Carlão e Maria Clara Marra usaram as redes sociais nos últimos dias para reagir à reportagem da Folha sobre a apreensão de R$ 20 mil em espécie dentro de um veículo em Patrocínio. Enquanto o ex-vereador publicou um vídeo indignado negando qualquer irregularidade, a deputada estadual classificou a cobertura de “matéria caluniosa” nos comentários de um post sobre o caso. O boletim de ocorrência da Polícia Militar, porém, registra uma versão dos fatos que partiu do próprio Carlão no momento da abordagem. É esse ponto que abre a contradição.
O vídeo de Carlão nas redes sociais
Carlos Alberto Silva, o Carlão, ex-vereador de Patrocínio, publicou em seu perfil pessoal um vídeo gravado na rua, ao lado de um veículo branco. No material, ele aparece gesticulando, em tom indignado, diante da repercussão do caso. A publicação passou de 70 curtidas e reuniu dezenas de comentários de apoio de seguidores, que chamaram a reportagem de “invenção” e classificaram Carlão como vítima de perseguição política.
Chama atenção um detalhe visual: o carro que aparece atrás dele no vídeo traz, no vidro traseiro, um adesivo de campanha com o número 2250, o mesmo número de urna que consta no material apreendido pela polícia. A placa do veículo (OJI-0D18) confere com a do automóvel descrito no boletim de ocorrência. Entre os comentários do próprio vídeo, um seguidor perguntou diretamente: “Só uma pergunta, então é mentira que foi feita a apreensão de dinheiro?”. A pergunta ficou sem resposta pública de Carlão até o fechamento desta matéria.

O comentário de Maria Clara Marra
Em outro post sobre o caso, publicado pelo portal @avozdopovopatrocinio, a deputada estadual Maria Clara Marra comentou: “MATÉRIA CALUNIOSA E ACUSAÇÃO GRAVÍSSIMA! Quem compra voto certamente comprou esse site!”, seguido de um emoji de risada. O comentário recebeu curtidas de apoiadores, entre eles o também comentarista Alcides Dornelas, que classificou o episódio como “a política do mal”.
O próprio portal que recebeu o comentário publicou, horas depois, um esclarecimento nos stories: “É importante esclarecer que a menção aos nomes dos candidatos não partiu do portal, mas do próprio ex-vereador, conforme consta no registro da ocorrência. O portal apenas divulgou as informações registradas pelas autoridades e deixou aberto espaço para que os candidatos citados apresentassem seus esclarecimentos sobre o caso.” E completou: “Invés disto a deputada preferiu fazer piada.”

O que diz o boletim de ocorrência
Segundo o registro da Polícia Militar (REDS nº 2026-039496398-001), a guarnição abordou, em 26 de agosto, um Ford EcoSport de placa OJI-0D18 estacionado com as portas abertas na Rua Itália, bairro Serra Negra. Três homens foram identificados: Carlos Alberto Silva, o Carlão, ex-vereador; Vitor Silva Coelho, apresentado como assessor parlamentar; e um terceiro homem, já conhecido no meio policial. Os dois últimos disseram aos policiais que trabalhavam para Carlão.
No porta-luvas do veículo, os policiais encontraram R$ 20 mil em notas de R$ 100, e no porta-malas, caixas com “santinhos” de campanha combinados dos candidatos Lafayete Andrada (número 2250, para deputado federal) e Maria Clara Marra (número 45300, para deputada estadual). De acordo com o histórico da ocorrência, questionado sobre a origem do dinheiro, Carlão “demonstrou nervosismo e apresentou contradições em suas explicações”, até informar aos policiais que teria recebido o valor em Belo Horizonte, das mãos de uma mulher identificada como Sara, e que o dinheiro seria destinado às campanhas de Lafayete Andrada e de Maria Clara.

A reação de Carlão e Maria Clara diante do boletim de ocorrência
É nesse ponto que a reação de Carlão e Maria Clara esbarra no próprio documento oficial. Nenhum dos nomes citados na reportagem da Folha foi apontado por terceiros ou “inventado” pelo site: segundo consta no boletim, foi o próprio Carlão quem relatou aos policiais, no momento da abordagem, que o dinheiro seria destinado às campanhas dos dois candidatos. Chamar de “calúnia” ou “mentira” um conteúdo que reproduz um documento redigido pela própria Polícia Militar, com base no relato do abordado, é diferente de contestar os fatos narrados nele.
Vale reforçar: o boletim de ocorrência registra o relato de um dos abordados à polícia, não uma confirmação de irregularidade por parte de Maria Clara Marra ou de Lafayete Andrada. Não há, até o momento, denúncia formal do Ministério Público nem qualquer condenação relacionada ao caso, e a resposta pública de Carlão e Maria Clara ao caso segue sendo a negação genérica, sem contestar nenhum dado específico do boletim. A Folha não afirma que os dois candidatos tenham participação comprovada nos fatos descritos.
O que diz a legislação eleitoral
A captação ilícita de sufrágio, mais conhecida como compra de votos, é crime previsto no artigo 299 do Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965), com pena de reclusão de até quatro anos, além de multa. A apuração do caso, segundo o próprio boletim, segue em aberto na 9ª Delegacia de Polícia Civil de Patrocínio.
Direito de resposta
Como já registrado na reportagem original sobre o caso, a Folha não obteve contato direto de Carlos Alberto Silva, Maria Clara Marra ou Lafayete Andrada até a publicação desta matéria: apenas as manifestações públicas nas redes sociais, aqui reproduzidas na íntegra e com atribuição clara. O espaço para esclarecimentos adicionais de Carlão e Maria Clara continua aberto, e qualquer resposta enviada será publicada na íntegra.
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