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Exportação de café deve saltar a 49 milhões de sacas em 2026

Armazém sem espaço, contêiner escasso e navio cheio travam o embarque justamente quando o Brasil colhe a maior safra da série histórica.

Frutos de café maduros no pé, matéria-prima da exportação de café brasileira
Frutos de café maduros no pé, matéria-prima da exportação de café brasileira

O Brasil colheu café demais para a estrutura que tem. O país deve mandar para fora cerca de 49 milhões de sacas nesta temporada, contra algo perto de 38 milhões no ciclo anterior, e o produtor do Cerrado está descobrindo que 11 milhões de sacas a mais não travam na lavoura. Travam no armazém, no contêiner e no navio. A exportação de café brasileira entra em setembro com volume de sobra e logística de menos.

A projeção circulou no fechamento desta sexta-feira (4), junto com o dado que explica o resto. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos calcula a produção mundial em 189,7 milhões de sacas na temporada 2026/27, alta de 6% sobre o ciclo passado, com a safra brasileira em nível recorde. Para Patrocínio, que colheu 64.225 toneladas em 2024 pelo levantamento do IBGE e é o maior município produtor do país, esse número tem endereço.

Mãos separando grãos para classificação, etapa que define o preço na exportação de café
A classificação por peneira, defeito e bebida define quanto vale cada lote. Foto: Jonathan Wilkins/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O que trava a exportação de café agora

Haroldo Bonfá, da Pharos Consultoria, descreveu o problema na análise de sexta. Há armazéns que já limitaram ou interromperam o recebimento de novas cargas, porque não cabe mais café. Falta contêiner. Falta espaço em navio. Nada disso se resolve dentro da porteira, e é a primeira vez em anos que o gargalo do café brasileiro fica inteiramente fora da fazenda.

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Nos anos de safra curta o produtor competia por comprador. Agora ele compete por vaga. Quem chega antes no armazém e no embarque despacha primeiro, e quem chega depois espera, o que sai caro num mês de preço em queda.

A colheita, essa sim, praticamente acabou. Bonfá aponta que restou só uma parcela pequena de arábica no pé. No Cerrado Mineiro, o levantamento da Expocacer já mostrava 93% da lavoura colhida até o fim de agosto, com 77% do volume beneficiado. Ou seja, o café que vai congestionar o sistema já está colhido e beneficiado, esperando a vez.

Uma safra recorde empurra o volume

A StoneX elevou a estimativa da safra brasileira 2026/27 para 77,2 milhões de sacas, sendo 51,8 milhões de arábica e 25,4 milhões de conilon. Em março a mesma consultoria trabalhava com 75,3 milhões. A Conab projeta 66,2 milhões num recorte metodológico diferente, e também classifica o ano como recorde da série histórica.

Esse volume todo precisa virar exportação de café em algum momento, e chega ao mercado internacional justamente quando o comprador não está com pressa. O arábica fechou a semana em Nova York a 295,60 centavos de dólar por libra-peso no contrato de dezembro e 287,40 no de março, abaixo da barreira dos 300 que sustentou boa parte do ano. No mercado físico, o cereja descascado em Guaxupé subiu 2,04% e foi a R$ 1.749 a saca, enquanto o tipo 6 bebida dura ficou entre R$ 1.610 e R$ 1.700.

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Existe um contrapeso nessa conta. Os estoques certificados de arábica monitorados pela bolsa estão em níveis historicamente apertados. Muito café disponível no Brasil e pouco café certificado na bolsa costuma segurar a queda antes que ela vire despenque, e foi provavelmente o que impediu a semana de terminar pior do que terminou.

Café diferenciado cai menos que o commodity

Bonfá fez questão de separar uma coisa da outra: volume não significa perda generalizada de valor. Cafés de bebida superior, grãos diferenciados, lotes fermentados e certificados continuam encontrando remuneração melhor, e vêm caindo proporcionalmente menos que o café comum.

É exatamente o terreno em que o Cerrado Mineiro decidiu jogar. A região foi a primeira Denominação de Origem do café no Brasil e certificou cerca de 420 mil sacas na safra 2025/2026, chegando a 27 mercados internacionais. Na quinta-feira a Folha publicou a história do mestre de torra de Patrocínio convidado para o Cup of Excellence, que mede reputação sensorial, e não tonelada.

A diferença aparece no bolso. Um lote de bebida dura acompanha o commodity para baixo. Um lote com pontuação alta, rastreabilidade e certificação negocia por fora do indicador, com prêmio próprio, e sente menos o mesmo tombo. Numa temporada em que a exportação de café brasileira bate recorde de volume, é o que decide se a queda de preço vira prejuízo ou só margem menor.

O que muda para o produtor de Patrocínio

A recomendação técnica do momento é escalonar as vendas em vez de despejar tudo de uma vez, e usar instrumentos de proteção de preço em vez de apostar numa recuperação que ninguém consegue datar. Vender fracionado, em janelas diferentes, dilui o risco de acertar justamente o pior dia do mês.

Só que essa estratégia depende de algo que está em falta: lugar para guardar. Quem tem armazenagem própria ou vaga garantida na cooperativa consegue escolher a hora de vender. Quem depende de terceiro vende quando aparece espaço. A Expocacer, sediada na Avenida Faria Pereira e fundada em 1993, opera justamente nesse ponto da cadeia para os cooperados da região.

Dois números devem sair nas próximas semanas e valem atenção. O Cecafé divulga na primeira quinzena o relatório mensal com o fechamento das exportações de agosto, e a Conab tem o terceiro levantamento da safra previsto para setembro. Eles vão mostrar se o congestionamento está só atrasando embarques ou se já começou a derrubar a exportação de café fechada no ano.

O que se sabe até agora

A safra brasileira é recorde e a exportação de café projetada para o ano chega perto de 49 milhões de sacas. O arábica perdeu os 300 centavos em Nova York e fechou a semana no vermelho. Armazém sem espaço, contêiner escasso e navio cheio são os pontos de estrangulamento apontados pela Pharos Consultoria. E o café de qualidade superior, que é a aposta do Cerrado Mineiro, segue negociando com prêmio enquanto o commodity recua. A lavoura fez a parte dela neste ano. O aperto de 2026 está do portão da fazenda para fora.

Mais cobertura de agronegócio e da cafeicultura da região está na editoria de Cidade da Folha de Patrocínio. Os dados de mercado desta reportagem foram apurados a partir do acompanhamento diário do mercado de café do Notícias Agrícolas e cruzados com o histórico local já publicado sobre os armazéns lotados que derrubaram o preço em Nova York.


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