Um documento sobre a compra de tilápia pela Prefeitura de Patrocínio começou a circular nas redes sociais da cidade nos últimos dias com um número que não bate: R$ 48,9 mil o quilo do peixe. A conta simples mostra outra coisa, e é essa conta que faltou antes da indignação virar viral.
Entenda a compra de tilápia pela Prefeitura
O Processo nº 115/2026, vinculado ao Pregão de Registro de Preços nº 76/2026 da Prefeitura de Patrocínio, foi publicado no Portal da Transparência do município no início de agosto de 2026. O lote de filé de tilápia, vencido pela empresa Gera Supermercado Ltda, prevê o fornecimento de 10 toneladas do produto, com valor global reservado de R$ 489.600,00.

Dividindo os dois números, R$ 489.600,00 por 10.000 quilos, o resultado é R$ 48,90 por quilo. Não R$ 48,9 mil, como passou a circular em prints e vídeos nas redes. A diferença entre os dois valores é de mil vezes, e foi justamente esse erro de leitura que deu força à repercussão negativa em cima da compra de tilápia.

Ata de registro de preços não é gasto imediato
Além do erro na conta do quilo, outro ponto ajuda a entender por que a reação nas redes exagerou o tamanho do problema: o processo é uma Ata de Registro de Preços, não uma nota fiscal fechada. Esse tipo de instrumento funciona como um teto de compromisso. A prefeitura fixa o preço unitário do produto junto ao fornecedor vencedor e estabelece um limite máximo que pode ser adquirido ao longo da vigência do contrato, mas só paga pelo que for efetivamente entregue e consumido.
Isso significa que os R$ 489.600,00 não saem do caixa municipal de uma só vez. Se a demanda das escolas ficar abaixo do teto registrado, o gasto real também fica, e o saldo não utilizado não vira despesa. A compra de tilápia, nesse sentido, funciona mais como uma reserva de fornecimento planejado do que como uma compra fechada e paga integralmente no ato.
Por que peixe está no cardápio da merenda escolar
O destino final do produto também muda a leitura do caso. A compra é voltada para a alimentação da rede municipal de ensino, dentro das regras do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que exige variedade de proteínas e prioriza alimentos in natura ou minimamente processados nos cardápios das escolas públicas.
Peixe entra nessa exigência como fonte de proteína magra, ômega-3 e vitamina B12, nutrientes associados ao desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. Entre as opções de peixe disponíveis no mercado brasileiro, a tilápia costuma ser uma das mais baratas e acessíveis para cumprir esse critério nutricional sem pesar demais no orçamento municipal, já que é criada em grande escala no país e não depende de importação.
O erro de conta que virou fake news
A origem da indignação nas redes não foi má-fé sofisticada. Foi a preguiça de dividir dois números antes de compartilhar. R$ 489.600,00 dividido por 10.000 quilos é uma continha de quinto ano do fundamental, mas ninguém parou para fazê-la antes de publicar o print com a leitura errada. O resultado foi um número inflado em mil vezes circulando como se fosse fato apurado.
Fiscalizar gasto público é legítimo e necessário, e é para isso que existe o Programa Nacional de Alimentação Escolar, com regras claras sobre nutrição e uso do dinheiro da merenda. Mas essa fiscalização perde força quando parte de um erro de matemática básica em vez de uma leitura completa do processo licitatório. Tirando o engano no valor por quilo, o que resta da compra de tilápia é uma licitação de registro de preços dentro do teto legal, para comprar proteína de qualidade para alunos da rede municipal, com pagamento condicionado à entrega efetiva do produto.
Para acompanhar outras decisões da gestão municipal de Patrocínio, a Folha de Patrocínio mantém cobertura contínua na editoria de Política.
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