Por que as pesquisas erraram: 8 de 10 institutos subestimaram Flávio
Gerp e Futura quase acertaram, a CNT/MDA errou por 7,57 pontos. Voto de última hora, abstenção e eleitor que não responde são as hipóteses, e nenhuma está provada.

Oito de dez institutos mediram a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) menor do que a urna entregou, e foi sempre para o mesmo lado. Por que as pesquisas erraram no primeiro turno é a pergunta que ficou aberta depois de 4 de outubro, e a resposta tem mais de uma causa. A conta importa em Patrocínio (MG) e no país inteiro, porque o segundo turno é em 25 de outubro e o eleitor vai ler uma nova rodada de números.
A urna deu Flávio com 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) com 45,16%, uma diferença de 1,87 ponto, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Folha reuniu o que institutos e especialistas apontam para explicar por que as pesquisas erraram e separa o que já é fato do que ainda é hipótese.
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Dez institutos fizeram a última pesquisa nacional antes do primeiro turno. Sete apontavam Lula à frente e três, Flávio. Na comparação da Folha, que subtrai a vantagem medida da vantagem real de 1,87 ponto, a CNT/MDA errou por 7,57 pontos, o BTG/Nexus e a Real Time Big Data por 6,87, o Datafolha por 4,87 e a AtlasIntel por 4,77. Gerp (0,13) e Futura (0,33) ficaram quase em cima do resultado. O ranking completo está na reportagem sobre as pesquisas e a urna.

O desvio não foi aleatório. Se as pesquisas erraram por mero acaso, haveria institutos errando para cada lado em proporção parecida. Aqui, oito ficaram abaixo da vantagem real de Flávio e só dois ficaram um pouco acima. Essa direção comum é o que leva especialistas a procurar causas que atinjam vários métodos ao mesmo tempo, e não só falhas isoladas. A Folha já tinha mostrado esse padrão no levantamento sobre o erro das pesquisas logo na segunda-feira da apuração.
Por que as pesquisas erraram: o voto de última hora
A primeira explicação é o calendário. Uma pesquisa divulgada na véspera pode ter começado a ouvir eleitores dias antes, quando parte deles ainda não tinha decidido. O estatístico Raphael Nishimura, pesquisador da Universidade de Michigan, lembra que pesquisa é retrato do momento e não previsão. Segundo a Quaest, cerca de 10% do eleitorado só define o voto para presidente no dia da eleição, e esse grupo dificilmente aparece em levantamento fechado dias antes.
Há ainda o voto útil, quando o eleitor deixa a primeira opção e escolhe quem tem mais chance de barrar o adversário. As pesquisas podem até estimular essa troca, porque o eleitor lê os números e muda a decisão. Esse movimento, concentrado na reta final, é uma das hipóteses para explicar a alta de Flávio entre o último levantamento e a urna.
Alpha for MenAbstenção e o eleitor que não responde
A abstenção também entra na conta. No primeiro turno, 33.469.244 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 21,08% do eleitorado, acima dos 20,95% de 2022, como a Folha mostrou na reportagem sobre a abstenção em Patrocínio. As pesquisas perguntam em quem a pessoa pretende votar, e não se ela vai comparecer, e estudos metodológicos indicam que o entrevistado tende a exagerar a própria disposição de ir às urnas.
Segundo Nishimura e o professor Pablo Ortellado, da Universidade de São Paulo (USP), quem mais se abstém é o eleitor de renda e escolaridade menores, grupo em que Lula é mais forte. Se esse eleitor responde à pesquisa e depois não vai votar, a vantagem de Lula medida fica inflada. A Quaest tenta corrigir isso com um modelo de eleitor provável, que cruza a intenção declarada com o histórico de comparecimento de cada grupo, e mesmo assim ficou fora da margem de erro no caso de Flávio.
Voto tímido e desconfiança: hipóteses, não conclusões
O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, disse na segunda-feira (5) que uma análise preliminar aponta sub-representação de eleitores que trocaram de lado em relação ao voto anterior, principalmente em cidades pequenas e entre os de menor renda e escolaridade. Segundo ele, a troca teria sido silenciosa e sem entusiasmo, o que dificulta captar em qualquer metodologia. Ortellado fala em “voto tímido” de eleitores de direita que desconfiam dos institutos e em um “antipetismo de chegada”, formado na última hora, e trata as duas ideias como hipóteses a testar.
Nishimura é mais cauteloso e associa a explicação a métodos específicos de recrutamento, como anúncios em redes sociais, que atraem quem se interessa mais por política. Ele aponta também um ciclo difícil de quebrar: quem desconfia das pesquisas não responde, e quem não responde fica sub-representado. Nenhuma dessas teses foi comprovada, e não há estudo que meça quanto de cada fator explica por que as pesquisas erraram.
Não é a primeira vez
Em 2018, o Datafolha da véspera dava 40% dos votos válidos a Jair Bolsonaro, que teve 46,03% na urna, seis pontos a mais. Em 2022, o mesmo instituto indicava 36% para ele no primeiro turno, e a urna deu 43,20%, uma diferença de 7,2 pontos. Em 2026, o Datafolha apontou 42% para Flávio contra 47,03% da urna, 5,03 pontos a menos. Nas três eleições as pesquisas erraram para o mesmo lado, e é isso que alimenta a suspeita de uma subrepresentação do voto à direita, apontada por Ortellado já a partir de 2018.

A defesa dos institutos e a CPI
A Palver, que recrutou entrevistados por anúncios em redes sociais e chegou a colocar Flávio numericamente à frente (47% a 43%), divulgou nota rejeitando a ideia de que as pesquisas erraram por falha dos institutos. Para a empresa, “intenção de voto não é voto”, e cada instituto fotografa o eleitorado por um ângulo, com método próprio. A Palver não divulga votos válidos porque, segundo a nota, isso exigiria projeção sobre o comportamento do eleitor.
O debate já chegou ao Congresso. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) escreveu na rede X, na segunda-feira (5), que fará uma CPI dos institutos de pesquisa no ano que vem. Em Minas, Flávio terminou cinco pontos à frente de Lula, com 48,24% dos votos válidos contra 43,33%. Uma CPI é uma investigação do Legislativo, e não há decisão sobre sua criação.
O que muda no segundo turno
Nishimura defende olhar o conjunto das pesquisas e não um levantamento isolado, e sugere que os institutos usem o voto do primeiro turno para ajustar a amostra do segundo, já que as duas escolhas são muito ligadas. A rodada mais recente, a pesquisa Quaest de 10 a 13 de outubro, mostra Flávio com 46% e Lula com 44%, empate técnico. A Folha reúne as demais no quadro em que Flávio lidera 7 de 8 levantamentos.
Toda pesquisa eleitoral precisa ser registrada na Justiça Eleitoral antes da divulgação, e o número de registro pode ser conferido no sistema de pesquisas eleitorais do TSE. Como as pesquisas erraram no primeiro turno, o leitor deve conferir a data de campo, a margem de erro e a diferença entre votos totais e votos válidos, a mesma régua usada nesta reportagem. Em Patrocínio, a urna deu Flávio 61,18% e Lula 30,44%, como mostrou a vantagem de Flávio, 10 pontos no DF e 31 em Patrocínio, e pesquisa nacional não mede cidade.
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