Áudio de Vorcaro sobre Lula não foi editado, diz laudo particular
Perito diz que a voz é do ex-banqueiro e que as cinco gravações não têm corte nem uso de IA. PF e PGR afirmam que o relato nunca virou depoimento; Lula e Padilha negam.

Um laudo particular divulgado neste sábado (17) afirma que a voz no áudio de Vorcaro sobre Lula é mesmo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e que as cinco gravações analisadas não têm sinal de corte, montagem ou voz criada por inteligência artificial. O documento é assinado pelo perito Leocadio Casanova. Ele trata da voz e da integridade dos arquivos, e não diz se o que Vorcaro conta é verdade.
Nas gravações, reveladas em 9 de outubro, Vorcaro diz ter pago cerca de R$ 30 milhões para ajudar a financiar o documentário “Lula”, do cineasta Oliver Stone, além de um valor não informado ao Instituto Lula, em troca de acesso a fundos de pensão de estatais. Lula, o PT e os demais citados negam. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) dizem que ele nunca prestou depoimento com esse conteúdo, e o laudo não foi pedido por nenhuma das duas. A Folha contou o começo do caso na matéria sobre o filme de Lula.
O que o laudo do áudio de Vorcaro diz
O perito respondeu a dois quesitos. No primeiro, sobre indícios de montagem, interferência ou fraude, a resposta foi “não”. Segundo o laudo, os arquivos passaram por exames estrutural, espectral, de continuidade temporal, de duplicação e de indicadores de síntese e “não apresentam qualquer elemento técnico indicativo de montagem, edição, corte, inserção, reordenação, síntese ou manipulação de voz por inteligência artificial”.
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Casanova trabalha com perícia há mais de 20 anos e atuou em casos de grande repercussão, como a análise da gravação em que o empresário Joesley Batista, da J&F, registrou o então presidente Michel Temer em 2017.
A defesa está dividida sobre a gravação
O advogado Daniel Bialski, que assumiu a defesa de Vorcaro para preparar uma nova proposta de delação, reconheceu a voz em 9 de outubro: “A voz realmente é dele nos áudios, porém não sei quando e em qual circunstâncias isso foi gravado”. Ele disse ainda que não defendia o ex-banqueiro quando o anexo foi negociado e que só o cliente poderá, no futuro, confirmar ou não o teor dos fatos.
Os advogados Sérgio Leonardo e Engels Muniz foram na direção contrária. Em nota, disseram não reconhecer a origem, a autenticidade nem a integridade do material. Reconhecer a voz também não esclarece quando nem onde o áudio de Vorcaro foi gravado. Vorcaro está preso, e o PT quer saber quem fez a gravação e em que condições.
Alpha for MenO que dizem a PF e a PGR
Em nota de 9 de outubro, a Polícia Federal afirmou que Vorcaro “não prestou depoimento com o teor relatado” e que não entregou anexos, documentos ou informações com esse conteúdo. Segundo a PF, as propostas de colaboração premiada da defesa foram recusadas por não atenderem aos requisitos legais. A PGR disse que não houve depoimento oral, “justamente por conta da rejeição da proposta”, e que as conversas passaram só pelos advogados.
Pela Lei 12.850/2013, uma delação só vale depois de homologada pela Justiça, e a palavra do colaborador sozinha não basta para condenar ninguém. O relato de Vorcaro parou antes disso, na fase de proposta.
O grupo Prerrogativas, de advogados ligados à defesa de Lula, pediu à PF em 9 de outubro uma perícia urgente no áudio de Vorcaro, para apurar cortes, montagem ou uso de inteligência artificial. O ministro Alexandre Padilha também pediu perícia. Até a publicação desta matéria, a Folha não encontrou resultado de perícia oficial.

Padilha, os fundos de pensão e as mensagens do celular
A segunda frente do caso envolve Padilha, hoje ministro da Saúde e, em 2024, ministro das Relações Institucionais. No anexo de delação rejeitado, Vorcaro diz que um operador chamado Júlio se apresentou como alguém com acesso ao gabinete do ministro e que o grupo cobraria 10% do dinheiro que o Banco Master captasse em fundos como Previ, Petros e Postalis. A meta, segundo o relato, era chegar a R$ 10 bilhões.
Mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro, apreendido na investigação, mostram um jantar em Brasília em 23 de outubro de 2024, na casa do ex-banqueiro, com Padilha e Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta. O jantar não constava da agenda oficial do ministro. Dois dias depois, Vorcaro escreveu ao empresário Walfrido dos Mares Guia que precisava “muito ver o Lula”. O encontro com o presidente aconteceu em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. Outras conversas do aparelho estão na matéria sobre o celular de Vorcaro.
Padilha nega. “Em nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto, jamais agi ou autorizei que outros agissem” em defesa de Vorcaro e do Master, disse em nota. Ele chamou o áudio de Vorcaro de manipulado e pediu à Advocacia-Geral da União (AGU) que buscasse direito de resposta na Justiça. A assessoria do ministro disse que ele participava de muitos eventos e que o jantar não teve desdobramento. O Postalis afirmou que nunca investiu em papéis do Master, e Mares Guia negou ter intermediado o encontro com Lula.
O que dizem Lula, o PT e a produção do filme
Lula afirmou que nunca pediu nem recebeu vantagem financeira e que não autorizou ninguém a receber dinheiro de Vorcaro em nome dele. A campanha chamou o caso de “peça eleitoral irresponsável” e disse que iria à Justiça. O presidente do PT, Edinho Silva, lembrou que o relato não foi aceito como delação nem pela PF nem pelo Ministério Público.
A equipe do documentário, dirigido por Oliver Stone e Rob Wilson, negou ter recebido dinheiro de Vorcaro, do Master ou de empresas ligadas a ele e disse que Stone não conhecia o ex-banqueiro. A Folha não encontrou resposta de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, nem de Paulo Okamotto, que dirige o Instituto Lula, ambos citados no relato. Também não encontrou manifestação da campanha de Lula sobre o laudo até a publicação.
O caso a oito dias do segundo turno
O áudio de Vorcaro entrou na campanha pelos dois lados. Aliados de Lula tratam o caso como uma combinação entre o ex-banqueiro e a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), e o grupo Prerrogativas pediu à PF que investigue essa suspeita. Vorcaro também aparece do outro lado: em áudios já divulgados, Flávio cobra dele pagamentos para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, numa negociação de cerca de US$ 24 milhões, como a Folha mostrou no caso Dark Horse. Nenhuma das acusações foi comprovada até agora.
O segundo turno é em 25 de outubro. Em Patrocínio (MG), Flávio teve 61,18% dos votos válidos no primeiro turno (31.008 votos) e Lula, 30,44% (15.427), segundo o TSE. Os números por cidade estão na apuração em tempo real, e as pesquisas da reta final, na página de pesquisas do segundo turno.
Este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir da pauta, das fontes e das regras do editor-chefe. Saiba mais em Como usamos inteligência artificial.






