Choveu 8,1 milímetros em Patrocínio neste domingo, dois dias depois do vendaval que derrubou uma estrutura na Praça da Matriz, e a previsão para segunda-feira é de mais 17,1 milímetros. Quem mora na cidade viu só o fim de uma semana esquisita de tempo. Quem tem lavoura viu a chuva na florada chegar, com tudo o que isso significa para a safra de 2027 e para o que ainda não saiu do chão desta.
Os dados de precipitação e umidade desta reportagem vêm da série pública do Open-Meteo para as coordenadas do município (-18,94 / -46,99), cruzados com o boletim de campo mais recente da Expocacer, a cooperativa dos cafeicultores do Cerrado sediada em Patrocínio. A virada foi rápida. Em 31 de agosto, a umidade relativa média do dia estava em 48%. Neste domingo bateu 83%, e a projeção para segunda é de 90%. De sexta-feira até o dia 11, o acumulado previsto soma cerca de 40 milímetros.
Por que a chuva na florada decide a safra seguinte
O cafeeiro não floresce por calendário. Ele precisa de um período seco que segure a gema dormente e, depois, de uma chuva de volume suficiente para reidratar a planta de uma vez só. É esse choque que abre a flor branca, entre sete e doze dias depois. O agosto seco do Cerrado Mineiro cumpriu a primeira metade da tarefa. A água que caiu agora é a segunda.
Só que a chuva na florada precisa ter continuidade para valer alguma coisa. O Instituto Nacional de Meteorologia já havia avisado, em nota técnica de 26 de agosto sobre as lavouras do Sudeste, que reidratar o solo depressa demais depois de um período seco pode disparar uma florada precoce, e que a estiagem logo em seguida deixa a florada desuniforme e o pegamento ruim. Na prática, a planta gasta energia abrindo flor que não vira fruto, e o produtor só descobre isso em outubro, quando não há mais o que fazer.
A série de previsão para Patrocínio mostra justamente o cenário que exige atenção: chuva forte na segunda-feira, 5,4 milímetros na terça, volumes fracos entre quarta e sexta, e quatro dias secos na sequência, de 12 a 15 de setembro. É pouco para garantir o pegamento se a florada abrir agora em cheio.

O café que ainda está no chão
Enquanto a lavoura se prepara para o ciclo seguinte, a safra atual continua sem sair inteira do terreno. O relatório da Expocacer com dados até 28 de agosto aponta 93% da colheita concluída na área de abrangência da cooperativa e 77% dos frutos já beneficiados, com rendimento médio de 490 litros para cada saca de 60 quilos.
O número que pesa agora é outro. Cerca de 30% do café desta safra caiu no chão por causa das chuvas de agosto, e só uns 54% desse volume tinha sido recolhido até o fim do mês. Quer dizer que quase metade do café caído continua na terra da lavoura, embaixo da água que está caindo. Grão molhado no solo fermenta e pega gosto de terra, o que derruba a classificação da bebida. A catação média já vinha acima de 20%, segundo os técnicos da cooperativa, proporção alta de grão defeituoso que precisa ser separado antes da venda.
Então a mesma chuva na florada que anima a conta de 2027 estraga parte do que restou de 2026. As duas coisas acontecem na mesma lavoura, na mesma semana.
Patrocínio no centro da conta
O município colheu 64.225 toneladas de café em 2024, o maior volume do Brasil segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, e sedia a Expocacer desde 1993, na Avenida Faria Pereira. A cooperativa projeta 2,8 milhões de sacas de arábica na sua região de atuação neste ano.
Nessa escala, um ponto percentual de café perdido no chão em Patrocínio vale mais, em volume, do que a safra inteira de muita cidade cafeeira brasileira. E florada bem pega aqui aparece na oferta mundial do ano que vem, com efeito sobre o preço que o próprio produtor daqui vai receber. Foi o que a queda do arábica na semana passada deixou claro para quem estava vendendo.
O que o produtor consegue fazer agora
Recolher o café do chão entre uma chuva e outra, mesmo com o terreno pesado, é a diferença entre entregar um lote comercializável e entregar um lote rebaixado. Terreiro e secador entram sob pressão, porque grão que chega molhado não espera. E a leitura da chuva na florada só fecha na semana que vem, quando der para contar quantas gemas abriram de fato e quantas ficaram esperando a próxima água.
O boletim semanal da Expocacer costuma sair no início da semana. A Folha publica a atualização assim que o novo levantamento for divulgado.
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