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O que a ata do Copom diz sobre disciplina fiscal e juros altos

O texto do Banco Central liga o esmorecimento fiscal ao juro neutro, mas não cita Lula, o governo nem gastos. A Folha leu a ata de setembro na íntegra.

Edifício-sede do Banco Central do Brasil em Brasília, onde o Copom discute a ata do Copom e os juros
Edifício-sede do Banco Central do Brasil em Brasília, onde o Copom discute a ata do Copom e os juros

A ata do Copom de setembro, divulgada em 22 de setembro, diz que a falta de empenho em reformas e em disciplina fiscal pode elevar o juro neutro da economia e deixar a política monetária menos potente. O texto circula agora nas redes com a leitura de que o Banco Central teria “alertado Lula” por gastar “sem controle”. O documento não diz isso: a ata não cita o presidente, não fala em governo nem em gastos, e trata de política fiscal em termos gerais. A Folha leu o texto original, publicado pelo próprio Banco Central, para separar o que está escrito do que foi acrescentado.

O que a ata do Copom diz sobre disciplina fiscal

O trecho que circula está no parágrafo 8 da ata da 281ª reunião, realizada em 15 e 16 de setembro, em Brasília. O Comitê afirma que a política fiscal tem um efeito de curto prazo, principalmente por meio do estímulo à demanda, e uma dimensão estrutural, capaz de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e o prêmio a termo da curva de juros. Segundo o texto, uma política fiscal que atue de forma contracíclica e ajude a reduzir o prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta.

Em seguida vem a frase que virou munição. O Comitê “reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia”, com “impactos deletérios sobre a potência da política monetária”. O parágrafo da ata do Copom termina com o recado de que as políticas devem ser “previsíveis, críveis e anticíclicas” e com a necessidade de que as políticas fiscal e monetária sejam “harmoniosas”.

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O verbo “reafirma” mostra que não há novidade. O Copom repete esse diagnóstico em atas anteriores, e a de setembro não traz uma advertência nova dirigida a alguém. É a mesma linha técnica que o colegiado mantém há meses, e ela aparece ao lado de outros fatores, como o crédito direcionado, que não dependem só do Executivo.

O que é juro neutro e por que ele pesa no bolso

A taxa de juros neutra é aquela que não esquenta nem esfria a economia, mantendo a inflação estável. Ninguém a observa diretamente, e o Banco Central a estima. Se ela sobe, a Selic precisa ficar mais alta, por mais tempo, para ter o mesmo efeito de frear os preços. É por isso que a ata fala em “custo de desinflação”: para derrubar a inflação, a economia teria de desacelerar mais.

Juro alto encarece o financiamento da casa, do carro, do capital de giro do comércio e do crédito rural. Para os produtores de café de Patrocínio (MG), que financiam safra, máquinas e armazenagem, o custo do dinheiro entra na conta de cada ano. A Folha mostrou, na reportagem sobre a projeção da inflação de 2026 que passa do teto da meta, que o mercado já enxerga os preços pressionados.

O que o Copom decidiu em setembro

Na mesma reunião, o Copom reduziu a taxa básica de juros para 13,75% ao ano, em corte de 0,25 ponto percentual, segundo o Banco Central. A ata do Copom, porém, não é um texto de afrouxamento. O Comitê escreve que, em um ambiente de expectativas de inflação desancoradas, “como é o caso do atual”, exige-se “uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, conclusão que, segundo o documento, foi compartilhada por todos os membros.

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As projeções do Copom para a inflação acumulada em quatro trimestres são de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante da política monetária. A pesquisa Focus, citada na ata, apontava expectativas de 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, todas acima da meta. O Comitê diz ainda que os riscos para a inflação têm assimetria de alta e lista, entre eles, estímulos à demanda agregada, em particular ao consumo, que tenham impacto maior que o esperado.

O que a ata do Copom não diz

O texto não menciona o presidente Lula, o governo federal, o Ministério da Fazenda nem qualquer nível de gasto público. Não aponta culpados, não usa a expressão “sem controle” e não faz juízo sobre uma gestão específica. A leitura de que o Banco Central “alerta Lula” é uma interpretação política de um documento técnico, e quem a faz atribui ao Banco Central uma acusação que o BC não escreveu.

O debate fiscal tem dados próprios, fora da ata. A Folha publicou que a dívida pública chegou a R$ 10,8 trilhões, ou 81,9% do PIB, segundo o Banco Central, e que o FMI calcula a dívida bruta do Brasil em 96,5% do PIB, por um critério diferente. Quem quiser discutir gastos do governo deve partir desses números e das contas do Tesouro, e não de uma frase da ata do Copom que fala de risco fiscal em geral.

Gabriel Galípolo, hoje presidente do Banco Central, em foto de 2023 usada na matéria sobre a ata do Copom
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em foto de 2023. Foto: Agência Senado (CC BY 2.0)

Quem comanda o Banco Central e por que isso entra na conversa

O presidente do Banco Central é Gabriel Galípolo, indicado por Lula e aprovado pelo Senado em outubro de 2024. É por isso que o assunto rende em ano de eleição. Mas as decisões de juros cabem ao Copom, colegiado formado pela diretoria do banco, que assina uma avaliação coletiva. O Banco Central tem autonomia formal desde 2021, com mandatos fixos para a diretoria, justamente para que a política monetária não dependa do governo da vez.

O mesmo tipo de aviso sobre fiscal aparece em atas de gestões anteriores do Banco Central, inclusive sob outros presidentes. A frase de setembro, portanto, pode ser lida como uma cobrança de harmonia entre quem gasta e quem controla a inflação, sem endereço único. Em ano de campanha, cada lado tende a ler o trecho a seu favor, e a ata do Copom não autoriza nenhuma das duas leituras além do que está escrito.

O que ainda falta saber

O Copom não tem reunião em outubro. A próxima decisão sobre a Selic está marcada para os dias 3 e 4 de novembro, e a ata correspondente sai na terça-feira seguinte. Será ali que se verá se o Comitê mantém o tom, se acrescenta algo sobre a política fiscal e se o ritmo de cortes continua. Até lá, o texto de setembro é o documento oficial em vigor, e a íntegra está no site do Banco Central.

Fonte: Banco Central do Brasil, Ata da 281ª Reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), 15 e 16 de setembro de 2026. Foto de destaque: Banco Central do Brasil (CC BY 2.0).


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