Manter mata em pé e cuidar do solo agora vale dinheiro no Cerrado Mineiro. A Federação dos Cafeicultores do Cerrado criou uma categoria de café regenerativo dentro do 14º Prêmio Região do Cerrado Mineiro, com R$ 40 mil divididos entre os três primeiros colocados. A documentação tem que estar entregue até 16 de outubro.
A categoria se chama Prêmio Futuro Regenerativo para o Café e é a primeira do prêmio que não julga a bebida. Em vez de provar o café na xícara, a comissão vai olhar a propriedade inteira: o que o produtor faz com o solo, com a água, com a mata, com as pragas e com quem trabalha ali. O primeiro colocado leva R$ 30 mil, o segundo fica com R$ 7 mil e o terceiro, com R$ 3 mil.
O que o prêmio de café regenerativo vai medir
A metodologia saiu dos pilares da Plataforma Global do Café e foi adaptada à realidade produtiva do Cerrado Mineiro. São sete eixos de avaliação, e em cada um a fazenda precisa apresentar resultado com evidência técnica por trás:
- solo e adubação;
- matéria orgânica;
- bioinsumos;
- água e física do solo;
- conservação ambiental e biodiversidade;
- manejo integrado de pragas e doenças;
- gestão, pessoas e sustentabilidade econômica.
A primeira fase é um formulário digital que gera um score de sustentabilidade da fazenda. Entre 17 e 31 de outubro, uma comissão técnica escolhe cinco finalistas, e essas cinco propriedades recebem auditoria presencial: inspeção na lavoura, conferência de documento e entrevista. Quem conduz o processo é uma empresa auditora independente especializada em cafeicultura e sustentabilidade.

“Continuamos reconhecendo a excelência dos cafés, mas passamos também a valorizar de forma mais explícita as iniciativas que contribuem para o futuro da produção, da paisagem e das comunidades do Cerrado Mineiro”, disse Juliano Tarabal, diretor executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, ao apresentar a categoria. O prêmio tem apoio do Sebrae Minas e da Fundaccer.
Quem pode concorrer e até quando
Para disputar o troféu de café regenerativo, o produtor precisa cumprir três condições. Estar vinculado a uma das cooperativas ou associações que formam a Região do Cerrado Mineiro, ter pelo menos uma certificação na propriedade e já ter mandado uma amostra para alguma das categorias de qualidade da 14ª edição do prêmio principal.
Essa terceira exigência é a que aperta o calendário. As inscrições das amostras terminam em 23 de setembro, às 17h, e passam pelas cooperativas e associações da região: Carmocer, Carpec, Coocacer Araguari, Coopadap, Expocacer, monteCCer, ACA, Acarpa, Amoca, Appcer, Assocafé, Assogotardo e GRE Café, de Araxá. Quem perder essa data fica de fora da disputa regenerativa também. O regulamento completo está no site oficial do prêmio.
As categorias tradicionais seguem de pé: Café Natural, Cereja Descascado, Fermentado e Doce Cerrado Mineiro, esta última avaliada por júri que usa o protocolo Coffee Value Assessment, da Specialty Coffee Association. Continuam valendo o Troféu Elas no Cerrado, que destaca produtoras, e o Troféu Escola de Atitude, voltado a instituições de ensino.
Por que Patrocínio está no centro dessa conta
Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil. Foram 64.225 toneladas em 2024, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. A cidade também sedia a Expocacer, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, fundada em 1993 e uma das que recebem inscrição para o prêmio.
A Expocacer já vinha andando na direção do café regenerativo antes de a categoria existir. A cooperativa tem 19,4 mil hectares certificados em cafeicultura regenerativa e 29 mil hectares conduzidos sob manejo regenerativo, e foi a primeira do mundo a conquistar a certificação Regenagri, concedida pela Control Union depois de auditoria independente. Numa disputa que vai medir prática de campo, o produtor daqui chega com parte da lição de casa feita.
A Região do Cerrado Mineiro é a primeira Denominação de Origem para café do Brasil. São 55 municípios, mais de 4.500 produtores diretos e cerca de 250 mil hectares plantados, sob a governança de seis cooperativas.
O prazo chega junto com o fim da colheita
O convite para inscrever café regenerativo cai num momento cheio para quem está na lavoura. O relatório semanal da Expocacer registrou a colheita do arábica em 96% do previsto até 4 de setembro, com 83% do volume já beneficiado. As chuvas de agosto e setembro abriram a florada na maior parte das áreas e, ao mesmo tempo, derrubaram cerca de 30% da produção no chão, com dois terços desse volume já recolhidos.
Ou seja: a semana de decidir se inscreve a amostra é a mesma em que o produtor está terminando de varrer o café do chão e cuidando da flor que vira a safra de 2027. A Folha de Patrocínio acompanhou os dois lados desse momento, o avanço da colheita do café do Cerrado Mineiro e o risco do El Niño sobre a florada.
O que vem depois de outubro
A premiação regional está marcada para 19 de novembro, no mesmo dia do leilão presencial dos melhores lotes. O leilão on-line vai de 23 a 25 de novembro. Os nove lotes mais bem colocados nas categorias Natural, Cereja Descascado e Fermentado entram no leilão, com uma saca cada.
Parte do que for arrecadado no leilão solidário vai para o Troféu Escola de Atitude, que premia escolas da própria região. Para o produtor, o cálculo é mais direto: quem já mudou o manejo tem onde registrar isso com auditoria, e quem ainda não mudou passa a ter um valor em reais colado na conversa sobre café regenerativo.
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