias é empossado ministro-chefe do GSI pelo presidente Lula, em janeiro de 2023. Foto: Ricardo Stuckert/PR (Wikimedia Commons, CC BY 2.0)

O que mostram os documentos da Abin

O caso não é novo, mas voltou a ganhar força com a repercussão de reportagens que compararam, lado a lado, a primeira versão de um relatório da Abin enviada à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso com uma versão posterior entregue à mesma comissão. Segundo essas apurações, o documento original não continha 11 alertas que teriam sido enviados ao então chefe do GSI entre os dias 6 e 8 de janeiro de 2023, alertando sobre risco de tumultos e invasões nas sedes dos Três Poderes. Esses registros só apareceram numa versão posterior, entregue à comissão depois da repercussão do caso.

De acordo com o material analisado pela CNN Brasil, pela CBN e pela Folha de S.Paulo, o ex-diretor da Abin à época confirmou, em depoimento à CPMI do 8 de Janeiro, que alterou o relatório a pedido de Gonçalves Dias. Segundo esse relato, o próprio general teria pedido a retirada do seu nome como destinatário de parte das mensagens, sob a justificativa de que não deveria constar formalmente como receptor daqueles alertas específicos.

A versão de Gonçalves Dias

Gonçalves Dias já foi ouvido mais de uma vez pelo Congresso sobre o episódio. Em depoimento, o general admitiu que o documento enviado ao Legislativo havia sido modificado antes do envio, mas negou ter cometido fraude ou adulteração. Segundo ele, as alterações no relatório da Abin ocorreram porque parte das informações da versão original, em sua avaliação, “não condiziam com a verdade”, argumento que ele já havia repetido publicamente em outras oitivas sobre o 8 de Janeiro.

Em outras oportunidades, o general também afirmou que só teve conhecimento efetivo dos alertas da Abin quando precisou preparar respostas a pedidos de informação da própria comissão de controle de inteligência do Congresso, feitos em meados de janeiro de 2023, já depois dos ataques às sedes dos Três Poderes. Essa versão é um dos pontos que a comparação entre as duas edições do relatório colocou sob suspeita.

Por que o caso voltou à tona

A controvérsia em torno da atuação do GSI antes e durante os atos de 8 de janeiro de 2023 nunca foi totalmente encerrada no Congresso. A nova repercussão do caso reforça questionamentos que já haviam sido feitos por parlamentares da CPMI: por que alertas recebidos pelo então chefe do órgão de segurança institucional da Presidência não constaram da primeira versão do relatório entregue ao Legislativo, e só surgiram depois que o caso ganhou atenção pública.

Gonçalves Dias deixou o comando do GSI em abril de 2023, após a divulgação de imagens que mostravam o general em conversa com invasores dentro do Palácio do Planalto no dia dos ataques. Desde então, ele segue sendo chamado a depor sobre sua atuação à frente do órgão responsável, entre outras funções, por assessorar a Presidência da República em questões de segurança e inteligência.

O que está em jogo no Congresso

Para a CPMI do 8 de Janeiro, a divergência entre as duas versões do relatório da Abin é relevante porque pode indicar que o Congresso recebeu, num primeiro momento, uma versão incompleta de informações de inteligência sobre o risco real de invasão às sedes dos Três Poderes, justamente o tipo de alerta que a comissão deveria ter recebido em tempo hábil para dimensionar a gravidade da ameaça. A Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência tem entre suas atribuições fiscalizar exatamente esse tipo de fluxo de informação entre os órgãos de inteligência e o Legislativo.

O episódio se soma a outros pontos ainda em apuração sobre a atuação de órgãos de segurança e inteligência nos dias que antecederam os ataques de 8 de janeiro de 2023, incluindo falhas de comunicação entre diferentes instâncias de governo sobre o risco de invasão em Brasília. A Folha de Patrocínio acompanha o desdobramento do caso no Congresso Nacional, assim como outros capítulos recentes da crise institucional em torno do STF envolvendo ministros e o inquérito das fake news.


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Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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