O Alto Paranaíba, região que tem Patrocínio como maior município produtor de café do país, concentrou 130 dos trabalhadores retirados de condições de trabalho análogo à escravidão em Minas Gerais durante a Operação Resgate VI. É a maior concentração regional do estado, que por sua vez lidera o ranking nacional da operação.

Os números gerais são da nota oficial divulgada em 9 de setembro pela Polícia Federal e pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Foram 479 pessoas resgatadas em todo o país entre 1º e 31 de agosto de 2026, em 231 ações fiscais. Minas Gerais respondeu por 208 delas, quase 43% do total. O recorte por região mineira, com os 130 do Alto Paranaíba, foi divulgado pelo jornal Hoje em Dia a partir dos dados da mesma operação; a nota oficial detalha o estado, não as regiões.

Gráfico da Folha de Patrocínio com o perfil dos trabalhadores resgatados de trabalho análogo à escravidão na Operação Resgate VI
Entre os 479 resgatados havia 75 mulheres, 66 migrantes e 13 crianças e adolescentes. Arte: Folha de Patrocínio sobre dados da Polícia Federal e do Ministério do Trabalho e Emprego

Café é a segunda atividade em trabalho análogo à escravidão

A distribuição por atividade econômica é o dado que amarra o trabalho análogo à escravidão ao Cerrado Mineiro. A construção em geral lidera, com 85 resgatados. Logo atrás vem o cultivo de café, com 53. Depois cebola, com 47, e batata-inglesa, com 44. Somadas, as três lavouras que definem a economia do Alto Paranaíba respondem por 144 dos 479 casos, quase um terço do total nacional.

A fiscalização também mostrou onde esse tipo de exploração se esconde. O meio rural concentrou 57,5% das ações, com 292 resgatados, contra 36,5% no meio urbano, com 178. Catorze empregadores domésticos foram fiscalizados, com nove resgates.

O que a fiscalização encontrou

Entre os 479 trabalhadores havia 75 mulheres, 13 crianças e adolescentes e 66 migrantes. Estes últimos vinham de Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau, o que mostra que a rede de recrutamento não é só interna. Outras 1.192 pessoas foram encontradas trabalhando sem registro formal, sem que o caso chegasse a ser enquadrado como trabalho análogo à escravidão.

A resposta legal veio em várias frentes. Foram 28 interdições ou embargos, quatro ações civis públicas, três termos de ajuste de conduta e a previsão de cerca de 1.836 autos de infração. Em dinheiro, a operação gerou R$ 455,5 mil em condenações por dano moral coletivo, R$ 675,5 mil em dano moral individual e mais de R$ 1,4 milhão em verbas trabalhistas e rescisórias pagas aos resgatados.

Por que a região aparece tanto nessa conta

Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, com 64.225 toneladas em 2024, segundo o IBGE, e a colheita é o momento de maior demanda por mão de obra temporária no calendário agrícola. Agosto, o mês da operação, é justamente o fim da colheita do arábica no Cerrado Mineiro, quando o volume de contratações informais e de turmas trazidas de fora atinge o pico.

Isso não faz do produtor da região um infrator por definição, e a operação não autuou nem a maioria nem sequer uma fração relevante dos cafeicultores do Alto Paranaíba. Foram 17 empregadores mineiros flagrados, de 61 no país inteiro. Mas a concentração de casos de trabalho análogo à escravidão onde a demanda por mão de obra temporária é maior é um padrão que se repete safra após safra, e é o que explica por que a fiscalização vem para cá em agosto.

O contraponto econômico também pesa. A cafeicultura do Cerrado vive um ano de margens apertadas: a exportação mundial de arábica caiu 8,9% em julho, e a saca perdeu valor no mercado interno ao longo de setembro. Pressão de custo não justifica irregularidade trabalhista, mas ajuda a entender o ambiente em que ela aparece.

Como denunciar

Denúncias de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, do Ministério do Trabalho e Emprego, disponível na internet, ou pelo Disque 100, do governo federal, que recebe violações de direitos humanos. O Ministério Público do Trabalho aceita denúncia pelo site da instituição, e o 190 atende quando há risco imediato à integridade de alguém.

Os sinais que costumam aparecer nesses casos são conhecidos: alojamento sem água potável ou sem banheiro, retenção de documentos, dívida criada pelo próprio empregador com transporte, alimentação ou ferramenta, jornada sem folga e ausência de contrato. Quem trabalha na colheita e reconhece esse quadro não precisa provar nada para denunciar, porque a apuração é da fiscalização.

Os dados desta reportagem foram apurados na nota oficial da Polícia Federal sobre a Operação Resgate VI e no recorte regional publicado pelo Hoje em Dia.

A Folha de Patrocínio procurou a Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais para saber em quais municípios do Alto Paranaíba os 130 resgates aconteceram. A matéria será atualizada quando houver resposta.


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