A máquina é uma Pfaff de ferro, preta, dessas que atravessam gerações. Quem senta diante dela há 63 anos é João Chagas, 75, o alfaiate em Patrocínio que continua abrindo a oficina todos os dias e trabalhando cerca de dez horas por jornada.
Ele começou aos 19 anos e nunca parou. A reportagem sobre a rotina dele saiu no Dia do Alfaiate, celebrado em 7 de setembro.
Sessenta e três anos na mesma profissão
João Chagas diz que trabalha “com carinho e amor” pelo ofício. A frase resume uma permanência incomum: seis décadas na mesma atividade, numa profissão que encolheu em todo o país à medida que a indústria de confecção cresceu.
Ele reconhece essa mudança sem lamentar o essencial. O que defende é o diferencial do trabalho sob medida, com acabamento feito à mão, que segundo ele oferece cuidado e qualidade que a produção industrial não alcança.

O que faz hoje um alfaiate em Patrocínio
A rotina mudou de conteúdo. Hoje o trabalho de João Chagas é quase todo de reforma: ternos, calças, camisas e peças femininas que chegam para ajuste, conserto e recuperação.
É o que sobrou de mercado para o alfaiate em Patrocínio depois que o terno feito do zero deixou de ser regra. A peça pronta vem da loja, e a alfaiataria entra depois, para fazer caber.
A recompensa que ele aponta é simples e não mudou em 63 anos: ver o cliente satisfeito com uma peça bem acabada.
Ninguém quer aprender
O ponto que João Chagas lamenta não é a concorrência da indústria. É a falta de gente interessada em aprender o ofício.
Alfaiataria se aprende no banco ao lado do mestre, observando e repetindo, num tempo que não cabe em curso rápido. Quando não aparece aprendiz, o conhecimento acumulado por seis décadas fica sem para onde ir, e a oficina fecha junto com quem a mantinha.
Por que existe um Dia do Alfaiate
A data é 7 de setembro e faz referência a Nossa Senhora da Boa Viagem e a tradição da corporação de ofício dos alfaiates, uma das mais antigas organizadas no Brasil. Alfaiate foi por muito tempo profissão de rua principal em cidade do interior, com o ponto perto da praça e clientela fixa que voltava a cada estação.
O Ministério do Trabalho classifica a ocupação na Classificação Brasileira de Ocupações, no grupo de alfaiates e costureiros de roupas sob medida. O detalhamento das atribuições da ocupação está no sistema oficial da CBO.
Uma profissão que virou trabalho de reparo
A trajetória da alfaiataria acompanha a mudança do consumo de roupa. Peça sob medida deu lugar à confecção em série, e o custo por peça caiu a ponto de tornar mais barato comprar do que mandar fazer.
O que segurou a profissão foi o ajuste. Corpo não é padrão, e roupa de prateleira raramente serve sem intervenção. É esse serviço que mantém a oficina de João Chagas aberta dez horas por dia aos 75 anos.
A tendência recente de consumo consciente e reparo de roupa, no lugar do descarte, devolve alguma procura a esse tipo de trabalho, embora sem recompor o mercado de outrora.
Há ainda a demanda que nunca sumiu: formatura, casamento e posse pedem peça que caia bem, e é aí que o alfaiate em Patrocínio continua sendo procurado. O terno alugado quase sempre passa pela oficina antes de ser usado.
O que a reportagem não apurou
A Folha não obteve o endereço da alfaiataria de João Chagas, o horário de funcionamento nem informação sobre quantos profissionais como ele, alfaiate em Patrocínio de carreira inteira, ainda atuam na cidade. A entrevista original foi publicada pela Rádio Difusora FM 95.3.
Outras histórias da cidade ficam reunidas na editoria Cidade da Folha de Patrocínio.
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