O advogado e candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini (Novo-PR) gravou um vídeo de campanha em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, prometendo combater o que chama de doutrinação de esquerda nas universidades públicas brasileiras, caso seja eleito. O local escolhido não é aleatório: foi ali que Chiquini foi hostilizado por um grupo de manifestantes em setembro de 2025.

No vídeo, publicado nas redes sociais, Chiquini afirma que vai “por um fim nessa doutrinação da esquerda dentro das nossas universidades federais e estaduais” e promete que as instituições “voltarão a ser motivo de orgulho para a nossa nação”. O discurso é apresentado como parte da plataforma de campanha do candidato, identificado no vídeo pelo número 3000.

Jeffrey Chiquini grava vídeo sobre doutrinação de esquerda em frente ao prédio histórico da UFPR
Foto: reprodução de vídeo de campanha, Jeffrey Chiquini (Novo-PR)

Relembre o confronto de 2025 na UFPR

Em setembro de 2025, Chiquini foi a UFPR para participar de uma palestra sobre o Supremo Tribunal Federal, ao lado dos vereadores de Curitiba Guilherme Kilter e Rodrigo Marcial, ambos do Novo. Segundo reportagens da época e nota da Polícia Militar do Paraná, um grupo de manifestantes cercou os três, proferiu insultos e ameaças e chegou a arremessar objetos contra eles. Chiquini e os vereadores só deixaram o prédio sob escolta policial, com reforço da Tropa de Choque.

Depois do episódio, o advogado Paulo César Rodrigues de Faria, conhecido por defender o ex-deputado Daniel Silveira, protocolou pedido de providências e desagravo público em favor de Chiquini junto à Ordem dos Advogados do Brasil. O episódio ficou marcado como um dos exemplos mais citados por parlamentares e candidatos do Novo ao criticar o clima político dentro de universidades públicas.

Chiquini usa episódio para justificar proposta de campanha

Um ano depois, Chiquini voltou ao mesmo local para gravar a nova peça de campanha, associando a experiência pessoal à proposta de “acabar com essa doutrinação de esquerda” que, segundo ele, atrapalha o ensino em “todas as universidades federais e estaduais do Brasil”. A fala do candidato repete um discurso comum a setores da direita brasileira, ligado ao movimento conhecido como Escola sem Partido, que defende a neutralidade política de professores em sala de aula e enfrenta críticas de entidades acadêmicas, que consideram a proposta uma forma de censura ao ensino.

O vídeo não detalha que medidas concretas Chiquini pretende adotar como deputado federal para alterar o funcionamento das universidades, já que a autonomia universitária e o currículo das instituições federais são regulados por lei e por normas do próprio Ministério da Educação, não por decisão isolada de um parlamentar.

Quem é Jeffrey Chiquini

Jeffrey Chiquini é advogado criminalista e comentarista político, com atuação frequente em defesas ligadas a bolsonaristas processados após os atos de 8 de janeiro de 2023. Ele concorre a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Paraná, pelo partido Novo, com o número 3000. Nas redes sociais, o candidato já esteve envolvido em outras polêmicas cobertas pela Folha, como quando disse que a Delta Force dos Estados Unidos agiria no Brasil contra o PCC, declaração sem qualquer confirmação oficial do governo americano ou brasileiro.

Até a publicação desta matéria, a UFPR não havia se manifestado sobre o novo vídeo de campanha gravado em suas dependências.

Debate sobre doutrinação de esquerda divide opiniões

A acusação de doutrinação de esquerda nas universidades públicas não é nova na política brasileira. Projetos como o Escola sem Partido, discutidos no Congresso desde a década passada, propõem regras para limitar manifestações políticas de professores em sala de aula, sob o argumento de proteger a liberdade de consciência dos alunos. Entidades como a União Nacional dos Estudantes e associações de docentes rebatem esse tipo de projeto, argumentando que ele criminaliza o debate acadêmico e fere a autonomia universitária garantida pela Constituição.

Reitorias de universidades federais também costumam reagir a esse tipo de discurso lembrando que o funcionamento e o currículo das instituições passam por conselhos universitários compostos por professores, técnicos e estudantes, não por decisão unilateral de um único agente político, seja ele reitor, ministro ou parlamentar. A promessa de campanha de Chiquini soma-se a um coro de outros candidatos de direita que, na eleição deste ano, apostam no tema da doutrinação de esquerda como bandeira eleitoral, sobretudo entre eleitores mais jovens e universitários.


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