O presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou, durante um discurso no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), uma frase antiga da economista Maria da Conceição Tavares sobre o PT. Ao relembrar críticas feitas ao partido ao longo dos anos, Lula repetiu a expressão: “O PT é uma merda? É. Mas é minha merda, não é a sua. Então, só eu posso falar dela”. A fala, direta e sem filtro, rodou rápido nas redes sociais e reacendeu o debate sobre o tom que Lula costuma usar em discursos públicos a um ano das eleições de 2026.

O contexto da fala
Nas imagens do discurso, Lula recorre à frase para justificar por que apenas ele, como fundador e figura histórica do partido, teria legitimidade para criticar o PT em público. A referência a Maria da Conceição Tavares não é nova: a economista, uma das intelectuais mais influentes do desenvolvimentismo brasileiro e ligada às origens do partido, teria cunhado a expressão em conversas privadas décadas atrás, num momento de crítica interna às contradições do PT.

Ao trazer a frase de volta ao debate público, Lula tentou usar humor e informalidade para reforçar um ponto que já apareceu outras vezes em seus discursos: a ideia de que o PT nasceu de dentro do movimento sindical e da classe trabalhadora, e que as falhas do partido, por mais reais que sejam, fazem parte de uma trajetória que ele reivindica como própria.
Quem foi Maria da Conceição Tavares
Maria da Conceição Tavares (1930-2020) foi uma das economistas mais respeitadas do Brasil, com passagens pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Deputada federal por dois mandatos, ela ficou conhecida por defender um modelo de desenvolvimento nacional com forte presença do Estado e por críticas duras a políticas de austeridade. Sua proximidade histórica com setores da esquerda brasileira, incluindo o PT, fez da frase atribuída a ela um símbolo de como até os quadros mais próximos do partido reconheciam suas contradições internas sem deixar de defender sua origem popular.
Repercussão nas redes e na cobertura política
O vídeo com o trecho do discurso passou de 2,4 mil curtidas e 460 comentários horas depois de publicado, com a caixa de comentários dividida entre quem achou a fala engraçada e quem criticou o vocabulário usado pelo presidente em um evento oficial. Para apoiadores, a informalidade reforça a imagem de proximidade que Lula cultiva desde o início da carreira política, num momento em que pesquisas recentes mostram o presidente em situação de empate técnico com adversários de olho em 2026. Para opositores, o episódio virou motivo de piada e crítica ao que chamam de despreparo em falas institucionais.
Há também quem questione o cuidado que figuras públicas deveriam ter ao repetir, diante de câmeras, frases que nasceram em conversas privadas e de bastidor partidário.
O evento no Inpe
A fala ocorreu durante um evento oficial do governo federal no Inpe, em São José dos Campos, cidade que concentra parte importante da estrutura de pesquisa espacial e tecnológica do país. O discurso tratava de temas ligados a ciência, tecnologia e soberania nacional antes de Lula desviar o tom para a crítica política, um recurso recorrente em seus pronunciamentos públicos, que costumam misturar pauta de governo com avaliações sobre o cenário partidário.
Por que a frase pegou
Frases assim tendem a viralizar porque fogem do script tradicional da política institucional. Ao citar Maria da Conceição Tavares, Lula não apenas defendeu o PT das críticas externas, como também sinalizou que reconhece os problemas do partido, mas reivindica para si o direito de ser o único a apontá-los publicamente. É um argumento de pertencimento: quem ajudou a construir a legenda teria mais legitimidade para criticá-la do que adversários de fora.
Até o momento, nem o Palácio do Planalto nem a direção nacional do PT comentaram oficialmente a repercussão da fala.
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