A dívida pública brasileira chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, o equivalente a 81,9% de tudo o que o país produz em um ano. O número foi divulgado pelo Banco Central e é o mais alto desde 2021, quando a pandemia de Covid-19 empurrou os gastos do governo para o topo da série histórica.
O indicador em questão é a Dívida Bruta do Governo Geral, que soma o endividamento da União, dos estados e dos municípios. Ele é acompanhado de perto por investidores porque mostra o tamanho do compromisso do setor público em relação à capacidade da economia de gerar riqueza.
Como a dívida pública chegou a esse patamar
O recorde da série continua sendo outubro de 2020, quando o indicador bateu 87,6% do PIB no auge dos gastos emergenciais da pandemia. Depois disso o percentual recuou, voltou a subir e agora se aproxima novamente daquele nível, mas sem uma emergência sanitária no caminho.
Em dezembro de 2022, ao fim do governo anterior, a relação estava em 71,7% do PIB. A diferença para os 81,9% de junho é de 10,2 pontos percentuais acumulados ao longo do atual mandato.
Os números de junho ajudam a entender o movimento. O setor público registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões no mês, alta de 17,4% na comparação com os R$ 47,1 bilhões de junho de 2025. Déficit primário é o resultado das contas antes de contabilizar os juros.

O peso dos juros na conta
É nos juros que está a parte mais pesada. Só em junho, os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 110,7 bilhões, contra R$ 61 bilhões no mesmo mês do ano anterior. A conta de juros praticamente dobrou em doze meses.
Esse é um ponto que costuma se perder no debate. Boa parte do crescimento da dívida pública não vem de gasto novo, e sim do custo de rolar o estoque que já existe, num período de taxa básica elevada. Quanto mais alta a Selic, mais caro fica cada mês de dívida, independentemente do que o governo decida gastar ou cortar.
A Dívida Líquida do Setor Público, que desconta os ativos que o governo tem em caixa, ficou em 68,5% do PIB, ou cerca de R$ 9 trilhões.
O que projeta a instituição do Senado
A Instituição Fiscal Independente, órgão técnico vinculado ao Senado Federal, tratou do tema no Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 113, divulgado em junho. A projeção do órgão é que a dívida bruta encerre 2026 em 82,5% do PIB.
O cenário de médio prazo preocupa mais. Mantidas as regras fiscais e orçamentárias atuais, junto com a expansão das despesas obrigatórias, a IFI calcula que o indicador ultrapasse 100% do PIB em 2032 e chegue a 115% em 2036. O relatório classifica esse patamar como extremamente elevado para uma economia emergente.
O órgão também estimou o esforço necessário para estabilizar a relação entre dívida e PIB: seria preciso que o país gerasse superávit primário de 2,1% do PIB por ano. Para efeito de comparação, o Brasil vem de uma sequência de anos com resultado primário negativo.
O que isso significa na prática
Dívida alta em si não quebra um país, mas encarece tudo. Quanto maior a percepção de risco, mais juros o governo precisa pagar para vender seus títulos, e essa taxa serve de piso para o crédito da economia inteira, do financiamento imobiliário ao capital de giro de uma padaria.
Também aperta o orçamento. Cada real que vai para o pagamento de juros é um real que não vai para saúde, educação ou investimento. É por isso que o tamanho da dívida pública aparece com frequência no debate eleitoral deste ano, tratado por candidatos de campos opostos como evidência de teses bem diferentes.
O efeito prático desse cenário sobre a vida em cidades do interior foi tratado em reportagem anterior desta Folha, que detalhou como o endividamento federal chega ao orçamento de Patrocínio e encarece o crédito para quem vive aqui. Esta reportagem se concentra no que veio depois: a abertura da conta de juros e as projeções de médio prazo do órgão técnico do Senado.
Os dados completos podem ser consultados nas estatísticas fiscais do Banco Central, atualizadas mensalmente. Outras reportagens de economia e política nacional estão na editoria Nacional da Folha de Patrocínio.
Foto de abertura: reprodução.
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