A flor abriu na maior parte das lavouras do Cerrado Mineiro nas últimas duas semanas. É nessa janela que o El Niño no café pesa mais para o produtor de Patrocínio: o painel oficial que acompanha o fenômeno dá mais de 90% de chance de um evento muito forte entre setembro e novembro, e é a florada que define quanto vai ter na safra 2027.

O Painel El Niño 2026-2027 saiu em 2 de setembro, no terceiro boletim assinado pelos sete órgãos federais que monitoram o fenômeno, entre eles o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O documento projeta anomalia de temperatura da superfície do mar acima de 2 °C no Pacífico equatorial e permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027. Para o trimestre de setembro, outubro e novembro, a previsão no centro do país, Minas Gerais incluída, é de chuva abaixo da média e temperatura acima da média. Massas de ar frio ainda podem provocar quedas bruscas de temperatura em setembro.

O que o El Niño no café muda na florada

O florescimento marca o início da formação dos frutos que serão colhidos na safra seguinte. Quando a chuva chega antes da hora, depois de um período seco, a flor abre fora do momento ideal e desorganiza o ciclo da planta. Segundo o engenheiro agrônomo Frederico Gianasi, essas primeiras floradas costumam vir com menos intensidade e ainda atrapalham a florada principal, normalmente concentrada entre setembro e outubro.

O problema não para na abertura da flor. Estresse hídrico combinado com temperatura alta reduz o número de flores, deixa a floração desuniforme, compromete o enchimento dos grãos e acelera a maturação. Floradas em momentos diferentes geram frutos amadurecendo em ritmos diferentes no mesmo pé, o que dificulta a colheita seletiva e derruba a fatia de café de qualidade mais alta. Calor excessivo mexe em tamanho, peso e características sensoriais do grão.

A florada já abriu no Cerrado Mineiro

O relatório semanal da Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, com sede em Patrocínio, registrou o que aconteceu no campo. As chuvas de 26 de agosto e 2 de setembro quebraram a dormência das gemas florais e abriram uma florada expressiva, já observada na maior parte das áreas. A colheita do arábica chegou a 96% do previsto até 4 de setembro, com 83% do volume colhido já beneficiado e rendimento médio de 480 litros por saca de 60 quilos.

O mesmo levantamento mostra o custo das chuvas que caíram durante a colheita. Cerca de 30% da produção desta safra caiu no chão, e 67% desse volume já foi recolhido. A catação dos cafés recebidos segue acima de 20%, puxada principalmente pela participação maior dos lotes de varrição. A cooperativa projeta 2,8 milhões de sacas de arábica na sua área de atuação em 2026 e reúne mais de 800 produtores associados. É essa lavoura, com a flor recém-aberta, que entra no trimestre em que o El Niño no café deve se manifestar com mais força.

Tempestade com arco-íris vista da Serra do Cruzeiro sobre a zona rural de Patrocínio, cenário do El Niño no café
Tempestade e arco-íris vistos da Serra do Cruzeiro, em Patrocínio. Foto: Henriqjss/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Ferrugem, phoma e bicho-mineiro entram na conta

Mudança no comportamento de chuva e temperatura, que é o efeito central do El Niño no café, altera também a pressão de doenças, pragas e plantas daninhas. Com a volta das chuvas, o ambiente fica mais favorável à ferrugem-do-cafeeiro e à mancha de phoma, que atacam folha, flor e fruto. Entre as pragas, o bicho-mineiro pode custar de 30% a 70% da produção, e a broca-do-café perfura o fruto verde e reduz em até 20% o peso dos grãos. A cochonilha também aparece na lista de pragas citadas pelo agrônomo.

As plantas daninhas aparecem em mais da metade das áreas agricultáveis do país, com potencial de perda acima de 90% quando não há controle. Capim-amargoso, capim-pé-de-galinha, azevém, caruru e braquiária estão entre as espécies mais relatadas nas lavouras.

Por que Patrocínio sente primeiro

Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil. Foram 64.225 toneladas em 2024, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, o que coloca a cidade na frente do segundo colocado com folga. Quando o El Niño no café aparece num boletim federal, a conta chega aqui antes de chegar em quase qualquer outro lugar, porque é aqui que está o maior volume em jogo.

A cadeia já vinha discutindo qualidade antes do boletim. Na semana passada, o engenheiro agrônomo Jonas Ferraresso descreveu um período de 15 a 20 dias de chuvas quase ininterruptas durante a colheita, com dano à parte física do grão e à bebida. O presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Márcio Ferreira, disse que a safra vai entregar cafés de bebida inferior, embora garanta o atendimento da demanda de fine cup e good cup. O efeito prático é o alargamento dos diferenciais: desconto maior para lote fraco, prêmio menor para arábica afetado.

O que acompanhar nas próximas semanas

O boletim trabalha com probabilidade, e o próprio painel lembra que uma frente fria pode derrubar a temperatura de repente em setembro. Nada disso está fechado. Com o cenário do El Niño no café desenhado assim, o acompanhamento de campo pesa mais que o calendário fixo de aplicação: chuva registrada por área, temperatura, uniformidade da flor e sanidade da folha.

No mercado, o arábica perdeu mais de 2% em Nova York nesta terça-feira (8), pressionado pela oferta brasileira e por clima considerado favorável nas regiões produtoras. Essa é a leitura de curto prazo, e ela não diz nada sobre a flor que abriu agora. A florada do Cerrado vai aparecer no preço em 2027, e é ela que está exposta ao trimestre mais quente e mais seco que o boletim projeta.

A Folha de Patrocínio acompanhou nos últimos dias os dois lados dessa conta: a chuva que chegou na florada e dividiu a lavoura e o avanço da colheita do café do Cerrado Mineiro. O boletim completo do fenômeno está no portal do Inpe.


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Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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