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Café na Europa: acordo derruba tarifa do solúvel e do torrado

O acordo Mercosul-UE vale provisoriamente desde 1º de maio e corta a tarifa do café industrializado. O Brasil vendeu 38 milhões de sacas e só 0,1% saiu torrado.

Cerejas maduras de café em um cafezal do Cerrado Mineiro, região que vende café na Europa
Cerejas maduras de café em um cafezal do Cerrado Mineiro, região que vende café na Europa

Todo ano, o café de Patrocínio (MG) atravessa o Atlântico quase sempre da mesma forma: grão verde, sem marca, sem imposto de entrada, para ser torrado por outra empresa. O café na Europa só paga tarifa quando chega industrializado, e é justamente essa tarifa que o acordo Mercosul-União Europeia passou a derrubar desde 1º de maio. O número que resume a distância entre o que o Brasil planta e o que ele vende pronto é pequeno: em um ano, só 0,1% das sacas exportadas saíram torradas.

Em uma semana de planejamento em Bruxelas, a ApexBrasil reuniu uma delegação de 19 entidades privadas e tratou o café como um dos oito setores prioritários para transformar o acordo em vendas e investimentos nos próximos 12 meses. O maior obstáculo citado no evento não foi o preço, e sim a conformidade técnica: certificações e rastreabilidade socioambiental.

O café na Europa ainda é quase todo grão verde

Segundo dados do governo brasileiro compilados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, 97% do café que o Brasil exporta para a União Europeia é grão verde. O produto já entra sem tarifa. O que paga imposto é o solúvel, com alíquota de cerca de 9%, e o torrado e moído, com cerca de 7,5%. A Folha não localizou a tabela oficial por código aduaneiro, e a indústria fala em alíquotas diferentes conforme o tipo de solúvel, por isso os percentuais valem como referência.

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No ano-safra de julho de 2025 a junho de 2026, o Brasil embarcou 38,462 milhões de sacas para 125 países, queda de 15,7% sobre o período anterior, segundo o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé). A receita ficou em US$ 14,595 bilhões, 1% menor, a segunda maior da série histórica. O solúvel respondeu por 3,874 milhões de sacas, ou 10,1% do total. O torrado, por 56,86 mil sacas.

Quem compra o café brasileiro e por que a Alemanha encolheu

A Alemanha continua líder, com 5,188 milhões de sacas (13,5% do total), mas comprou 20,6% menos que no ano anterior. Os Estados Unidos recuaram 43,2%, para 4,243 milhões de sacas, e perderam a liderança que mantinham desde a safra 2009/10. A Itália levou 3,267 milhões de sacas, com queda de 8,1%, e a Bélgica, 2,330 milhões, com queda de 24,7%. Só os três países europeus somam 10,785 milhões de sacas, cerca de 28% de tudo o que o Brasil vendeu.

O quadro mudou de novo em setembro: os americanos voltaram a comprar mais, como a Folha mostrou em matéria sobre o salto de 86% nos embarques para os EUA, e o balanço do mês está em exportações de café somam 3,93 milhões de sacas em setembro.

O que o acordo muda para o café na Europa

O acordo foi assinado em 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai. O Senado brasileiro o aprovou por unanimidade em 4 de março, o Decreto 12.953 saiu em 28 de abril e a parte comercial passou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio, segundo a Comissão Europeia. A vigência plena depende do parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia, que o Parlamento Europeu pediu em 21 de janeiro por 334 votos a 324, e das ratificações nacionais.

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Para o café industrializado, o Cecafé fala em zerar a tarifa em quatro anos, e a indústria de solúvel, representada pela Abics, em redução gradual com tarifa zero a partir do quinto ano. O café entra na cláusula de salvaguarda bilateral da União Europeia, que permite ao bloco frear importações se houver prejuízo ao mercado interno.

A barreira que pesa mais que a tarifa: o regulamento do desmatamento

Quem exporta café para a Europa precisa, a partir de 30 de dezembro de 2026, provar que o produto não vem de área desmatada depois de 31 de dezembro de 2020 e que cumpre a lei local. A exigência vale para grandes e médios operadores. Micro e pequenos têm até 30 de junho de 2027. A prova exige localização do talhão por georreferenciamento e declaração de diligência, com registros guardados por cinco anos. O Brasil está classificado como país de risco padrão.

A Agência Brasil já apontou que os pequenos cafeicultores tendem a ser os mais afetados. Uma tarifa menor atrai o comprador de café na Europa, mas só entra na conta de quem consegue comprovar a origem.

Colhedoras mecânicas entre as linhas de um cafezal do Cerrado Mineiro, região que vende café na Europa
Colheita mecanizada no Cerrado Mineiro. Foto: Expocacer
Colhedoras mecânicas entre as linhas de um cafezal do Cerrado Mineiro, região que vende café na Europa
Colheita mecanizada no Cerrado Mineiro. Foto: Expocacer

O que Patrocínio já tem para vender café na Europa

A região do Cerrado Mineiro tem uma vantagem que poucas origens brasileiras têm: a Denominação de Origem. Na safra 2025/26, a Federação dos Cafeicultores do Cerrado certificou 419,9 mil sacas, vendidas para 27 mercados. A Europa levou 132,2 mil sacas, 68,5% do volume certificado que foi exportado. Itália, Estados Unidos, Polônia, Reino Unido e Espanha concentram 61,3% das compras. A meta para a próxima safra é de 600 mil sacas, e a base é de cerca de 4.500 produtores em 55 municípios.

A Expocacer, cooperativa de Patrocínio, mantém um protocolo de rastreabilidade da propriedade ao embarque e, em maio, mandou oito contêineres, com 2.720 sacas, para uma torrefação na Suécia, segundo a própria cooperativa. A entidade também tem a torrefação Dulcerrado, no Distrito Industrial de Patrocínio. A Folha não encontrou, em Patrocínio nem no Cerrado Mineiro, indústria de café solúvel, o produto cuja tarifa mais cai. Quem quiser ganhar nessa faixa terá de fechar parceria com fábricas de outras regiões.

A safra deste ano ajuda a ter o que vender: a Folha mostrou que o Cerrado Mineiro colheu 86% a mais que no ano anterior.

Análise: quem paga a conta da exportação com valor agregado

O acordo beneficia primeiro a indústria e só depois o produtor. Para a indústria, a tarifa menor sobre o solúvel e o torrado torna possível vender mais café com marca brasileira na prateleira europeia. Para quem vende café na Europa como grão verde, caso do produtor de Patrocínio, o ganho é indireto: depende de a demanda europeia crescer e de os compradores pagarem melhor por rastreabilidade e qualidade.

Quem vai pagar o georreferenciamento e a documentação do pequeno produtor, que tem até junho de 2027 para se adequar? E quem vai instalar no Cerrado Mineiro a indústria que transforma o café em solúvel, em vez de deixar essa margem na Europa? Sem resposta para as duas, o café na Europa continuará sendo, em boa parte, um mercado de grão verde.

A Folha acompanha o assunto e atualiza esta página quando houver novos dados da Comissão Europeia, do Cecafé ou das cooperativas.


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