O Brasil fechou o primeiro semestre de 2026 com o maior número já registrado de empresas em recuperação judicial: 6.341 companhias, segundo o Monitor RGF-BizDoc. O total representa uma alta de 6,2% frente ao fim de 2025 e confirma uma tendência que já dura mais de um ano, puxada por juros elevados e crédito cada vez mais restrito para negócios de todos os portes.
O que mostra o recorde de recuperação judicial no Brasil
O instrumento da recuperação judicial existe para dar fôlego a empresas endividadas: ele permite que a companhia negocie prazos e condições com credores enquanto tenta manter as operações de pé, em vez de fechar as portas de uma hora para outra. Em maio de 2026, o levantamento chegou a apontar 6.513 empresas nessa situação, a maior marca da série histórica. Em junho houve uma redução de 172 casos, levando o total a 6.341. Ainda assim, o número segue bem acima do patamar de 2025.
O comércio lidera o número absoluto de pedidos, seguido por indústria e agronegócio. Só o setor agropecuário soma mais de 1,2 mil empresas em processo de recuperação judicial, reflexo direto do aperto de crédito rural e da oscilação de preços de commodities nos últimos ciclos.
Por que cada vez mais empresas recorrem à recuperação judicial
A explicação não está em um fator isolado, mas na combinação de juros altos, acesso mais caro ao crédito e dívidas acumuladas que as empresas foram empurrando com a barriga até esgotarem alternativas de mercado. O dado mais expressivo do período, porém, é sobre quem está pedindo recuperação judicial: o fenômeno deixou de ser exclusivo das grandes companhias e passou a atingir com força os pequenos negócios.
Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial mais que dobrou, com o total de CNPJs nessa condição saltando de pouco mais de 500 para acima de 1.500. Entre as pequenas empresas, a alta chegou a 69%, e as médias cresceram 36% no mesmo comparativo. Já entre as grandes companhias o movimento é oposto: cresce a procura por acordos extrajudiciais, feitos fora da Justiça, como forma de evitar a exposição pública de um processo formal.
Os grandes nomes por trás da alta: Casas Bahia, Tok&Stok e Braskem
Apesar da popularização entre pequenos negócios, os casos que mais chamaram atenção em 2026 envolvem marcas conhecidas do consumidor brasileiro. O Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial em agosto, com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo, um dos maiores pedidos do varejo nacional dos últimos anos. A rede de móveis Tok&Stok e a varejista Marabraz também entraram com pedidos semelhantes.
No setor de alimentação, a Justiça acolheu nesta semana um pedido de recuperação judicial do grupo controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, envolvendo R$ 265,2 milhões em dívidas. Já a petroquímica Braskem optou pela via extrajudicial e protocolou um pedido de recuperação para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras. É um lembrete de que mesmo empresas de grande porte não estão imunes ao aperto de caixa provocado pelos juros altos.
O que a recuperação judicial revela sobre o crédito no país
Uma reportagem do Poder360 sobre o levantamento mostra que o efeito de uma recuperação judicial raramente fica restrito à empresa que entra com o pedido. Fornecedores no meio da cadeia produtiva costumam ser os primeiros a sentir o impacto, com prazos de pagamento esticados e descontos forçados para manter o relacionamento comercial. Bancos, por sua vez, aumentam as provisões para créditos de risco, o que tende a encarecer ainda mais o crédito disponível para o restante do mercado. É um ciclo que ajuda a explicar por que o custo do dinheiro segue no centro do debate econômico no país, como mostrou a alta da dívida pública federal registrada em junho.
A mesma reportagem chama atenção para a taxa de sucesso ainda baixa dos planos de recuperação judicial: muitas empresas saem formalmente do processo, mas seguem presas a planos de pagamento de vários anos sem passar por uma reestruturação operacional de fato. Passados dois ou três anos, voltam a mostrar sinais de estresse financeiro. Para o consumidor, o reflexo mais direto de todo esse cenário costuma aparecer na forma de lojas fechadas, contas atrasadas com fornecedores locais e menos vagas de emprego no varejo e na indústria, setores que respondem por boa parte da geração de empregos no país.

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