A dívida pública do Brasil deve fechar 2026 em 96,5% do Produto Interno Bruto, colocando o país na 22ª posição entre as economias mais endividadas do mundo, segundo o World Economic Outlook de abril do Fundo Monetário Internacional (FMI). A Bolívia também entra nessa lista, na 19ª posição, com uma dívida bruta equivalente a 102,7% do PIB.

Os números fazem parte do World Economic Outlook de abril de 2026, relatório semestral em que o FMI projeta a trajetória fiscal de mais de 190 países. O levantamento considera a dívida bruta do governo geral, métrica que soma as obrigações de todas as esferas administrativas de um país.

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Como a dívida pública do Brasil chegou a essa posição

A dívida bruta do governo geral brasileiro vem subindo de forma consistente nos últimos anos: era de 84,7% do PIB em 2023 e passou para 87,6% em 2024, segundo estimativas do próprio FMI. A projeção da instituição é que o indicador ultrapasse 100% do PIB em 2027 e chegue a 106,5% em 2031, caso a trajetória fiscal atual não mude.

Levantamentos voltados ao G20 mostram que a alta da dívida pública do Brasil no período recente é a segunda maior entre os países do grupo, atrás apenas da China. Uma característica reduz parte do risco cambial embutido nessa dívida: quase toda ela é emitida em moeda nacional. Dados do Banco Mundial indicam que cerca de 95% da carteira de dívida brasileira está em reais, o que isola o país de boa parte da volatilidade cambial que afeta nações com dívida em dólar ou outra moeda estrangeira.

O peso dos juros no orçamento

Segundo o próprio FMI, o Brasil destinou 8,28% do PIB ao pagamento de juros da dívida em 2024. Dados compilados pela plataforma Our World in Data, que reúne estatísticas de instituições como o FMI e o Banco Mundial, apontam que os juros consumiram 24,14% de todas as despesas do governo naquele ano. Ou seja, quase um quarto de tudo que a União gastou foi para pagar credores, e não para custear políticas públicas ou investimentos.

Esse é o ponto mais citado por economistas ao analisar a dívida pública do Brasil: o problema não é necessariamente o tamanho da dívida em si, mas o custo de rolá-la, historicamente elevado no Brasil por causa da taxa básica de juros (Selic), hoje entre as mais altas do mundo entre economias de porte comparável.

Quem lidera o ranking mundial

No topo do ranking de 2026 aparecem Japão, com dívida bruta de 204,4% do PIB; Cingapura, com 171,9%; e Sudão, com 169,1%. Ao todo, o FMI identifica 23 países com dívida acima de 100% do PIB, incluindo economias desenvolvidas como Itália, Grécia e Estados Unidos.

O relatório do FMI faz uma ressalva importante: uma relação dívida/PIB elevada não indica, por si só, risco de calote. A composição da dívida, o prazo médio de vencimento, o tamanho das reservas internacionais, o nível dos juros pagos e a capacidade de financiamento do país no mercado também entram na conta de sustentabilidade fiscal. Japão, por exemplo, tem a maior dívida proporcional do mundo há décadas e financia boa parte dela internamente, com juros historicamente baixos.

Lula e o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, discutem a dívida pública do Brasil e da região em encontro no Panamá
Lula e o presidente boliviano, Rodrigo Paz, no Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe (CAF), em janeiro de 2026, no Panamá. Foto: Reprodução/Instagram @danuzioneto

Repercussão regional

A presença simultânea de Brasil e Bolívia entre as 30 economias mais endividadas do mundo reacende o debate sobre disciplina fiscal na América Latina, tema que também esteve na pauta do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, promovido pela CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe) em janeiro deste ano no Panamá, quando o presidente Lula se reuniu com o presidente boliviano, Rodrigo Paz, para tratar de temas econômicos bilaterais entre os dois países.

Para o governo brasileiro, o desafio segue sendo equilibrar a necessidade de ajuste fiscal com a manutenção de investimentos públicos, num cenário em que o próprio FMI projeta déficit primário para o Brasil ao menos até 2026 e em que o Senado já apontou restrição de R$ 105 bilhões no orçamento federal deste ano.


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