Você confia nas urnas? O que Lula e Flávio já disseram sobre elas
Flávio liderou o 1º turno nas urnas sobre as quais já disse ter "direito de desconfiar". Lula garante que, com fraude, não seria presidente. Veja o que dizem os dois e o que mostram os fatos.

Você confia nas urnas? A pergunta pesa no segundo turno de 25 de outubro por um detalhe que quase ninguém esperava: Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT), uma diferença de 2.224.965 votos. Foi nas mesmas urnas eletrônicas que o senador já disse ter “o direito de desconfiar”.
Lula, que perdeu a dianteira que as pesquisas lhe davam, faz o discurso inverso: diz que o aparelho é a prova de que um metalúrgico podia chegar à Presidência. Os dois têm declarações antigas, recuos recentes e uma plateia dividida entre quem confia nas urnas e quem não confia. Abaixo, o que cada um falou e o que dizem os órgãos que fiscalizam o voto e as pesquisas.
O que Flávio Bolsonaro já disse sobre as urnas
O histórico de declarações do senador é longo e tem idas e vindas. Em 2014, ainda deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na Assembleia Legislativa que o que unia os críticos era “a desconfiança da urna eletrônica”, ligando o equipamento à empresa venezuelana Smartmatic. Em setembro de 2018, escreveu numa rede social que seria impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso. Cinco dias antes do primeiro turno daquele ano, disse em entrevista: “Nós temos o direito de desconfiar da urna eletrônica”.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.Em agosto de 2021, depois de a Câmara rejeitar o voto impresso, ele escreveu que, sem novas medidas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o país teria “eleições sob suspeita”. Em setembro de 2022, quando o TSE anunciou o teste de integridade com biometria, deu uma declaração mais branda: com as medidas adotadas, a possibilidade de fraude era “quase zero”. Mesmo assim, manteve a defesa de um registro impresso para dar segurança total ao eleitor.
A mais recente veio em 21 de julho de 2026, num encontro com embaixadores de cerca de 50 países. Flávio disse que muitas das máquinas usadas nas eleições brasileiras “têm a mesma origem” da empresa venezuelana. No dia seguinte, uma nota assinada por ele e pela coordenação da pré-campanha afirmou que ele tem “integral confiança” no sistema e que não estava questionando a votação. Depois, em entrevista a uma emissora de TV, admitiu ter se expressado mal sobre a Smartmatic. O TSE sustenta que a empresa nunca forneceu urnas nem programas para o equipamento brasileiro e que prestou apenas serviços de conexão de dados e voz.
O presidente do PT, Edinho Silva, reagiu na época acusando Flávio de repetir a “cultura golpista” atribuída ao pai, Jair Bolsonaro. Flávio nega ter questionado o sistema de votação.
O que Lula diz sobre as urnas
Em entrevista a um podcast, em julho, Lula respondeu à fala de Flávio com uma frase que repercutiu na campanha: se a urna eletrônica permitisse fraude, ele não seria presidente da República. Também afirmou que a elite política jamais deixaria um metalúrgico ganhar a eleição, e pediu um “pacto com a verdade” no debate público.
Alpha for MenOs boatos sobre urnas, porém, não poupam nenhum dos lados. Em 2024, um trecho de entrevista em que Lula cobrava a divulgação das atas eleitorais da Venezuela foi editado para sugerir que ele desconfiava da urna brasileira. A Secretaria de Comunicação do governo disse que a fala foi tirada do contexto, e agências de checagem classificaram a versão como falsa. Prints de telas de apuração de TV, mostrando a parcial de um único estado num dado momento da contagem, também já circularam como se provassem votos trocados de candidato, e foram desmentidos da mesma forma.

O que dizem o TSE, a Polícia Federal e as auditorias
Segundo o Senado Verifica, a Justiça Eleitoral nunca registrou fraude comprovada no sistema em 30 anos de uso, desde 1996. O secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Júlio Valente, também afirma que não há caso comprovado desde 1996. A Polícia Federal disse que, ao investigar denúncias, encontrou um único caso, de 2012, que classificou como tentativa de estelionato.
O processo passa por mais de 40 etapas de auditoria antes, durante e depois da votação. A urna não se conecta à internet, ao Wi-Fi nem ao Bluetooth, o que impede ataques remotos por essas vias. Os programas recebem assinatura digital e lacração, e o código-fonte fica aberto à inspeção de partidos e entidades fiscalizadoras. Ao fim da votação, cada urna imprime o boletim com o resultado da seção, que pode ser comparado com o que chega à totalização. No teste de integridade, votos preenchidos em cédulas de papel são digitados na urna e conferidos com o resultado que o aparelho entrega. O TSE explica o equipamento em detalhes no site oficial.
No primeiro turno, o tribunal informou que 421 urnas foram trocadas no dia, 0,7% das 499.248 em uso. O tribunal não detalha os motivos das trocas. Auditores do Tribunal de Contas da União acompanharam os testes de integridade e, segundo o TSE, não houve ocorrência até aquele momento. Em Patrocínio, a Justiça Eleitoral também fez o teste das urnas antes de 4 de outubro.
Uma ressalva: “nunca comprovada” significa que não há prova de fraude, não que a ausência dela tenha sido demonstrada de forma absoluta. É justamente por isso que existem as auditorias, a fiscalização dos partidos e o boletim de cada seção.
Quanto o eleitor confia nas urnas
A confiança do brasileiro está dividida e depende muito do candidato de preferência: quem confia nas urnas é maioria, mas por margem curta. A pesquisa Genial/Quaest de 5 a 9 de fevereiro, com 2.004 entrevistas e margem de erro de 2 pontos, registrada no TSE sob o número BR-00249/2026, encontrou 53% que consideram as urnas confiáveis e 43% que discordam. Entre quem votou em Lula em 2022, 75% confiavam e 22% desconfiavam. Entre os eleitores de Jair Bolsonaro, 26% confiavam e 69% desconfiavam.
Outro levantamento, o Meio/Ideia de agosto, perguntou o grau de confiança: 35% disseram confiar muito, 22% confiar pouco e 24% não confiar. Entre os simpatizantes de Flávio, 74% desconfiavam em algum grau. A Folha não encontrou pesquisa nacional que tenha medido o tema depois do primeiro turno, então ainda não se sabe se o resultado de 4 de outubro mexeu nesses números.
Há ainda um dado político. Até a publicação desta matéria, a Folha não encontrou contestação formal do resultado do primeiro turno por parte de nenhuma das duas campanhas. O teste mais duro da confiança, porém, vem em 25 de outubro, quando um dos dois vai perder.
Você confia nas urnas? O que fazer antes de 25 de outubro
Quem confia nas urnas costuma citar as auditorias, os 30 anos sem fraude comprovada e o boletim de cada seção. Quem desconfia pede mais transparência, um registro impresso do voto e acesso ampliado ao código. Os dois lados têm argumento, e o debate sobre como dar mais segurança sem travar a votação segue sem consenso.
Na prática, o eleitor pode acompanhar a apuração pelo site do TSE e conferir, depois, o boletim da própria seção. Também pode comparar os números nacionais com os de cada região, como mostram o levantamento de votos por escola em Patrocínio e a análise de como Lula foi nas regiões do país. Para entender por que as pesquisas erraram a ordem do primeiro turno, leia o balanço do erro das pesquisas, e para ver quem aparece à frente agora, a pesquisa Datafolha do segundo turno.
A pergunta, então, fica com quem lê: se o resultado de 25 de outubro for apertado, você confia nas urnas o bastante para aceitar a contagem, qualquer que seja o vencedor?
Fotos: Lula, Ricardo Stuckert/PR (CC BY-SA 4.0); Flávio Bolsonaro, Andressa Anholete/Agência Senado (CC BY-SA 4.0); urna eletrônica, TSE (domínio público).
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