Hamas elogia Lula por discurso que condenou o grupo na ONU
Khaled Qaddoumi, representante do grupo no Irã, disse ao Metrópoles que o presidente está do "lado certo da história". Relação com Israel segue rebaixada desde 2025.

Quatro dias depois do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Assembleia Geral da ONU, um dirigente do Hamas elogia Lula pela defesa dos palestinos. O agradecimento passa ao largo de uma frase do mesmo trecho do discurso, em que o presidente disse que civis israelenses “pagaram o preço” dos “atos terroristas do Hamas”.
A manifestação é de Khaled Qaddoumi, representante político do grupo no Irã. Ele enviou a declaração ao portal Metrópoles, que a publicou na manhã deste sábado (26). Até a publicação desta reportagem, a Folha de Patrocínio não localizou resposta do Palácio do Planalto nem do Itamaraty.
Por que o Hamas elogia Lula
Qaddoumi classificou como “positiva” a posição do presidente sobre a guerra na Faixa de Gaza e disse que Lula escolheu estar do “lado certo da história”. Segundo o Metrópoles, ele também afirmou que “Netanyahu e outros criminosos de guerra são declarados uma ameaça à humanidade e a principal causa da instabilidade e da falta de segurança em nível global”.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.O representante do grupo fez ainda um elogio pessoal. “Eu, pessoalmente, considero o presidente Lula, do Brasil, como alguém que está em harmonia consigo mesmo, tanto como ser humano quanto como defensor dos direitos dos palestinos”, declarou.
O que Lula disse sobre Gaza
O discurso foi na terça-feira (22), em Nova York, na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral. Por tradição, o Brasil é o primeiro país a falar. Lula tratou de vários assuntos, entre eles o combate à corrupção, o Pix, as apostas on-line, a inteligência artificial e o clima.
O trecho sobre o Oriente Médio começou com uma lembrança de Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, que o presidente chamou de estadistas “derrotados pelo ódio”. Em seguida, Lula afirmou que “gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”.
Logo depois veio a crítica ao Hamas: “Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”. O presidente disse também que perseguir o Tribunal Penal Internacional estimula a impunidade, defendeu a relatora especial da ONU Francesca Albanese e afirmou que os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, que ele considera essencial para israelenses e palestinos viverem em segurança.

A guerra e o que ficou de fora do agradecimento
Nos trechos divulgados da mensagem em que o Hamas elogia Lula, não há referência ao ataque de 7 de outubro de 2023, que deu início à guerra. Naquele dia, homens do grupo invadiram o sul de Israel. Cerca de 1.200 pessoas morreram e aproximadamente 250 foram levadas como reféns para Gaza, segundo o governo israelense. A ofensiva militar de Israel que veio em seguida deixou dezenas de milhares de mortos no território palestino, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional expediu mandado de prisão contra Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza. O governo israelense rejeita as acusações e não reconhece a jurisdição da corte.
Lula chamou de terrorista o ataque de outubro de 2023 desde o primeiro dia. O Brasil, porém, não classifica o Hamas como organização terrorista, porque segue apenas as listas de sanções do Conselho de Segurança da ONU, que não incluem o grupo. Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido adotam essa classificação.
Relação com Israel está rebaixada desde 2025
Os atritos entre Brasil e Israel vêm desde o começo da guerra. Em fevereiro de 2024, Lula comparou a ofensiva em Gaza ao Holocausto, e o governo israelense o declarou persona non grata. O embaixador brasileiro em Tel Aviv, Frederico Meyer, foi repreendido em público no Museu do Holocausto, em Jerusalém, e depois chamado de volta ao Brasil.
Em agosto de 2025, Israel anunciou o rebaixamento das relações diplomáticas depois que o Itamaraty deixou sem resposta o pedido de aprovação do diplomata Gali Dagan como novo embaixador em Brasília, segundo o Correio Braziliense. O governo israelense informou na época que conduziria a relação em nível mais baixo e que não mandaria outro embaixador. No mesmo mês, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, chamou Lula de “antissemita declarado” e “apoiador do Hamas”. O Itamaraty respondeu que Katz voltou a proferir “ofensas, inverdades e grosserias inaceitáveis”.
O discurso desta semana seguiu a linha que o presidente adota desde 2023. Lula acusa o governo de Benjamin Netanyahu de genocídio, condena o ataque do Hamas e defende um Estado palestino ao lado de Israel. Quando o Hamas elogia Lula, fala apenas da primeira parte.
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